sexta-feira, 29 de maio de 2026

"Do Cango-tráfico ao Cango-terrismo" artigo de Samuel Saraiva

Do ‘Cango-tráfico’ ao ‘Cango-terrorismo’: a nova face da política externa de Lula

Samuel Saraiva (*)

“¡Vengan por mí, cobardes!” — gritou o cangaceiro, repetindo o camarada preso em Nova Iorque que, de “maduro”, apodrecera por lá junto com a companheira vadia.

 A trilogia ‘amedrontadora’ formada pelo lulismo, o terrorismo e o tráfico: a nova estratégia brasileira de apenas assistir aos acontecimentos

Há momentos em que a política produz cenas tão curiosas que a realidade parece pedir ajuda ao humor para ser compreendida. A recente notícia envolvendo o interesse americano em classificar o CV e o PCC como organizações terroristas produziu um espetáculo digno de observação.

Flávio Bolsonaro correu para reivindicar os louros. O governo Lula correu para monitorar. E Washington continuou fazendo o que Washington faz há décadas: tomando decisões com base em seus próprios interesses.

Talvez estejamos diante do nascimento de uma nova escola diplomática brasileira. A antiga política externa falava em protagonismo; a nova parece apostar no monitoramento.

Monitora-se tudo. Monitora-se Trump. Monitora-se o Congresso americano. Monitoram-se as intenções de Washington. Monitoram-se até os monitoramentos.

O próximo passo talvez seja criar um Ministério da Observação Preventiva dos Fatos Consumados. Porque, afinal, Lula monitora; Trump decide.

Não creio que Flávio Bolsonaro tenha sido o arquiteto da iniciativa americana. Seria um exagero tão grande quanto afirmar que um surfista criou o oceano. Mas seria igualmente injusto negar que soube aproveitar a onda. Flávio surfou a onda; Lula monitorou a maré.

A diferença parece pequena, mas na política, às vezes, ela separa quem aparece na fotografia de quem aparece no relatório de acompanhamento da fotografia.

O mais divertido, entretanto, é assistir ao drama patriótico repentino de quem descobre que grandes potências raramente pedem autorização para defender aquilo que consideram seus interesses estratégicos. É uma descoberta surpreendente. Os Estados Unidos fazem isso desde antes da invenção da televisão. Antes da internet. Antes mesmo de muitos dos atuais comentaristas políticos terem nascido.

Ainda assim, Brasília reagiu com solenidade. Anunciou que está monitorando possíveis interferências externas. A frase é maravilhosa. Tem a mesma eficácia prática de um passageiro anunciar que está monitorando atentamente a aproximação de um trem de carga.

A questão nunca foi observar. A questão sempre foi o que fazer depois. E é justamente aí que a sátira encontra a realidade. Porque a geopolítica possui um defeito terrível: ela não lê notas de repúdio, não assiste a coletivas indignadas, não se impressiona com discursos inflamados e não se intima com metáforas heroicas.

Ela responde apenas a uma linguagem muito antiga: poder. Poder econômico. Poder militar. Poder tecnológico. Poder diplomático. Todo o resto costuma ser material para discursos.

Por isso, confesso que pagaria ingresso para assistir a uma nova reunião entre Lula e Trump. De um lado, o homem que se apresenta como portador do sangue e da alma de cangaceiro. Do outro, o homem que construiu sua carreira política convencendo o eleitor americano de que os Estados Unidos devem agir como o xerife do mundo.

Entre o Cangaço e a Casa Branca, existe um detalhe inconveniente: o cangaço pode inspirar discursos, mas a Casa Branca controla porta-aviões. E a história ensina que, quando a retórica encontra o poder, normalmente é a retórica que precisa se adaptar.

Talvez seja por isso que o episódio mereça ser lembrado como o dia em que o cangaceiro encontrou o xerife. Não houve duelo. Não houve confronto. Não houve resistência épica. Houve monitoramento. Muito monitoramento.

Porque, na moderna República dos Monitores, acompanha-se tudo com enorme atenção. Apenas não se influencia quase nada. No final, sobra uma verdade desagradável, porém persistente: enquanto alguns observam o tabuleiro, outros movem as peças. E o observador, por mais atento que seja, continua sendo apenas espectador do jogo.

O ápice dessa paralisia é ver o próprio “Lulismo” ser parodiado e rebatizado pela força dos fatos. Ao estender o manto da retórica e dar um sentido de defesa explícita tanto à mística do cangaço quanto às facções criminosas, Lula acabou inspirando a criação dessas duas novas patologias políticas: o “Cango-tráfico” e o “Cango-rismo”. O problema é que, no xadrez de Washington, o romantismo ideológico perdeu o prazo de validade. As facções agora foram classificadas oficialmente como narcoterroristas, e o voluntarismo de Brasília virou piada de mau gosto.

(*) is a American citizen, Brazilian born, author of projects and proposals directed toward social engagement and environmental protection. Credentialed by the Police Department of the State of New York (NYPD) in 1992, he worked as correspondent and was a former member of the National Press Club of Washington (NPC) and the National Association of Hispanic Journalists (NAHJ) in Washington, D.C.


domingo, 10 de maio de 2026

Reforma Tributária já muda e impacta as PMEs



REFORMA TRIBUTÁRIA; O QUE MUDA E JÁ COMEÇA A IMPACTAR AS PMES

Por Rafael Caribé   (*)

Desde o início do ano, a Reforma Tributária tem marcado um período de transformação fiscal profunda para as PMEs. Embora o período atual seja de transição e a plena vigência do novo sistema esteja prevista apenas para 2033, é preciso considerar o risco iminente de não se preparar para essa mudança. No longo prazo, o que está prestes a acontecer é uma mudança na lógica de funcionamento das empresas, afetando precificação de fornecedores, organização do caixa, operação tecnológica e estratégia comercial. 

Para os pequenos negócios, que representam 97% das empresas abertas no ano passado, conforme dados do Sebrae, trata-se de uma mudança de comportamento, cujo impacto mais relevante está na lógica dos créditos tributários. Se antes o imposto muitas vezes ficava diluído em cada etapa da cadeia, quase invisível para o consumidor na operação, o novo modelo do Imposto sobre Valor Agregado (IVA) traz mais transparência e, com isso, mais responsabilidade. Este novo sistema unifica os tributos em duas frentes: a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), de competência federal, e o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), que agrega impostos estaduais e municipais.

Na prática, o tributo pago passa a gerar créditos que podem ser abatidos depois, em um sistema que lembra programas de milhagem. Isto é, quando uma empresa comprar um insumo para trabalhar, o imposto pago na compra vai virar um crédito; quando ela vender o produto final, será gerado um débito de imposto. Ao pagar o governo, a empresa não pagará o valor cheio: ela abaterá os créditos acumulados e pagará apenas a diferença sobre o valor que ela mesma adicionou ao produto.

Embora essa mudança pareça positiva (e, em parte, será mesmo), há um efeito colateral importante, especialmente para empresas do Simples Nacional que operam no modelo B2B: ao manter o pagamento dentro da guia única, o DAS (Documento de Arrecadação do Simples Nacional), essas empresas tendem a gerar menos créditos de IBS e CBS para seus clientes do que concorrentes fora do regime. O resultado é que o cliente pode preferir comprar de quem oferece maior eficiência tributária, mesmo que o preço seja semelhante, criando uma concorrência fiscal.

Outro ponto que muda a rotina financeira das empresas é o split payment. Hoje, a empresa recebe o valor integral da venda, utiliza esse recurso como capital de giro e, semanas depois, faz o pagamento dos tributos. Esse intervalo, muitas vezes, sustenta a operação. Com o novo modelo, a tendência é que o imposto seja retido automaticamente no momento da transação, seja via Pix, cartão ou outros meios digitais. Na prática, parte do dinheiro não passa pela conta da empresa, impactando o caixa. Negócios que operam com margens apertadas ou controle financeiro menos rigoroso podem sentir a perda de fôlego para cobrir despesas.

Diante desse cenário, o principal desafio será fazer a gestão de impostos, demandas e agendas. Organizar dados financeiros, revisar a cadeia de fornecedores, investir em tecnologia, como em contabilidade automatizada, e buscar orientação especializada se tornam diferenciais para um bom preparo para 2033, pois, na prática, a Reforma Tributária já começou.

(*) é formado em Ciências da Computação pela Universidade Federal da Bahia e CEO da Agilize, primeira contabilidade online do Brasil.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

A VERGONHOSA E INTERMINÁVEL NOVELA DA RECUPERAÇÃO DA BR-319

 

A vergonha da BR 319 se arrasta, com decisões que protegem os interesses das ONGS e de Marina Silva

Sergio Pires (*) 

                Não há mais adjetivos que se possa utilizar sobre a verdadeira saga de horror que o reasfaltamento da BR 319 tem sofrido, nas mãos do Ministério Público Federal, de grande parte do Judiciário, principalmente em suas instâncias inferiores e, mais que tudo, pela pressão dqas ONGs, bancadas com dinheiro estrangeiro, que mandam e desmandam na Amazônia. É vergonhoso! É lamentável! É trágico!

                Foi mais uma repetição de tudo o que já se sabia. O governo federal autorizou a obra, liberou os recursos e até mudou a lei para que não se pudesse interromper o trabalho em obras de recuperação onde elas já tivessem ocorrido. Nada adiantou.

               Uma dessas ONGs que representam o terrorismo ambiental que foi imposto à população brasileira, num recurso simples à Justiça Federal, num processo analisado por uma juíza que passou sua vida sendo treinada e preparada para criminalizadr qualquer desenvolvimento na região, para “proteger o meio ambiente”, num canetaço, mandou parar uma obra de mais de 670 milhões de reais.

            Não importa se, poucas horas depois, uma decisão superior, do TRF 1,  tenha cassado a decisão da juíza federal. Não é este o ponto central. O que deixa a milhões de Amazônidas indignados é que, a qualquer momento, uma rodovia que integra o Amazonas ao resto do país; que já foi asfaltada há 50 anos e que é vital para toda a região, pode ter suas obras suspensas novamente paralisadas.

               Não haverá uma Amazônia verdadeiramente brasileira enquanto as ONGs dominarem a região. Algumas delas até que são importantes para a população mais pobre, mas a ampla maioria vivem em torno dos interesses estrangeiros, que estão se lixando em manter a floresta em pé. Querem mesmo são as riquezas que abundam no nosso território.

           Movidas a milhões de dólares e vivendo com o apoio de organismos aparelhados durante décadas, as ONGs vivem em função das nossas riquezas e são sempre agradecidas à sua Rainha, a ministra Martina Silva, que em seu Estado, o Acre, não se elegeria mais nem como vereadora. Mas é eleita por São Paulo, onde vive como uma madame, apoiada nas urnas por descerebrados que acham que ela é a salvadora do Planeta.
          
           Não dá vontade de vomitar?

(*) É jornalista e radialista responsável pela coluna Opinião de Primeira. 


terça-feira, 28 de abril de 2026

Um dilema moderno: Celular x Livros

 


Por que trocar o prazer das telas de celular pelo prazer da leitura?

Marcel Bennet (*)

Minha desconfiança com o entretenimento instantâneo começou numa manhã de sexta, a caminho do trabalho. A situação trivial, naquele vagão de metrô, teria sido há muito esquecida, salvo por um detalhe curioso: todas as pessoas sentadas, dentro do meu campo visual, tinham a cabeça inclinada e os olhos pregados em seus respectivos celulares. Havia, entre elas, rostos curiosos e concentrados; alguns pareciam divertidos; outros, tristes. O único traço comum a todos era o isolamento social.

Vivenciamos, com o advento dos modernos aparelhos celulares, uma era de conforto, comunicação e acesso à informação sem precedentes. Informação no sentido mais amplo possível: da singela música infantil ao esquema de funcionamento de um artefato bélico nuclear, passando por toda a sorte de conteúdo pensado para capturar a atenção do usuário pelo maior período de tempo possível. Onipresentes na rede, algoritmos eficientes identificam preferências individuais, realimentando o usuário em um interminável carrossel de novidades afins.

É sabido que o cérebro humano tende a repetir ações que ativem o sistema de recompensa baseado nos chamados “hormônios do prazer”, cuja finalidade é o reforço de comportamentos favoráveis à sobrevivência do indivíduo, como o estresse da caça, a concentração do aprendizado ou o esforço físico produtivo. Como não há dilemas de sobrevivência envolvidos na interminável rolagem da telinha, temos, nesse caso, o reforço de um hábito que leva o usuário a consumir horas do seu tempo numa atividade absolutamente estéril, tudo pelas endorfinas “baratas” e instantâneas proporcionadas pelo celular.

Este apego moderno tem substituído hábitos antigos mais saudáveis, como o da leitura. Ler exige, contrariamente ao entretenimento instantâneo, investimento de longo prazo. Adiando a recompensa, comunicamos ao nosso cérebro que coisas boas exigem esforço, investimento e participação. Ler demanda esforço intelectual, disciplina e comprometimento. É treino mental. Treino que abre portas para a satisfação da tarefa cumprida, do trabalho bem-feito, do aprendizado e da realização pessoal.

Se o usuário compulsivo das telas tende à preguiça e à procrastinação – pois está viciado em recompensas imediatas –, o leitor assíduo treina sua mente para as demandas da vida e para a ação.

E aí, de qual lado você quer ficar?

(*)  é escritor e autor do livro “Pássaro de Fogo – O Talismã de Yelnya”

Ilustração: Jornal Extra Classe. 

 


quarta-feira, 15 de abril de 2026

A Poesia ainda tem alguma finalidade?

 

PARA QUE SERVE A POESIA NO SÉCULO 21?

Por Marcelo Gomes Jorge Feres (*)

Podemos dizer, sem grande exagero, que a poesia foi mãe da filosofia e, de certo modo, avó das ciências. Se voltarmos à tradição ocidental, veremos que a busca pelo sentido da vida não é algo novo. Antes mesmo das explicações racionais da filosofia, vieram os mitos e as poesias. No mundo grego arcaico, os aedos e rapsodos já narravam, em versos, as origens, os conflitos, os deuses, os destinos e os mistérios da existência.  

Isso porque o ser humano, antes de explicar o mundo, precisou senti-lo. Antes das razões organizadas, vieram os espantos, como no homem que sai da caverna de Platão e se assombra com o real. E é justamente desse “thaumazéin”, como diriam os gregos, que nasceu a necessidade humana de uma linguagem simbólica, sensível e interior. 

A poesia sempre serviu como um modo de nomear aquilo que escapa. Ela não existe apenas para ornamentar a linguagem ou embelezar a realidade. Sua função mais profunda talvez seja a de restituir espessura à vida. Em outras palavras, ela nos ajuda a perceber que viver não é apenas funcionar. E esse ponto parece decisivo no século 21. 

Vivemos um tempo de aceleração contínua, de produtividade compulsória e de materialismos cada vez mais externos. Tudo nos empurra para fora: para a performance, para a exposição, para a utilidade, para o consumo veloz de conteúdos e sensações. E, assim, o espaço do silêncio e da contemplação vai sendo comprimido. 

Talvez por isso tanta gente experimente, hoje, uma estranha falta de sentido mesmo em meio a tantas possibilidades. Há informação em abundância, mas há pouca assimilação. Há conexão o tempo todo, mas pouca presença. Há discursos por toda parte, mas escasseiam as palavras que realmente toquem o ser. 

Quando quase tudo precisa “servir para alguma coisa” de modo prático, a poesia nos recorda que há valor também no invisível, e isso não é pouco. Ela nos devolve àquilo que ainda pulsa sob a rotina endurecida, e lembra que nem tudo o que importa pode ser medido, monetizado ou imediatamente explicado. 

Não por acaso, eu ainda gosto de voltar, em espírito, à Grécia antiga, aos templos, a Delfos, ao “conhece-te a ti mesmo”. Não por nostalgia estéril, mas porque ali permanece uma intuição decisiva: a de que o ser humano não vive apenas de respostas externas.  

Há algo que precisa ser buscado adentro e a poesia continua sendo uma das linguagens mais aptas para essa travessia interior. 

(*) é historiador, escritor, estudante de Filosofia e autor do livro “O Balbuciar de um Eterno”, sob o pseudônimo de Dionysius Fredericus.

 

quinta-feira, 2 de abril de 2026

O Motivo Invisível do Fracasso das Empresas

 


A crise invisível que está derrubando empreendedores no Brasil

 Waldison Miranda (*)

Durante muito tempo, o empreendedorismo foi tratado como um jogo exclusivamente financeiro: vender mais, reduzir custos e proteger o caixa. Essa lógica continua válida, mas já não explica por que tantos negócios deixam de crescer, ou simplesmente quebram. A verdade é mais incômoda: muitas empresas não fracassam por falta de mercado ou dinheiro, mas pela exaustão de quem lidera.

Existe uma crise silenciosa no empreendedorismo que não aparece nos balanços. Ela está na sobrecarga constante, na tomada de decisão sob pressão e na perda de clareza ao longo do tempo. Quando o empreendedor entra em colapso, o negócio vai junto.

O problema é que a gestão ainda é tratada quase exclusivamente como um exercício técnico. Fala-se de indicadores e eficiência, mas pouco sobre a capacidade real de quem lidera sustentar esse ritmo. Não adianta ter demanda e estratégia se quem decide está esgotado, a conta sempre chega, seja no caixa, na saúde ou nas relações.

A maioria aprende a vender e resolver problemas. Poucos aprendem a administrar a própria energia. E é aí que o desgaste começa. A crise não surge de um único erro, mas de um acúmulo de decisões tomadas no limite. Nesse ponto, o empreendedor deixa de liderar o negócio e passa a ser consumido por ele.

Os dados reforçam o cenário: 72% dos empreendedores relataram sintomas de burnout no último ano, segundo a Zipdo. Ainda assim, persiste a ideia de que sucesso é “dar conta de tudo”. Esse é um dos maiores equívocos do empreendedorismo.  Não existe crescimento sustentável sob exaustão contínua.
O conceito de equilíbrio, muitas vezes defendido como solução, também não se sustenta. A vida real não funciona em divisões iguais. O que funciona é harmonia, ajustar prioridades com consciência ao longo do tempo, sem abandonar o que sustenta o próprio empreendedor.

No fim, o maior erro não é crescer pouco, é crescer às custas de si mesmo. Porque nenhuma empresa se sustenta quando quem lidera já não consegue mais sustentar o próprio ritmo.

(*) é CEO da SOW Serviços e especialista em finanças, estratégia e desenvolvimento empresarial.

Ilustração: Terra. 

 

terça-feira, 31 de março de 2026

Software houses devem tratar a reforma tributária com estratégia de produto

 


Split payment exige que software houses tratem a reforma tributária como estratégia de produto

Por Jonathan Santos (*)

A reforma tributária brasileira inaugurou um mecanismo que muda profundamente a lógica de arrecadação de impostos sobre o consumo. Trata-se do split payment, modelo em que o valor do tributo é separado automaticamente no momento da liquidação financeira de uma transação. Em vez de o vendedor receber o valor total da venda para depois calcular e recolher o imposto, a parcela correspondente à CBS e ao IBS já é direcionada ao governo no instante em que o pagamento ocorre. Previsto na Lei Complementar nº 214 de 2025, esse mecanismo conecta diretamente o sistema de pagamentos ao sistema fiscal e altera a forma como empresas, bancos e softwares lidam com o fluxo do dinheiro.
O impacto prático aparece em situações corriqueiras: imagine uma empresa vendendo por cartão, Pix ou boleto. Hoje, grande parte dos sistemas foi desenhada para registrar a operação, conciliar o recebimento e só depois organizar a apuração tributária. Com o split payment, essa lógica se inverte. Pagamento, documento fiscal e cálculo do tributo passam a conversar muito mais cedo. A própria Receita Federal do Brasil já descreve essa nova fase como uma mudança na lógica do lançamento por homologação e afirma que o documento fiscal passa a ter papel central, com possibilidade de extinção do crédito tributário em tempo real.

Em outras palavras, o ERP deixa de ser apenas um espelho contábil da operação e se aproxima do coração transacional do negócio. É por isso que 2026 não pode ser tratado como um ano de observação passiva. O Manual da Reforma Tributária do Consumo, publicado pela Receita Federal do Brasil em janeiro de 2026, informa que CBS e IBS já convivem com os tributos atuais desde janeiro deste ano, embora sem pagamento efetivo nessa etapa inicial. O destaque nos documentos fiscais é declaratório, justamente para permitir adaptação.

O mesmo manual registra que já existem serviços digitais, calculadora oficial, apuração assistida e credenciais de acesso a API para a nova estrutura. O recado do governo, portanto, é claro. O período de testes não foi desenhado para contemplação, e sim para desenvolvimento, validação e correção. Quem esperar a fotografia final da regulamentação para começar provavelmente chegará tarde ao ambiente de homologação.

Há ainda um erro estratégico sendo cometido por parte do mercado. Muitas empresas enxergam o split payment apenas como custo de conformidade, quando ele também representa uma oportunidade de produto. Um ERP que automatiza a conciliação tributária, simula a segregação de valores, organiza contas a pagar e reduz o atrito entre financeiro e fiscal passa a entregar valor agora, e não apenas em 2027.

Esse é o tipo de evolução que fideliza clientes, reduz improvisos internos e transforma a reforma tributária em argumento comercial. O próprio material oficial do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) resume o espírito da mudança ao afirmar que o split payment automatiza o pagamento do imposto no ato da operação e aumenta a transparência do caminho do tributo. Quem traduzir esse princípio em interface simples e rotina operacional estará construindo vantagem antes da obrigação plena.

Alguns executivos ainda apostam que o melhor caminho é esperar, sob o argumento de que o modelo seria complexo demais ou sujeito a ajustes. Essa cautela é compreensível, mas está mal posicionada no tempo. Justamente por haver construção normativa e tecnológica em curso, a preparação precisa começar antes. O próprio manual oficial alerta que atos normativos e sistemas ainda estão em desenvolvimento e que mudanças são previstas ao longo da implementação. Em um cenário assim, a empresa que começa cedo não corre mais risco, corre menos. Ela consegue mapear dependências, treinar equipes, revisar integrações com meios de pagamento e testar fluxos reais com margem para erro. Já a empresa que adia transfere toda a complexidade para a última hora. O Brasil pode transformar o split payment em um marco de modernização tributária. No entanto, isso dependerá menos do texto legal em si e mais da capacidade do ecossistema de software de torná-lo operacional, inteligível e confiável.

A reforma não pede apenas atualização fiscal. Ela exige redesenho de produto, integração entre times e uma nova visão sobre o papel do ERP no negócio do cliente. O debate de 2026, portanto, não é sobre se a mudança virá, porque ela já começou. A pergunta relevante é quem vai usar esse intervalo para construir tecnologia pronta para o novo fluxo do imposto e quem vai descobrir tarde demais que tratou uma virada estrutural como se fosse apenas mais uma obrigação acessória

(*) é formado em Desenvolvimento de Software e tem mais de 20 anos de experiência no setor de tecnologia. Atualmente, CEO da TecnoSpeed.