Do ‘Cango-tráfico’ ao
‘Cango-terrorismo’: a nova face da política externa de Lula
Samuel Saraiva (*)
“¡Vengan por mí,
cobardes!” — gritou o cangaceiro, repetindo o camarada preso em Nova Iorque
que, de “maduro”, apodrecera por lá junto com a companheira vadia.
A trilogia
‘amedrontadora’ formada pelo lulismo, o terrorismo e o tráfico: a nova
estratégia brasileira de apenas assistir aos acontecimentos
Há
momentos em que a política produz cenas tão curiosas que a realidade parece
pedir ajuda ao humor para ser compreendida. A recente notícia envolvendo o
interesse americano em classificar o CV e o PCC como organizações terroristas
produziu um espetáculo digno de observação.
Flávio Bolsonaro correu
para reivindicar os louros. O governo Lula correu para monitorar. E Washington
continuou fazendo o que Washington faz há décadas: tomando decisões com base em
seus próprios interesses.
Talvez estejamos diante
do nascimento de uma nova escola diplomática brasileira. A antiga política
externa falava em protagonismo; a nova parece apostar no monitoramento.
Monitora-se tudo.
Monitora-se Trump. Monitora-se o Congresso americano. Monitoram-se as intenções
de Washington. Monitoram-se até os monitoramentos.
O próximo passo talvez
seja criar um Ministério da Observação Preventiva dos Fatos Consumados. Porque,
afinal, Lula monitora; Trump decide.
Não creio que Flávio
Bolsonaro tenha sido o arquiteto da iniciativa americana. Seria um
exagero tão grande quanto afirmar que um surfista criou o oceano. Mas
seria igualmente injusto negar que soube aproveitar a onda. Flávio surfou a
onda; Lula monitorou a maré.
A diferença parece
pequena, mas na política, às vezes, ela separa quem aparece na
fotografia de quem aparece no relatório de acompanhamento da fotografia.
O mais divertido,
entretanto, é assistir ao drama patriótico repentino de quem descobre que
grandes potências raramente pedem autorização para defender aquilo que
consideram seus interesses estratégicos. É uma descoberta surpreendente. Os
Estados Unidos fazem isso desde antes da invenção da televisão. Antes da
internet. Antes mesmo de muitos dos atuais comentaristas políticos terem
nascido.
Ainda assim, Brasília
reagiu com solenidade. Anunciou que está monitorando possíveis interferências
externas. A frase é maravilhosa. Tem a mesma eficácia prática de um
passageiro anunciar que está monitorando atentamente a aproximação de um trem
de carga.
A questão nunca foi
observar. A questão sempre foi o que fazer depois. E é justamente aí que a
sátira encontra a realidade. Porque a geopolítica possui um defeito
terrível: ela não lê notas de repúdio, não assiste a coletivas
indignadas, não se impressiona com discursos inflamados e não se intima com
metáforas heroicas.
Ela responde apenas a uma
linguagem muito antiga: poder. Poder econômico. Poder militar. Poder
tecnológico. Poder diplomático. Todo o resto costuma ser material para
discursos.
Por isso, confesso que
pagaria ingresso para assistir a uma nova reunião entre Lula e Trump. De um
lado, o homem que se apresenta como portador do sangue e da alma de cangaceiro.
Do outro, o homem que construiu sua carreira política convencendo o eleitor
americano de que os Estados Unidos devem agir como o xerife do mundo.
Entre o Cangaço e a Casa
Branca, existe um detalhe inconveniente: o cangaço pode inspirar
discursos, mas a Casa Branca controla porta-aviões. E a história
ensina que, quando a retórica encontra o poder, normalmente é a retórica que
precisa se adaptar.
Talvez seja por isso que
o episódio mereça ser lembrado como o dia em que o cangaceiro encontrou o
xerife. Não houve duelo. Não houve confronto. Não houve resistência épica.
Houve monitoramento. Muito monitoramento.
Porque, na moderna
República dos Monitores, acompanha-se tudo com enorme atenção. Apenas não se
influencia quase nada. No final, sobra uma verdade desagradável, porém
persistente: enquanto alguns observam o tabuleiro, outros movem as peças. E o
observador, por mais atento que seja, continua sendo apenas espectador do jogo.
O ápice dessa paralisia é
ver o próprio “Lulismo” ser parodiado e rebatizado pela força dos fatos. Ao
estender o manto da retórica e dar um sentido de defesa explícita tanto à
mística do cangaço quanto às facções criminosas, Lula acabou inspirando a criação
dessas duas novas patologias políticas: o “Cango-tráfico” e o “Cango-rismo”. O
problema é que, no xadrez de Washington, o romantismo ideológico perdeu o prazo
de validade. As facções agora foram classificadas oficialmente como
narcoterroristas, e o voluntarismo de Brasília virou piada de mau gosto.
(*) is a American
citizen, Brazilian born, author of projects and proposals directed toward
social engagement and environmental protection. Credentialed by the Police
Department of the State of New York (NYPD) in 1992, he worked as correspondent
and was a former member of the National Press Club of Washington (NPC) and the
National Association of Hispanic Journalists (NAHJ) in Washington, D.C.
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