A ciência já provou que
consegue criar super-humanos. A pergunta é até onde podemos ir?
Por Dr. Guilherme
Storch (*)
Durante uma visita à
Novartis, na Suíça, tive a oportunidade de conhecer de perto o desenvolvimento
de terapias gênicas. Saí de lá pensando em uma questão que ultrapassa o
tratamento de doenças. O que acontecerá quando conseguirmos modificar
características humanas de maneira cada vez mais direcionada?
A expressão
“super-humanos” ainda pertence ao campo das hipóteses. A ciência não demonstrou
que consegue criar pessoas com capacidades superiores de forma ampla e
previsível. O que já existe, e vem mudando a medicina, é a possibilidade de
editar genes para tratar determinadas condições. Estamos começando a intervir
em mecanismos que antes só conseguíamos observar.
A edição genética já
chegou aos pacientes
Em dezembro de 2023, os
Estados Unidos aprovaram o Casgevy, primeiro tratamento autorizado pela FDA a
utilizar a tecnologia CRISPR, inicialmente indicado para determinados pacientes
com anemia falciforme.
O procedimento envolve a
retirada de células-tronco do sangue do próprio paciente. Em laboratório, elas
passam por uma edição genética destinada a aumentar a produção de hemoglobina
fetal, que ajuda a impedir a deformação das hemácias. Depois de uma preparação
da medula óssea, o material modificado é devolvido ao organismo.
A intervenção não altera
todos os genes da pessoa. Ela atua sobre células específicas e busca tratar uma
doença que pode provocar crises de dor, lesões em órgãos e outras complicações.
O processo também envolve riscos e acompanhamento médico. Não é uma aplicação
simples, muito menos um recurso destinado ao aprimoramento de pessoas
saudáveis.
Ainda assim, representa
uma mudança na maneira de tratar determinadas condições genéticas. Em vez de
atuar exclusivamente sobre suas consequências, a medicina passa a modificar um
mecanismo causador da doença.
Quando a alteração passa
para os filhos
Existe uma diferença
entre editar células de um paciente e realizar modificações que possam ser
transmitidas às próximas gerações. As terapias somáticas, como a utilizada no
tratamento da anemia falciforme, não têm como objetivo alterar óvulos ou
espermatozoides. Seus efeitos genéticos não são herdados pelos filhos. A
situação muda quando a intervenção ocorre em embriões destinados à reprodução
ou em células da linhagem germinativa.
Em 2018, o anúncio do
nascimento de bebês com DNA editado na China provocou reação internacional. O
pesquisador responsável havia utilizado CRISPR em embriões para alterar um gene
relacionado à suscetibilidade ao HIV.
O experimento levantou
questões sobre segurança, consentimento, efeitos imprevistos e consequências
para pessoas que ainda não haviam nascido. A Organização Mundial da Saúde
passou a desenvolver recomendações para a governança da edição do genoma
humano, distinguindo as aplicações somáticas das modificações
hereditárias.
Esse episódio mostrou que
a capacidade técnica de realizar uma intervenção não resolve, por si só, a
questão de quando e em quais condições ela deve ser utilizada.
Tratar uma doença é
diferente de aprimorar uma característica
Se conseguimos modificar
uma célula para combater uma enfermidade, é natural que surja outra pergunta.
Poderíamos utilizar ferramentas semelhantes para alterar força muscular,
resistência física ou determinadas capacidades cognitivas? Essa discussão pertence
ao campo do aprimoramento humano, conhecido como human enhancement.
O problema é que essas
características não dependem, em geral, de um único gene. Elas resultam em
interações entre inúmeras variantes genéticas, ambiente, desenvolvimento e
experiências individuais.
Não existe hoje um
procedimento comprovado que permita editar alguns genes e produzir, de maneira
previsível e segura, uma pessoa com inteligência ou desempenho físico
superiores.
Também precisamos
distinguir essa discussão dos escores de risco poligênico. Essas ferramentas
combinam informações sobre variantes genéticas para estimar a predisposição a
determinadas doenças. Elas trabalham com probabilidades e não determinam o
futuro de uma pessoa.
Conhecer uma
predisposição pode ajudar na pesquisa e, em situações específicas, orientar
decisões preventivas. Não significa que já saibamos modificar todos os fatores
genéticos envolvidos.
É justamente por isso que
vejo a prevenção como uma das aplicações que merecem atenção. Se conseguimos
identificar riscos antes do aparecimento de uma doença, temos a possibilidade
de acompanhar o paciente, investigar alterações e adotar medidas de cuidado. Em
alguns casos, a genética poderá fazer parte dessa estratégia. Em outros, o
conhecimento disponível ainda não permitirá uma intervenção direcionada.
A edição do genoma está
demonstrando que determinadas características biológicas podem ser modificadas
para tratar enfermidades. O passo seguinte não é necessariamente criar pessoas
mais fortes, inteligentes ou resistentes. É compreender quais intervenções
realmente oferecem benefícios, quais riscos podem produzir e quem terá acesso a
elas. A medicina terá de lidar com essas escolhas à medida que as tecnologias
avançarem.
E deixo uma pergunta para
reflexão. Se fosse possível editar um gene para evitar uma doença antes que ela
aparecesse, você faria isso?
(*) é médico referência em Medicina Regenerativa.
