domingo, 10 de maio de 2026

Reforma Tributária já muda e impacta as PMEs



REFORMA TRIBUTÁRIA; O QUE MUDA E JÁ COMEÇA A IMPACTAR AS PMES

Por Rafael Caribé   (*)

Desde o início do ano, a Reforma Tributária tem marcado um período de transformação fiscal profunda para as PMEs. Embora o período atual seja de transição e a plena vigência do novo sistema esteja prevista apenas para 2033, é preciso considerar o risco iminente de não se preparar para essa mudança. No longo prazo, o que está prestes a acontecer é uma mudança na lógica de funcionamento das empresas, afetando precificação de fornecedores, organização do caixa, operação tecnológica e estratégia comercial. 

Para os pequenos negócios, que representam 97% das empresas abertas no ano passado, conforme dados do Sebrae, trata-se de uma mudança de comportamento, cujo impacto mais relevante está na lógica dos créditos tributários. Se antes o imposto muitas vezes ficava diluído em cada etapa da cadeia, quase invisível para o consumidor na operação, o novo modelo do Imposto sobre Valor Agregado (IVA) traz mais transparência e, com isso, mais responsabilidade. Este novo sistema unifica os tributos em duas frentes: a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), de competência federal, e o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), que agrega impostos estaduais e municipais.

Na prática, o tributo pago passa a gerar créditos que podem ser abatidos depois, em um sistema que lembra programas de milhagem. Isto é, quando uma empresa comprar um insumo para trabalhar, o imposto pago na compra vai virar um crédito; quando ela vender o produto final, será gerado um débito de imposto. Ao pagar o governo, a empresa não pagará o valor cheio: ela abaterá os créditos acumulados e pagará apenas a diferença sobre o valor que ela mesma adicionou ao produto.

Embora essa mudança pareça positiva (e, em parte, será mesmo), há um efeito colateral importante, especialmente para empresas do Simples Nacional que operam no modelo B2B: ao manter o pagamento dentro da guia única, o DAS (Documento de Arrecadação do Simples Nacional), essas empresas tendem a gerar menos créditos de IBS e CBS para seus clientes do que concorrentes fora do regime. O resultado é que o cliente pode preferir comprar de quem oferece maior eficiência tributária, mesmo que o preço seja semelhante, criando uma concorrência fiscal.

Outro ponto que muda a rotina financeira das empresas é o split payment. Hoje, a empresa recebe o valor integral da venda, utiliza esse recurso como capital de giro e, semanas depois, faz o pagamento dos tributos. Esse intervalo, muitas vezes, sustenta a operação. Com o novo modelo, a tendência é que o imposto seja retido automaticamente no momento da transação, seja via Pix, cartão ou outros meios digitais. Na prática, parte do dinheiro não passa pela conta da empresa, impactando o caixa. Negócios que operam com margens apertadas ou controle financeiro menos rigoroso podem sentir a perda de fôlego para cobrir despesas.

Diante desse cenário, o principal desafio será fazer a gestão de impostos, demandas e agendas. Organizar dados financeiros, revisar a cadeia de fornecedores, investir em tecnologia, como em contabilidade automatizada, e buscar orientação especializada se tornam diferenciais para um bom preparo para 2033, pois, na prática, a Reforma Tributária já começou.

(*) é formado em Ciências da Computação pela Universidade Federal da Bahia e CEO da Agilize, primeira contabilidade online do Brasil.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

A VERGONHOSA E INTERMINÁVEL NOVELA DA RECUPERAÇÃO DA BR-319

 

A vergonha da BR 319 se arrasta, com decisões que protegem os interesses das ONGS e de Marina Silva

Sergio Pires (*) 

                Não há mais adjetivos que se possa utilizar sobre a verdadeira saga de horror que o reasfaltamento da BR 319 tem sofrido, nas mãos do Ministério Público Federal, de grande parte do Judiciário, principalmente em suas instâncias inferiores e, mais que tudo, pela pressão dqas ONGs, bancadas com dinheiro estrangeiro, que mandam e desmandam na Amazônia. É vergonhoso! É lamentável! É trágico!

                Foi mais uma repetição de tudo o que já se sabia. O governo federal autorizou a obra, liberou os recursos e até mudou a lei para que não se pudesse interromper o trabalho em obras de recuperação onde elas já tivessem ocorrido. Nada adiantou.

               Uma dessas ONGs que representam o terrorismo ambiental que foi imposto à população brasileira, num recurso simples à Justiça Federal, num processo analisado por uma juíza que passou sua vida sendo treinada e preparada para criminalizadr qualquer desenvolvimento na região, para “proteger o meio ambiente”, num canetaço, mandou parar uma obra de mais de 670 milhões de reais.

            Não importa se, poucas horas depois, uma decisão superior, do TRF 1,  tenha cassado a decisão da juíza federal. Não é este o ponto central. O que deixa a milhões de Amazônidas indignados é que, a qualquer momento, uma rodovia que integra o Amazonas ao resto do país; que já foi asfaltada há 50 anos e que é vital para toda a região, pode ter suas obras suspensas novamente paralisadas.

               Não haverá uma Amazônia verdadeiramente brasileira enquanto as ONGs dominarem a região. Algumas delas até que são importantes para a população mais pobre, mas a ampla maioria vivem em torno dos interesses estrangeiros, que estão se lixando em manter a floresta em pé. Querem mesmo são as riquezas que abundam no nosso território.

           Movidas a milhões de dólares e vivendo com o apoio de organismos aparelhados durante décadas, as ONGs vivem em função das nossas riquezas e são sempre agradecidas à sua Rainha, a ministra Martina Silva, que em seu Estado, o Acre, não se elegeria mais nem como vereadora. Mas é eleita por São Paulo, onde vive como uma madame, apoiada nas urnas por descerebrados que acham que ela é a salvadora do Planeta.
          
           Não dá vontade de vomitar?

(*) É jornalista e radialista responsável pela coluna Opinião de Primeira. 


terça-feira, 28 de abril de 2026

Um dilema moderno: Celular x Livros

 


Por que trocar o prazer das telas de celular pelo prazer da leitura?

Marcel Bennet (*)

Minha desconfiança com o entretenimento instantâneo começou numa manhã de sexta, a caminho do trabalho. A situação trivial, naquele vagão de metrô, teria sido há muito esquecida, salvo por um detalhe curioso: todas as pessoas sentadas, dentro do meu campo visual, tinham a cabeça inclinada e os olhos pregados em seus respectivos celulares. Havia, entre elas, rostos curiosos e concentrados; alguns pareciam divertidos; outros, tristes. O único traço comum a todos era o isolamento social.

Vivenciamos, com o advento dos modernos aparelhos celulares, uma era de conforto, comunicação e acesso à informação sem precedentes. Informação no sentido mais amplo possível: da singela música infantil ao esquema de funcionamento de um artefato bélico nuclear, passando por toda a sorte de conteúdo pensado para capturar a atenção do usuário pelo maior período de tempo possível. Onipresentes na rede, algoritmos eficientes identificam preferências individuais, realimentando o usuário em um interminável carrossel de novidades afins.

É sabido que o cérebro humano tende a repetir ações que ativem o sistema de recompensa baseado nos chamados “hormônios do prazer”, cuja finalidade é o reforço de comportamentos favoráveis à sobrevivência do indivíduo, como o estresse da caça, a concentração do aprendizado ou o esforço físico produtivo. Como não há dilemas de sobrevivência envolvidos na interminável rolagem da telinha, temos, nesse caso, o reforço de um hábito que leva o usuário a consumir horas do seu tempo numa atividade absolutamente estéril, tudo pelas endorfinas “baratas” e instantâneas proporcionadas pelo celular.

Este apego moderno tem substituído hábitos antigos mais saudáveis, como o da leitura. Ler exige, contrariamente ao entretenimento instantâneo, investimento de longo prazo. Adiando a recompensa, comunicamos ao nosso cérebro que coisas boas exigem esforço, investimento e participação. Ler demanda esforço intelectual, disciplina e comprometimento. É treino mental. Treino que abre portas para a satisfação da tarefa cumprida, do trabalho bem-feito, do aprendizado e da realização pessoal.

Se o usuário compulsivo das telas tende à preguiça e à procrastinação – pois está viciado em recompensas imediatas –, o leitor assíduo treina sua mente para as demandas da vida e para a ação.

E aí, de qual lado você quer ficar?

(*)  é escritor e autor do livro “Pássaro de Fogo – O Talismã de Yelnya”

Ilustração: Jornal Extra Classe. 

 


quarta-feira, 15 de abril de 2026

A Poesia ainda tem alguma finalidade?

 

PARA QUE SERVE A POESIA NO SÉCULO 21?

Por Marcelo Gomes Jorge Feres (*)

Podemos dizer, sem grande exagero, que a poesia foi mãe da filosofia e, de certo modo, avó das ciências. Se voltarmos à tradição ocidental, veremos que a busca pelo sentido da vida não é algo novo. Antes mesmo das explicações racionais da filosofia, vieram os mitos e as poesias. No mundo grego arcaico, os aedos e rapsodos já narravam, em versos, as origens, os conflitos, os deuses, os destinos e os mistérios da existência.  

Isso porque o ser humano, antes de explicar o mundo, precisou senti-lo. Antes das razões organizadas, vieram os espantos, como no homem que sai da caverna de Platão e se assombra com o real. E é justamente desse “thaumazéin”, como diriam os gregos, que nasceu a necessidade humana de uma linguagem simbólica, sensível e interior. 

A poesia sempre serviu como um modo de nomear aquilo que escapa. Ela não existe apenas para ornamentar a linguagem ou embelezar a realidade. Sua função mais profunda talvez seja a de restituir espessura à vida. Em outras palavras, ela nos ajuda a perceber que viver não é apenas funcionar. E esse ponto parece decisivo no século 21. 

Vivemos um tempo de aceleração contínua, de produtividade compulsória e de materialismos cada vez mais externos. Tudo nos empurra para fora: para a performance, para a exposição, para a utilidade, para o consumo veloz de conteúdos e sensações. E, assim, o espaço do silêncio e da contemplação vai sendo comprimido. 

Talvez por isso tanta gente experimente, hoje, uma estranha falta de sentido mesmo em meio a tantas possibilidades. Há informação em abundância, mas há pouca assimilação. Há conexão o tempo todo, mas pouca presença. Há discursos por toda parte, mas escasseiam as palavras que realmente toquem o ser. 

Quando quase tudo precisa “servir para alguma coisa” de modo prático, a poesia nos recorda que há valor também no invisível, e isso não é pouco. Ela nos devolve àquilo que ainda pulsa sob a rotina endurecida, e lembra que nem tudo o que importa pode ser medido, monetizado ou imediatamente explicado. 

Não por acaso, eu ainda gosto de voltar, em espírito, à Grécia antiga, aos templos, a Delfos, ao “conhece-te a ti mesmo”. Não por nostalgia estéril, mas porque ali permanece uma intuição decisiva: a de que o ser humano não vive apenas de respostas externas.  

Há algo que precisa ser buscado adentro e a poesia continua sendo uma das linguagens mais aptas para essa travessia interior. 

(*) é historiador, escritor, estudante de Filosofia e autor do livro “O Balbuciar de um Eterno”, sob o pseudônimo de Dionysius Fredericus.

 

quinta-feira, 2 de abril de 2026

O Motivo Invisível do Fracasso das Empresas

 


A crise invisível que está derrubando empreendedores no Brasil

 Waldison Miranda (*)

Durante muito tempo, o empreendedorismo foi tratado como um jogo exclusivamente financeiro: vender mais, reduzir custos e proteger o caixa. Essa lógica continua válida, mas já não explica por que tantos negócios deixam de crescer, ou simplesmente quebram. A verdade é mais incômoda: muitas empresas não fracassam por falta de mercado ou dinheiro, mas pela exaustão de quem lidera.

Existe uma crise silenciosa no empreendedorismo que não aparece nos balanços. Ela está na sobrecarga constante, na tomada de decisão sob pressão e na perda de clareza ao longo do tempo. Quando o empreendedor entra em colapso, o negócio vai junto.

O problema é que a gestão ainda é tratada quase exclusivamente como um exercício técnico. Fala-se de indicadores e eficiência, mas pouco sobre a capacidade real de quem lidera sustentar esse ritmo. Não adianta ter demanda e estratégia se quem decide está esgotado, a conta sempre chega, seja no caixa, na saúde ou nas relações.

A maioria aprende a vender e resolver problemas. Poucos aprendem a administrar a própria energia. E é aí que o desgaste começa. A crise não surge de um único erro, mas de um acúmulo de decisões tomadas no limite. Nesse ponto, o empreendedor deixa de liderar o negócio e passa a ser consumido por ele.

Os dados reforçam o cenário: 72% dos empreendedores relataram sintomas de burnout no último ano, segundo a Zipdo. Ainda assim, persiste a ideia de que sucesso é “dar conta de tudo”. Esse é um dos maiores equívocos do empreendedorismo.  Não existe crescimento sustentável sob exaustão contínua.
O conceito de equilíbrio, muitas vezes defendido como solução, também não se sustenta. A vida real não funciona em divisões iguais. O que funciona é harmonia, ajustar prioridades com consciência ao longo do tempo, sem abandonar o que sustenta o próprio empreendedor.

No fim, o maior erro não é crescer pouco, é crescer às custas de si mesmo. Porque nenhuma empresa se sustenta quando quem lidera já não consegue mais sustentar o próprio ritmo.

(*) é CEO da SOW Serviços e especialista em finanças, estratégia e desenvolvimento empresarial.

Ilustração: Terra. 

 

terça-feira, 31 de março de 2026

Software houses devem tratar a reforma tributária com estratégia de produto

 


Split payment exige que software houses tratem a reforma tributária como estratégia de produto

Por Jonathan Santos (*)

A reforma tributária brasileira inaugurou um mecanismo que muda profundamente a lógica de arrecadação de impostos sobre o consumo. Trata-se do split payment, modelo em que o valor do tributo é separado automaticamente no momento da liquidação financeira de uma transação. Em vez de o vendedor receber o valor total da venda para depois calcular e recolher o imposto, a parcela correspondente à CBS e ao IBS já é direcionada ao governo no instante em que o pagamento ocorre. Previsto na Lei Complementar nº 214 de 2025, esse mecanismo conecta diretamente o sistema de pagamentos ao sistema fiscal e altera a forma como empresas, bancos e softwares lidam com o fluxo do dinheiro.
O impacto prático aparece em situações corriqueiras: imagine uma empresa vendendo por cartão, Pix ou boleto. Hoje, grande parte dos sistemas foi desenhada para registrar a operação, conciliar o recebimento e só depois organizar a apuração tributária. Com o split payment, essa lógica se inverte. Pagamento, documento fiscal e cálculo do tributo passam a conversar muito mais cedo. A própria Receita Federal do Brasil já descreve essa nova fase como uma mudança na lógica do lançamento por homologação e afirma que o documento fiscal passa a ter papel central, com possibilidade de extinção do crédito tributário em tempo real.

Em outras palavras, o ERP deixa de ser apenas um espelho contábil da operação e se aproxima do coração transacional do negócio. É por isso que 2026 não pode ser tratado como um ano de observação passiva. O Manual da Reforma Tributária do Consumo, publicado pela Receita Federal do Brasil em janeiro de 2026, informa que CBS e IBS já convivem com os tributos atuais desde janeiro deste ano, embora sem pagamento efetivo nessa etapa inicial. O destaque nos documentos fiscais é declaratório, justamente para permitir adaptação.

O mesmo manual registra que já existem serviços digitais, calculadora oficial, apuração assistida e credenciais de acesso a API para a nova estrutura. O recado do governo, portanto, é claro. O período de testes não foi desenhado para contemplação, e sim para desenvolvimento, validação e correção. Quem esperar a fotografia final da regulamentação para começar provavelmente chegará tarde ao ambiente de homologação.

Há ainda um erro estratégico sendo cometido por parte do mercado. Muitas empresas enxergam o split payment apenas como custo de conformidade, quando ele também representa uma oportunidade de produto. Um ERP que automatiza a conciliação tributária, simula a segregação de valores, organiza contas a pagar e reduz o atrito entre financeiro e fiscal passa a entregar valor agora, e não apenas em 2027.

Esse é o tipo de evolução que fideliza clientes, reduz improvisos internos e transforma a reforma tributária em argumento comercial. O próprio material oficial do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) resume o espírito da mudança ao afirmar que o split payment automatiza o pagamento do imposto no ato da operação e aumenta a transparência do caminho do tributo. Quem traduzir esse princípio em interface simples e rotina operacional estará construindo vantagem antes da obrigação plena.

Alguns executivos ainda apostam que o melhor caminho é esperar, sob o argumento de que o modelo seria complexo demais ou sujeito a ajustes. Essa cautela é compreensível, mas está mal posicionada no tempo. Justamente por haver construção normativa e tecnológica em curso, a preparação precisa começar antes. O próprio manual oficial alerta que atos normativos e sistemas ainda estão em desenvolvimento e que mudanças são previstas ao longo da implementação. Em um cenário assim, a empresa que começa cedo não corre mais risco, corre menos. Ela consegue mapear dependências, treinar equipes, revisar integrações com meios de pagamento e testar fluxos reais com margem para erro. Já a empresa que adia transfere toda a complexidade para a última hora. O Brasil pode transformar o split payment em um marco de modernização tributária. No entanto, isso dependerá menos do texto legal em si e mais da capacidade do ecossistema de software de torná-lo operacional, inteligível e confiável.

A reforma não pede apenas atualização fiscal. Ela exige redesenho de produto, integração entre times e uma nova visão sobre o papel do ERP no negócio do cliente. O debate de 2026, portanto, não é sobre se a mudança virá, porque ela já começou. A pergunta relevante é quem vai usar esse intervalo para construir tecnologia pronta para o novo fluxo do imposto e quem vai descobrir tarde demais que tratou uma virada estrutural como se fosse apenas mais uma obrigação acessória

(*) é formado em Desenvolvimento de Software e tem mais de 20 anos de experiência no setor de tecnologia. Atualmente, CEO da TecnoSpeed.

 

sexta-feira, 27 de março de 2026

Um Novo Plano para a Educação Brasileira


UM NOVO PLANO PARA A EDUCAÇÃO BRASILEIRA 

Janguiê Diniz (*)

No último dia 25, o Brasil deu um passo importante para um futuro mais justo e próspero: a aprovação, pelo Senado Federal, do novo Plano Nacional de Educação (PNE). Em um contexto de desafios históricos que envolvem questões como acesso, permanência e qualidade em todos os níveis de ensino, a consolidação de um novo plano com objetivos e metas para a próxima década renova o compromisso do país com a educação. Mais do que um instrumento legal, o PNE é uma bússola que orienta prioridades, articula esforços federativos e mobiliza a sociedade em torno de um projeto coletivo de desenvolvimento.

 

Entre os avanços trazidos pelo novo plano, merece destaque o olhar mais ambicioso lançado sobre a educação superior. A meta de alcançar 40% dos jovens de 18 a 24 anos matriculados nesse nível de ensino explicita a necessidade de ampliar o acesso de forma consistente e sustentável. Trata-se de um salto significativo em relação ao plano anterior, que estabelecia o patamar de 33%, objetivo que não foi alcançado. Segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), em 2024 a taxa de matrícula nessa faixa etária ficou em 22,9%, evidenciando o tamanho do desafio que temos pela frente.

 

Essa nova meta não deve ser compreendida apenas como um número a ser atingido, mas como a expressão de um compromisso com a inclusão educacional e com a formação de capital humano qualificado. Ampliar o acesso à educação superior significa abrir portas para milhões de jovens, especialmente aqueles que historicamente estiveram à margem desse nível de ensino. Significa também reconhecer que o desenvolvimento econômico e social do país está diretamente relacionado à capacidade de formar profissionais preparados para lidar com as transformações tecnológicas, produtivas e sociais do século XXI.

 

Contudo, como enfatizamos ao longo de todo o período de vigência do plano que ora se encerra, trata-se de uma meta cujo alcance está diretamente condicionado ao fortalecimento de políticas públicas que garantam o acesso às instituições privadas de educação superior, como bolsas de estudo e financiamento estudantil. Responsável por quase 80% das matrículas de graduação no país, o setor privado detém a capilaridade e a capacidade necessárias para absorver esse contingente de jovens que, em muitos casos, permanece à margem do ensino superior não por falta de mérito, mas por restrições econômicas.

 

Em outra frente, a meta de formar, anualmente, 60 mestres e 20 doutores por 100 mil habitantes reforça a importância da pós-graduação como motor do desenvolvimento nacional. A formação de recursos humanos altamente qualificados é essencial para a inovação, para o avanço da ciência e para o fortalecimento da competitividade do país no cenário internacional. Ao estabelecer parâmetros claros para essa expansão, o novo plano reconhece o papel estratégico da pesquisa e da formação avançada na construção de um Brasil mais dinâmico e menos desigual.

 

Igualmente nesse ponto, é fundamental que o poder público reconheça, de forma mais incisiva, a relevância das instituições privadas. Embora avanços tenham sido registrados nos últimos anos, ainda é necessário ampliar os incentivos e fortalecer a participação do setor particular na oferta de cursos de pós-graduação stricto sensu, de modo a expandir a formação de mestres e doutores em consonância com as demandas do país.

 

Por fim, é importante ressaltar que os avanços previstos para a educação básica também passam, necessariamente, pelo fortalecimento da educação superior. É nas instituições de ensino superior que se formam os professores que atuarão nas etapas iniciais da educação. Portanto, metas relacionadas à melhoria da aprendizagem e à redução das desigualdades educacionais dependem, em grande medida, da capacidade do sistema de educação superior de formar profissionais bem preparados, com sólida base teórica e prática.

 

Nesse sentido, para que o novo PNE seja bem sucedido, é preciso que os formuladores das políticas educacionais adotem uma visão sistêmica da educação, na qual os diferentes níveis de ensino estão interligados e se retroalimentam. Não é possível pensar em uma educação básica de qualidade sem investir na formação de seus professores, assim como não é possível fortalecer a educação superior sem considerar seu impacto sobre toda a estrutura educacional do país.


A aprovação do PNE pelo Senado, e seu encaminhamento para a sanção presidencial, representa mais do que o cumprimento de uma etapa legislativa. Trata-se da renovação de um pacto nacional em torno da educação como vetor de transformação social. O sucesso desse plano dependerá, agora, da capacidade de implementação, do compromisso dos diferentes entes federativos e do engajamento de toda a sociedade.

 

Também é fundamental que o espírito coletivo que marcou todo o processo de construção do novo PNE seja preservado ao longo de sua implementação. Nos últimos anos, a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) participou ativamente de audiências públicas e apresentou contribuições relevantes, algumas das quais foram incorporadas ao texto final, como a previsão de acompanhamento periódico das metas em intervalos previamente definidos. A expectativa é de que, nos próximos dez anos, a execução do plano também se dê a partir da convergência de esforços entre poder público, instituições de ensino e demais atores do setor.

 

Há razões para otimismo. O estabelecimento de metas mais ousadas indica que o país está disposto a enfrentar seus desafios com mais ambição e clareza de propósito. Se bem executado, o novo Plano Nacional de Educação poderá contribuir decisivamente para ampliar oportunidades, reduzir desigualdades e construir um futuro em que a educação seja, de fato, um direito de todos e um instrumento efetivo de desenvolvimento nacional.


(*) Diretor-presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), secretário-executivo do Brasil Educação - Fórum Brasileiro da Educação Particular, fundador e controlador do grupo Ser Educacional, e presidente do Instituto Êxito de Empreendedorismo

sexta-feira, 20 de março de 2026

O Futuro da Construção é Modular?

 

O FUTURO DA CONSTRUÇÃO É MODULAR?

Por Pedro Rodrigues de Castro Jalles (*)  

A construção civil vive um momento de transformação. Pressionada por custos crescentes, escassez de mão de obra e demandas por sustentabilidade, o segmento começa a olhar para modelos mais industrializados, e é nesse contexto que a construção modular ganha protagonismo.

Mas afinal, estamos diante de uma tendência passageira ou de uma mudança estrutural no setor?

De acordo como os números, esse cenário não se trata de um movimento pontual. O mercado global de construção modular deve sair de cerca de US$ 100 bilhões em 2026 para mais de US$ 175 bilhões até 2034, mantendo crescimento consistente ao longo da próxima década, conforme aponta a Fortune Business Insights. No Brasil, o avanço segue a mesma direção: o setor já movimenta centenas de milhões de dólares e pode ultrapassar US$ 1,2 bilhão até 2032, impulsionado pela urbanização, déficit habitacional e busca por maior eficiência nas obras.

A lógica por trás desse crescimento é clara: ao transferir parte significativa da construção para ambientes industriais, com módulos produzidos em fábrica e posteriormente montados no local, o modelo modular reduz prazos, aumenta a previsibilidade e melhora o controle de qualidade. Em muitos casos, obras podem ser concluídas em meses, não anos, com menos desperdício de materiais e maior padronização.

Além disso, a construção modular responde diretamente a um dos principais gargalos do setor: a produtividade. Enquanto outros segmentos da economia avançaram com automação e escala, a construção civil permanece relativamente estagnada. A industrialização do processo construtivo surge, portanto, como uma resposta natural a essa defasagem.

Outro fator relevante é a sustentabilidade. Afinal, com processos mais controlados, a construção modular tende a gerar menos resíduos e otimizar o uso de insumos, alinhando-se às exigências ambientais cada vez mais rigorosas. Soma-se a isso a possibilidade de reaproveitamento e realocação de estruturas, especialmente em projetos temporários ou emergenciais.

No entanto, afirmar que o futuro da construção será totalmente modular ainda é precipitado. O modelo enfrenta desafios importantes, como barreiras regulatórias, necessidade de adaptação cultural do setor e limitações logísticas em determinadas regiões. Em muitos mercados, a construção modular ainda representa uma pequena parcela das edificações, embora com potencial de crescimento significativo nos próximos anos.

Mais do que substituir completamente os métodos tradicionais, a tendência é de coexistência. Projetos híbridos, que combinam elementos modulares com construção convencional, já são realidade e devem se tornar cada vez mais comuns.

O que parece certo é que o setor caminha para um novo paradigma: menos obra improvisada, mais engenharia de precisão; menos variabilidade, mais previsibilidade. Nesse cenário, a construção modular é um indicativo claro de para onde a indústria está evoluindo.

O futuro da construção talvez não seja exclusivamente modular, mas será, sem dúvida, mais industrializado, tecnológico e orientado à eficiência.

(*) é engenheiro e pesquisador.

 

segunda-feira, 9 de março de 2026

Banco Master coloca STF no centro dos problemas políticos

 

BANCO MASTER- QUANDO A CONFIANÇA NO STF É COLOCADA À PROVA

Bady Curi Neto (*)

Há tempos vivenciamos momentos de profunda inquietação institucional no âmbito de nossa mais alta Corte de Justiça, o Supremo Tribunal Federal (STF). Não se trata de crítica ideológica ou partidária, mas de preocupação manifestada por diversos juristas a partir de princípios elementares da ciência jurídica.

Entre os episódios frequentemente apontados estão:

·         alegadas incursões na esfera de competência de outros Poderes da República;

·         a imposição de medidas interpretadas por críticos como censura prévia a jornalistas, políticos e cidadãos, com bloqueios de redes sociais e aplicação de multas;

·         o julgamento, pelo próprio STF, de pessoas sem prerrogativa de foro — como em processos relacionados aos atos de 8 de janeiro — que, em tese, deveriam tramitar na primeira instância;

·         decisões monocráticas de grande impacto institucional, como a proferida em setembro de 2023 pelo ministro Dias Toffoli, que anulou acordo de leniência firmado pela empreiteira Odebrecht com o Ministério Público Federal;

·         a designação de relatoria de determinados inquéritos sem distribuição regular, o que, segundo críticos, poderia tensionar o princípio do juiz natural;

·         e a longa duração de investigações conduzidas no âmbito da Corte, alimentando a percepção de que tais procedimentos poderiam estar sendo utilizados para investigar ou constranger críticos do tribunal.

Recentemente, outro episódio ganhou repercussão após denúncias feitas por Eduardo Tagliaferro, ex-assessor do Tribunal Superior Eleitoral. Segundo ele, mensagens extraídas de seu celular indicariam a existência de uma estrutura no tribunal destinada à elaboração de relatórios e pareceres que teriam servido de base para decisões envolvendo bloqueio de redes sociais e restrições a opositores políticos.

Tagliaferro, atualmente na Itália, afirmou que tais relatórios teriam sido produzidos sob demanda. As denúncias, entretanto, permanecem objeto de controvérsia.

Em vez de instaurar investigação específica para apurar a veracidade das alegações, o Supremo Tribunal Federal recebeu denúncia contra o ex-assessor por crimes como violação de sigilo funcional e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito.

O episódio gerou críticas. Em editorial, o jornal O Estado de S. Paulo classificou a situação como juridicamente preocupante, apontando o fato de que o ministro Alexandre de Moraes — citado nas denúncias — teria participado do julgamento do caso.

Outro tema recente envolve investigações relacionadas ao Banco Master e seu então presidente, Daniel Vorcaro. Reportagens apontaram possíveis relações do banco com personagens do cenário político e jurídico. Segundo notícias veiculadas na imprensa, um fundo de investimento ligado ao banco adquiriu o resort Tayayá, pertencente ao ministro Dias Toffoli e seus irmãos. Inicialmente, o próprio ministro conduziu procedimentos relacionados ao caso, negando impedimento. Posteriormente, o processo, através de um arranjo jurídico, foi redistribuído ao ministro André Mendonça.

Outra informação amplamente divulgada refere-se a um contrato de honorários advocatícios firmado entre o Banco Master e a advogada Viviane Barci, esposa do ministro Alexandre de Moraes, no valor de R$ 129 milhões. Segundo reportagens, a dimensão do contrato levantou questionamentos sobre eventual conflito de interesses — hipótese negada pelos envolvidos.

Mais recentemente, reportagem da jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, revelou suposta troca de mensagens entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes no dia da prisão do banqueiro. O gabinete do ministro negou a existência dessas conversas.

Mesmo após a negativa oficial, a reportagem afirma que teve acesso a dados obtidos por meio de software de extração de conteúdo que teria recuperado mensagens originalmente enviadas em formato de visualização única.

Diante de tantas controvérsias, o que se espera — em nome da credibilidade institucional — é transparência e apuração rigorosa dos fatos. Num Estado Democrático de Direito, nenhuma autoridade está imune ao escrutínio público. Ao contrário: quanto maior o poder exercido por uma instituição, maior deve ser também o seu compromisso com a transparência, a imparcialidade e o respeito às garantias constitucionais.

A autoridade do Judiciário não se sustenta apenas na força de suas decisões, mas sobretudo na confiança que a sociedade deposita na imparcialidade de seus julgadores. Quando essa confiança se fragiliza, não é apenas a imagem de um tribunal que se desgasta. É a própria legitimidade institucional da Justiça que começa a ser silenciosamente corroída.

E sem confiança na Justiça, o Estado de Direito perde um de seus pilares mais essenciais.

Tenho dito!

(*) é advogado fundador do Escritório Bady Curi Advocacia Empresarial, ex-juiz do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG) e professor universitário.

 

domingo, 8 de março de 2026

IVES GRANDA COBRA RESGATE DA DEMOCRACIA

 


O STF E A FRONTEIRA DO EQUILÍBRIO DEMOCRÁTICO  

Ives Granda da Silva Martins (*)

Recentemente, tive a satisfação de conceder uma entrevista ao jornalista Pedro Campos, no programa Jornal Gente, da Rádio Bandeirantes. Indagado sobre o que está acontecendo com o Supremo Tribunal Federal, respondi a ele prontamente e, agora, compartilho com os leitores os pontos centrais daquelas considerações, como extensão desta reflexão."  
Tenho a impressão de que o cerne da questão reside no fato de que, em um determinado momento destes últimos anos, de forma inédita em nossa história, o Supremo decidiu assumir-se também um partner, um parceiro, um player político no cenário nacional.

Quando o Excelso Pretório começou a invadir as competências do Legislativo e do Executivo, ele, de certa forma, transformou-se no “Supremo Poder” da República, acima dos demais Poderes.
Durante o regime militar, tínhamos o Poder Executivo como dominante; agora, temos um Poder que, por ter a prerrogativa da “última palavra” sobre o Direito, interfere e legisla, repetidas vezes, no lugar do Parlamento e, frequentemente, atua nas atribuições do Executivo. Não emito juízo de valor sobre os ministros, até porque possuo obras escritas em coautoria com vários deles, participei de bancas de doutorado, compartilhei painéis e proferi palestras com a maioria deles e os considero grandes juristas.
Não concordo, entretanto, com suas atuais decisões porque vivi e participei daqueles 20 meses de discussão da Assembleia Nacional Constituinte, ao lado de Ulysses Guimarães e Bernardo Cabral — presidente e relator do processo que resultou na nossa Carta Magna. Esse fato me permitiu testemunhar a intenção original dos constituintes com a nova Constituição. Saindo de um regime de poder centralizado, o desejo dos constituintes era a consolidação de três Poderes estritamente independentes e harmônicos. Todavia, a partir do momento em que o STF assume prerrogativas não previstas no texto constitucional, agindo por conta própria, torna-se, inevitavelmente, um player político. Por esse motivo, independência e harmonia entre os Poderes, as competências de cada esfera foram delimitadas com exaustão na Constituição.

Houve um tempo em que o povo nutria um respeito profundo pelo Supremo, reconhecendo-o como a instituição mais digna e admirada do País. Eu saía com os ministros e andávamos sozinhos pela rua, sem necessidade de segurança. Naquela época, não era preciso dizer que eles eram os defensores da democracia, porque todos já o sabiam. Agora, infelizmente, tudo isso mudou.
Minha divergência não diz respeito aos juristas, nem à dignidade pessoal de cada um, mas à forma como passaram a interpretar e reescrever a Constituição Federal. Com todo respeito, e sem emitir juízo de valor, acredito que, no momento em que começaram a reescrever o texto e a interferir nos demais Poderes, tornaram-se alvos de reações políticas. À medida que essa demonstração de força se acentuou, os outros Poderes também reagiram. Portanto, os ministros passaram a sofrer reações igualmente políticas. 
Tenho a sensação de que o Supremo poderia retomar o perfil da era de Moreira Alves, Oscar Corrêa e outros. Os próprios ministros atuais poderiam reconduzir o Tribunal ao seu papel histórico: o de guardião da Constituição, e não o de legislador complementar ao Congresso ou de um Executivo ad hoc. Caso contrário, continuarão sendo alvo das críticas políticas, que variam conforme o posicionamento da ocasião.

O caso do “Banco Master”, por exemplo, deveria estar, a meu ver, sob o juiz natural, em primeira instância, pois Daniel Vorcaro não possui foro especial. No entanto, levaram a questão para o Supremo. O mesmo ocorreu com os episódios de 8 de janeiro: uma série de questões levadas à Corte sem que os envolvidos tivessem a prerrogativa que a Constituição exige para o julgamento pelo STF. A Constituição é clara sobre quem deve ser julgado pelo Supremo: o presidente, deputados, senadores e outros cargos específicos. Jamais cidadãos comuns, sem qualquer destaque na vida pública.

Este panorama desfigurou a imagem do STF. Pesquisas de opinião evidenciam que a reputação da Suprema Corte perante a sociedade é hoje muito inferior à de períodos anteriores, quando a instituição era amplamente respeitada. Somado a isso, nota-se uma reação crescente na imprensa e nas redes sociais contra um protagonismo que extrapola os limites estabelecidos pela Constituição.

A Constituição brasileira é clara: o artigo 49, inciso XI, estabelece ser competência exclusiva do Congresso Nacional "zelar pela preservação de sua competência legislativa em face da atribuição normativa dos outros Poderes".. Isso permite ao Parlamento sustar atos de outros Poderes que invadam sua função legislativa. Já o artigo 103, § 2º, reforça que, mesmo nas ações diretas de inconstitucionalidade por omissão, o papel do Supremo limita-se a declarar a lacuna e notificar o Legislativo. Ou seja, dar ciência ao Poder competente para a adoção das providências necessárias. O referido artigo regula a A ção Direta de Inconstitucionalidade por Omissão (ADO) e estabelece que, “ao declarar a inconstitucionalidade por falta de medida para tornar efetiva uma norma constitucional, o STF dará ciência ao Poder competente para a adoção das providências necessárias ou, se o órgão for administrativo, para fazê-lo em 30 dias”. Portanto, segundo a Carta Magna, o STF não pode substituir o Congresso, pois a criação da lei permanece como uma atribuição indelegável do Poder Legislativo. Ao decidir interferir nas funções do Legislativo e do Executivo, determinando, inclusive, atos administrativos de governo, o Judiciário rompeu o equilíbrio democrático. O resultado é que os três Poderes perderam sua essência e geraram uma profunda desfiguração institucional. É precisamente nessa politização generalizada que reside a grave crise de confiança que vivemos atualmente, evidenciando que a restauração da harmonia entre as instituições é, antes de tudo, o resgate do império da própria Constituição.

(*) é professor emérito das universidades Mackenzie, Unip, Unifieo, UniFMU, do Ciee/O Estado de São Paulo, das Escolas de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), Superior de Guerra (ESG) e da Magistratura do Tribunal Regional Federal – 1ª Região.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Quem Controla os Controladores?

 


IA:QUEM CONTROLA OSCONTROLADORES?

Por Rick Schwartz

Durante décadas, o conceito de inteligência artificial foi tratado como ficção e permeava nossa sociedade sob o prisma do imaginário. Hoje, em um salto de 4 anos, ela está silenciosamente incorporada ao cotidiano de toda a humanidade.

Algoritmos determinam o que vemos nas redes sociais, quais notícias chegam até nós, que músicas ouvimos e até mesmo quando alguém solicita um carro por aplicativo; o algoritmo decide com base em probabilidade de aceitação, tempo estimado e histórico de desempenho.

Eles não possuem consciência, mas possuem algo igualmente útil e poderoso: a capacidade analítica de prever o nosso comportamento. Quando abrimos as redes sociais, não estamos navegando em um espaço neutro, estamos atravessando um filtro algorítmico que prioriza conteúdos com maior probabilidade de manter nossa atenção na tela. O que é apresentado como uma grande vantagem, carrega um efeito social mais complexo do que parece.

O algoritmo aprende nossas preferências, muitas das quais estão relacionadas ao nosso perfil psicológico e biológico. Nesse campo estão as nossas inclinações políticas, nossos problemas de saúde e fragilidades emocionais. Toda essa espiral de informações passa a reforçar padrões.

No mercado global, sistemas de IA já participam de decisões financeiras. Plataformas como a Amazon ajustam preços dinamicamente conforme demanda, localização e perfil de consumo.

Em 2018, no campo político, veio à tona o caso da Cambridge Analytica, que utilizou dados do Facebook para influenciar campanhas políticas, evidenciando como informações coletadas por meio das redes sociais podem ser usadas para segmentar mensagens eleitorais. O dado se tornou insumo de estratégia e micro direcionamento de massas.

Outro exemplo são as chamadas Big Techs, que concentram a capacidade de processamento e armazenamento de dados. Empresas como Meta, Google, Amazon e Microsoft monopolizam a controladoria de serviços essenciais: busca, nuvem, comunicação, armazenamento e publicidade.

A inteligência artificial é absoluta no gerenciamento em larga escala: quanto mais preciso, maior a vantagem competitiva. A discussão atual não é sobre máquinas conscientes dominando o mundo. É sobre sistemas automatizados influenciando decisões humanas globalmente. E a grande reflexão que fica é: quem faz a regulação desses sistemas? Como proteger a privacidade e a autonomia individual? As leis referentes à IA que já vemos implementadas na União Europeia são suficientes?

O futuro aponta para sistemas cada vez mais integrados à estrutura social e eficientes, porém, invisíveis e difíceis de auditar. A tecnologia seguirá evoluindo e essa vigilância velada se enraizando cada vez mais nos dispositivos do dia a dia.

Vivemos um momento histórico em que a inteligência artificial não é mais hipótese distante e aqueles que detêm os dados, detêm capacidade de influenciar, modelar e definir o comportamento coletivo. A pergunta não é se a IA controla. A pergunta é: quem controla a IA? E, sobretudo, quem controla os controladores?

(*) é entusiasta da área de tecnologia, escritor e autor do livro “Future Rising: A Sétima Máquina”, ficção científica de atmosfera cyberpunk que aborda IA, poder algorítmico e os limites do livre-arbítrio humano

Ilustração: Jornal Expoente. 


terça-feira, 3 de março de 2026

As Novas Regras de Fiscalização, Pix, Mais Segurança e Mais Exigência de Contabilidade

 


Pix e novas regras de fiscalização em 2026: segurança reforçada ou motivo de pânico?

Por Marlon Tseng  (*)

Desde 1º de janeiro de 2026, instituições financeiras e plataformas de pagamento digital começaram a enviar à Receita Federal do Brasil informações consolidadas sobre movimentações financeiras acima de determinados limites mensais, mas isso não implica criação de imposto sobre transferências ou sobre o Pix, como têm sugerido boatos nas redes sociais. O objetivo oficial do Fisco é permitir cruzamentos automatizados de dados entre movimentações e declarações já entregues, para identificar eventuais inconsistências fiscais dentro dos limites legais de sigilo bancário. 

Ao contrário do que circula em alarmismos digitais, o sistema não envia cada transação individual, seja via Pix, TED ou DOC, nem monitora onde você gastou seu dinheiro ou com quem fez pagamentos. O foco é o valor agregado mensal: para pessoas físicas, entradas ou saídas totais a partir de R$5 mil mensais podem ser reportadas de forma consolidada; para empresas, o limite é de R$15 mil. Esses dados são comparados com as informações declaradas no Imposto de Renda e outras informações fiscais, buscando compatibilidade entre renda declarada e movimentação observada. 

A integração dos meios de pagamento digital ao ecossistema fiscal levantou questionamentos sobre privacidade e segurança dos dados. No entanto, vale reforçar que a tecnologia incorporada ao cruzamento de informações visa justamente aumentar a confiabilidade e a proteção dos usuários contra fraudes e inconsistências tributárias.

O Pix e os outros meios de pagamento digital são ferramentas modernas que trazem praticidade ao consumidor e, ao mesmo tempo, permitem que os mecanismos de fiscalização trabalhem com transparência e respeito ao sigilo. O cruzamento de dados não é uma forma de punição automática, mas um instrumento de segurança e conformidade, beneficiando tanto o governo quanto o cidadão que mantém sua vida financeira organizada.  

Um exemplo recente de como o cruzamento de informações impacta o contribuinte aparece no balanço da malha fina do Imposto de Renda 2025: dos aproximadamente 45,6 milhões de declarações recebidas, quase 3,97 milhões (cerca de 8,7%) foram inicialmente retidas na malha fiscal por inconsistências, um retrato de como dados financeiros e declarações prestadas podem conflitar no cruzamento automático realizado pelo Fisco. Desse total, cerca de 1,29 milhão de declarações ainda permaneciam na malha até outubro de 2025, enquanto mais de dois terços foram regularizados pelos próprios contribuintes sem necessidade de ação fiscal da Receita Federal. 

No cenário atual, a principal causa de alerta fiscal não é o uso de um meio de pagamento específico, mas a incompatibilidade entre os valores movimentados e a renda declarada ao Fisco. Movimentações divergentes ou sem comprovação documental podem gerar pedidos de esclarecimento, e em casos de irregularidade comprovada, autuações. 

Para o consumidor, a recomendação permanece clara: mantenha sua contabilidade organizada, guarde comprovantes de origem das receitas e despesas e confira se as suas declarações de renda refletem com precisão sua realidade financeira. A adoção de boas práticas na gestão financeira não só reduz o risco de cair na malha fina como também aproveita a capacidade dos meios de pagamento digitais de oferecer segurança e eficiência nas transações do dia a dia.

(*) é CEO da Pagsmile.  Ilustração: Indu Talks. 

segunda-feira, 2 de março de 2026

Reforma Tributária Muda as Regras do Jogo

 


O novo xadrez fiscal: por que a Reforma Tributária muda as regras do jogo?

Ana Paula Maciel (*)

Durante décadas, o Brasil jogou um jogo tributário cujas regras eram, na melhor das hipóteses, confusas. Guerra fiscal entre estados, cumulatividade de impostos e um emaranhado de legislações que desafiava até os enxadristas mais experientes. Com a aprovação da Reforma Tributária e o avanço das regulamentações da Lei Complementar, o tabuleiro foi virado. As peças mudaram, o objetivo foi redefinido e, agora, as empresas precisam aprender a jogar o "novo xadrez fiscal".

Engana-se quem acredita que a simplificação prometida pelo IVA Dual (IBS e CBS) significa facilidade imediata. Pelo contrário: acabamos de entrar na fase mais crítica da partida, que é o período de transição. Entre 2026 e 2033, as empresas viverão uma realidade de "dupla personalidade fiscal", tendo que apurar os tributos do sistema antigo (PIS, COFINS, ICMS, ISS) enquanto implementam e testam o novo modelo.

O primeiro grande desafio deste novo jogo é a mudança de paradigma da origem para o destino. Historicamente, a tributação ocorria onde o produto era fabricado ou o serviço prestado. Agora, o imposto é devido onde o consumo acontece. Isso derruba a lógica de incentivos fiscais que sustentou o planejamento estratégico de indústrias por anos. A pergunta que o CEO deve fazer ao seu time fiscal não é mais "onde a fábrica deve ficar para pagar menos imposto?", mas sim "como minha logística e precificação serão impactadas ao vender para o estado X ou Y?". A inteligência fiscal deixa de ser um acessório de compliance e torna-se vital para a formação de preço e margem de lucro.

Outro ponto de atenção que exige movimentos precisos é a tecnologia. A Reforma Tributária brasileira nasce digital. O conceito de split payment, que prevê o recolhimento do imposto no momento da liquidação financeira da transação, é revolucionário, mas impõe questões quanto ao fluxo de caixa. Se antes as empresas tinham prazos para recolher tributos, financiando-se com esse dinheiro no curto prazo, agora o Fisco retém sua parte em tempo real.

Neste cenário, a tecnologia fiscal não é mais sobre preencher guias, mas sobre conectividade e validação instantânea de regras. Quem ainda opera com sistemas legados ou processos manuais corre o risco de travar sua operação comercial. Qualquer erro no cadastro de um produto ou na classificação de um serviço não resultará apenas em uma multa futura, mas no bloqueio imediato da operação ou na retenção indevida de valores.

Além disso, temos a questão da não cumulatividade plena. A promessa de que "tudo gera crédito" é música para os ouvidos empresariais, mas a operacionalização disso exige um controle rigoroso. A empresa precisará garantir que seus fornecedores estejam regulares para que o crédito seja validado. Isso transforma a gestão de terceiros em uma peça-chave do tabuleiro. Um fornecedor inadimplente com o fisco pode se tornar um "peão" que impede a vitória na partida.

Portanto, o novo xadrez fiscal exige antecipação. Não basta esperar a obrigatoriedade bater à porta. As empresas precisam, agora, rodar simulações de impacto, revisar contratos de longo prazo, adaptar seus ERPs e, acima de tudo, aculturar seus times. O contador deixa de ser um "apurador de impostos" para se tornar um estrategista de dados.

A Reforma Tributária é, sem dúvida, um avanço necessário para a competitividade do Brasil no longo prazo. Mas, no curto e médio prazo, ela vai separar o mercado entre aqueles que entenderam as novas regras e aqueles que insistiram em jogar damas em um tabuleiro de xadrez. A simplificação virá, mas antes dela, teremos a complexidade da adaptação. E neste jogo, vence quem tiver a melhor tecnologia e a visão mais clara do tabuleiro.

(*) é diretora de conteúdo tributário da Vertex.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A IA Não Substitui o Humano na Inclusão Escolar

 


A Ilusão da Panaceia Digital: Por que a IA não substitui o olhar humano na inclusão escolar

Profa. Dra. Rosana Mendes Ribeiro (*)  

Vivemos um momento de euforia tecnológica. A Inteligência Artificial (IA) invadiu as salas de aula e as discussões pedagógicas com a promessa de ser o "grande equalizador" do ensino. A narrativa é sedutora: contar com um tutor personalizado para cada aluno, incansável, capaz de adaptar conteúdos em tempo real para quem possui dislexia, TDAH, discalculia ou simplesmente lacunas na base educacional.

As possibilidades proporcionadas pelas ferramentas que utilizam IA realmente são fascinantes. No entanto, precisamos ter a coragem de dizer o que os entusiastas da tecnologia muitas vezes ignoram: a IA não é uma solução totalmente confiável para a complexidade da dificuldade de aprendizagem da mente humana e a diversidade de perfis na aprendizagem.

Para um aluno com dificuldades de leitura, ferramentas de IA que resumem textos complexos ou convertem escrita em fala são pontes valiosas. A capacidade da IA de gerar exercícios infinitos sobre um tópico específico permite uma repetição que o professor, com 30 alunos ou mais em sala, dificilmente consegue gerenciar individualmente.

A tecnologia oferece acessibilidade instrumental ao remover barreiras mecânicas. Mas a aprendizagem - especialmente para quem tem dificuldades- não é apenas um processo mecânico de input e output de dados. É um processo emocional e de relacionamento. O calcanhar de Aquiles da IA, quando aplicada a alunos com dificuldades de aprendizagem, reside na sua própria natureza: ela é treinada com base em padrões. Ela busca a resposta mais provável baseada em bilhões de dados de experiências passadas, mas não tem a sensibilidade humana para lidar com ocorrências inesperadas e fora do que foi previamente analisado.

Ocorre que o aluno com dificuldade de aprendizagem é, por definição, a exceção ao padrão. Uma IA pode identificar que um aluno errou uma equação matemática, pode oferecer a solução passo a passo, mas não sabe se o erro ocorreu porque o aluno não sabe a tabuada, porque está com ansiedade paralisante, ou porque inverteu os números devido a uma disgrafia não diagnosticada.

Para a máquina, o sintoma (o erro) é tratado com uma correção lógica. Para o ser humano, o sintoma é um convite à investigação.

Além disso, temos o problema técnico da confiabilidade. IAs podem "alucinar" - inventam fatos com total confiança. Entregar uma ferramenta que pode gerar informações imprecisas a um aluno que já possui dificuldades de discernimento ou interpretação é perigoso. A tecnologia não tem compromisso ético com a verdade, nem responsabilidade moral sobre a frustração de uma criança que não consegue aprender com uma explicação gerada automaticamente e incorreta.

É aqui que a insubstituibilidade do educador se manifesta. O processo de ensino-aprendizagem para alunos com dificuldades exige nuance, algo que nenhum algoritmo possui. A percepção humana é o melhor caminho porque ela capta o invisível: o contexto emocional, a flexibilidade criativa e o vínculo de confiança com o aluno.

No contexto emocional, um professor percebe quando a dificuldade de aprendizagem é, na verdade, um problema de autoestima ou um reflexo de problemas domésticos. A IA não lê expressões faciais de frustração contida.

No que diz respeito à flexibilidade criativa, a IA repete explicações baseadas em dados pré existentes. Um educador humano inventa uma metáfora absurda, usa um jogo do recreio ou desenha no chão para fazer aquele aluno específico entender um conteúdo. A criatividade humana nasce da empatia, não da probabilidade estatística.

O vínculo da confiança é o "olhar nos olhos", que valida o esforço do aluno durante o processo, não apenas o resultado. Alunos com dificuldades de aprendizagem muitas vezes carregam traumas escolares e não aprendem com quem não confiam. A máquina não oferece acolhimento, ela oferece processamento.

O que podemos concluir é que a Inteligência Artificial deve entrar na escola como uma "muleta" sofisticada - útil para apoio, para tarefas repetitivas e para acessibilidade. Mas jamais como a "perna".

Delegar o suporte a alunos com dificuldades de aprendizagem para algoritmos é, de certo modo, uma forma de abandono digital. A tecnologia pode apontar onde está o erro, mas apenas a sensibilidade humana consegue entender quem está errando e por que. Na educação inclusiva, a tecnologia mais avançada ainda é, e sempre será, a empatia humana. A tecnologia oferece escala e velocidade, mas falha na "leitura da alma", necessária para apoiar alunos com dificuldades de aprendizagem.

 

(*) é sócia-fundadora do Núcleo Aprende, fonoaudióloga, psicopedagoga e idealizadora da Metodologia CDRA