segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Os Lados da Hiperconexão no mundo atual

 


CONTEMPLAÇÃO EM UM MUNDO HIPERCONECTADO

Guilherme Augusto (*)

Tudo acaba virando conteúdo para a internet hoje em dia. As redes sociais precisam ser atualizadas e, com isso, muitas pessoas veem o mundo por meio das lentes do celular. Uma visita a um ambiente diferente vira um evento, com luzes, câmeras e poses. Um passeio em um belo lugar torna-se um ensaio fotográfico; uma visita a um museu ou exposição transforma-se em uma transmissão ao vivo. Assim, o ambiente acaba não sendo aproveitado como deveria, e a vida segue mediada pela tecnologia.

Contemplar um ambiente e construir boas memórias tem sido um hábito pouco praticado. A ordem do dia é registrar conteúdos, enquanto a vida segue passando em alta velocidade. No final, ninguém está realmente presente em um lugar, uma vez que a mente segue vagando por horizontes online. Dados do relatório Digital 2025, mostram como essa hiperconectividade não é mera impressão. O relatório indica que o Brasil possui cerca de 183 milhões de usuários de internet e 144 milhões de usuários de redes sociais, sendo que os brasileiros passam muito tempo conectados, com uma média de três horas diárias em plataformas digitais.  Um cenário que evidencia como a atenção das pessoas está cada vez mais fragmentada, dividida com notificações, imagens e fluxos de informação que dificultam a experiência da presença plena.

Não digo que sou contra tirar fotos e registrar bons momentos; a questão é que nem tudo precisa virar foto. Estabelecer limites e aproveitar o ambiente deveria ser a ordem do dia. Desfrutar do lugar e realmente admirar o espaço deveria ser a principal prioridade das pessoas.

A filosofia fala sobre a contemplação, e o filósofo Josef Pieper explica que contemplar diz respeito à capacidade que o indivíduo tem de ver e perceber uma realidade, sendo essa habilidade ligada à autoconsciência. É a contemplação que permite que a pessoa conheça algo como realmente é, compreendendo, dessa forma, os fundamentos da realidade.

Com isso, podemos entender como a contemplação é um exercício intencional, que leva o ser humano a ver, admirar e perceber os detalhes da vida. Tendo em vista que muitos seguem sempre conectados, percebemos que essas pessoas nem sempre veem e desfrutam das coisas. No final, ninguém está realmente presente em um lugar.

Estar presente, contemplar e desfrutar do lugar são ações escassas em nossos dias, mas indispensáveis. Bons momentos não podem ser registrados apenas com fotos. Boas lembranças são construídas com a presença e o contato com o lugar e com as pessoas.

Saber desfrutar de um ambiente, conseguindo contemplar, dialogar e construir bons momentos, são atitudes que o ser humano precisa reaprender, uma vez que insiste em não se relacionar mais, seguindo solitário em meio às paisagens da vida. No final, suas memórias tornam-se apenas fotos de um ambiente que não foi verdadeiramente desfrutado.

(*) é mestre em Filosofia, especialista em Filosofia, e Professor regente mestre da área de Geociências, vinculado à Escola Superior de Educação, Humanidades e Línguas (ESEHL) do Centro Universitário Internacional Uninter.