Por que trocar o prazer
das telas de celular pelo prazer da leitura?
Marcel Bennet (*)
Minha desconfiança com o
entretenimento instantâneo começou numa manhã de sexta, a caminho do
trabalho. A situação trivial, naquele vagão de
metrô, teria sido há muito esquecida, salvo por um detalhe curioso:
todas as pessoas sentadas, dentro do meu campo visual, tinham a
cabeça inclinada e os olhos pregados em seus respectivos
celulares. Havia, entre elas, rostos curiosos e concentrados; alguns
pareciam divertidos; outros, tristes. O único traço comum a todos era
o isolamento social.
Vivenciamos, com o
advento dos modernos aparelhos celulares, uma era de conforto,
comunicação e acesso à informação sem precedentes. Informação no sentido
mais amplo possível: da singela música infantil ao esquema de
funcionamento de um artefato bélico nuclear, passando por toda a sorte de
conteúdo pensado para capturar a atenção do usuário pelo
maior período de tempo possível. Onipresentes na rede,
algoritmos eficientes identificam preferências
individuais, realimentando o usuário em um interminável carrossel de
novidades afins.
É sabido que o
cérebro humano tende a repetir ações que ativem o sistema
de recompensa baseado nos chamados “hormônios do prazer”,
cuja finalidade é o reforço de comportamentos favoráveis à
sobrevivência do indivíduo, como o estresse da caça, a
concentração do aprendizado ou o esforço
físico produtivo. Como não há dilemas de sobrevivência envolvidos na
interminável rolagem da telinha, temos, nesse caso, o reforço de um hábito que leva o
usuário a consumir horas do seu tempo numa atividade
absolutamente estéril, tudo pelas endorfinas “baratas” e instantâneas
proporcionadas pelo celular.
Este apego moderno tem
substituído hábitos antigos mais saudáveis, como o da
leitura. Ler exige, contrariamente ao entretenimento instantâneo,
investimento de longo prazo. Adiando a recompensa, comunicamos
ao nosso cérebro que coisas boas exigem esforço, investimento e
participação. Ler demanda esforço intelectual, disciplina e
comprometimento. É treino mental. Treino que abre portas para a
satisfação da tarefa cumprida, do trabalho bem-feito, do aprendizado e da
realização pessoal.
Se o usuário
compulsivo das telas tende à preguiça e à
procrastinação – pois está viciado em recompensas
imediatas –, o leitor assíduo treina sua mente para as demandas da
vida e para a ação.
E aí, de qual lado
você quer ficar?
(*) é escritor e autor do livro “Pássaro de
Fogo – O Talismã de Yelnya”
Ilustração: Jornal Extra Classe.