CONTEMPLAÇÃO EM UM MUNDO
HIPERCONECTADO
Guilherme Augusto (*)
Tudo acaba virando
conteúdo para a internet hoje em dia. As redes sociais precisam ser atualizadas
e, com isso, muitas pessoas veem o mundo por meio das lentes do celular. Uma
visita a um ambiente diferente vira um evento, com luzes, câmeras e poses. Um passeio
em um belo lugar torna-se um ensaio fotográfico; uma visita a um museu ou
exposição transforma-se em uma transmissão ao vivo. Assim, o ambiente acaba não
sendo aproveitado como deveria, e a vida segue mediada pela tecnologia.
Contemplar um ambiente e
construir boas memórias tem sido um hábito pouco praticado. A ordem do dia é
registrar conteúdos, enquanto a vida segue passando em alta velocidade. No
final, ninguém está realmente presente em um lugar, uma vez que a mente segue
vagando por horizontes online. Dados do relatório Digital 2025, mostram como
essa hiperconectividade não é mera impressão. O relatório indica que o Brasil
possui cerca de 183 milhões de usuários de internet e 144 milhões de usuários
de redes sociais, sendo que os brasileiros passam muito tempo conectados, com
uma média de três horas diárias em plataformas digitais. Um cenário que
evidencia como a atenção das pessoas está cada vez mais fragmentada, dividida
com notificações, imagens e fluxos de informação que dificultam a experiência
da presença plena.
Não digo que sou contra
tirar fotos e registrar bons momentos; a questão é que nem tudo precisa virar
foto. Estabelecer limites e aproveitar o ambiente deveria ser a ordem do dia.
Desfrutar do lugar e realmente admirar o espaço deveria ser a principal prioridade
das pessoas.
A filosofia fala sobre a
contemplação, e o filósofo Josef Pieper explica que contemplar diz respeito à
capacidade que o indivíduo tem de ver e perceber uma realidade, sendo essa
habilidade ligada à autoconsciência. É a contemplação que permite que a pessoa
conheça algo como realmente é, compreendendo, dessa forma, os fundamentos da
realidade.
Com isso, podemos
entender como a contemplação é um exercício intencional, que leva o ser humano
a ver, admirar e perceber os detalhes da vida. Tendo em vista que muitos seguem
sempre conectados, percebemos que essas pessoas nem sempre veem e desfrutam das
coisas. No final, ninguém está realmente presente em um lugar.
Estar presente,
contemplar e desfrutar do lugar são ações escassas em nossos dias, mas
indispensáveis. Bons momentos não podem ser registrados apenas com fotos. Boas
lembranças são construídas com a presença e o contato com o lugar e com as
pessoas.
Saber desfrutar de um
ambiente, conseguindo contemplar, dialogar e construir bons momentos, são
atitudes que o ser humano precisa reaprender, uma vez que insiste em não se
relacionar mais, seguindo solitário em meio às paisagens da vida. No final,
suas memórias tornam-se apenas fotos de um ambiente que não foi verdadeiramente
desfrutado.
(*) é mestre em
Filosofia, especialista em Filosofia, e Professor regente mestre da área de
Geociências, vinculado à Escola Superior de Educação, Humanidades e Línguas
(ESEHL) do Centro Universitário Internacional Uninter.