segunda-feira, 6 de julho de 2026

Os Mais Velhos Estão Sendo Uma ´Parcela Significativa do Mercado de Trabalho

 

BRASIL ENVELHECE-E O MERCADO DE TRABALHO NÃO ACOMPANHOU ESSA MUDANÇA

Envelhecer trabalhando: renda, propósito e o novo perfil do mercado brasileiro

Por Mórris Litvak (*)

O envelhecimento da população brasileira já não é uma projeção distante; é um fenômeno em curso que está redefinindo o mercado de trabalho. Hoje, milhões de brasileiros com 60 anos ou mais seguem economicamente ativos, e não apenas por necessidade financeira. Há também uma mudança relevante de comportamento: uma parcela crescente deseja  permanecer produtiva, conectada e socialmente inserida.

Segundo levantamento da Nexus com base em dados da PNAD Contínua/IBGE, o número de brasileiros com 60 anos ou mais em atividade profissional chegou a 8,7 milhões. O dado revela não apenas a crescente participação desse grupo no mercado de trabalho, mas também uma mudança na forma como a aposentadoria é encarada, cada vez menos associada ao encerramento definitivo da vida profissional. 

A permanência no trabalho, para muitos, ainda está ligada à renda. Com uma  aposentadoria que, em grande parte dos casos, não é suficiente para garantir estabilidade financeira, parte dessa população recorre à informalidade ou ao trabalho autônomo – muitas vezes sem proteção social adequada. Mas reduzir esse movimento apenas à necessidade econômica seria incompleto.

Há também um componente subjetivo relevante. O trabalho segue sendo fonte de identidade, rotina e pertencimento social. Para muitos, parar de trabalhar não significa apenas interromper uma renda, mas também quebrar vínculos e perder um papel social construído ao longo de décadas. Esse duplo movimento financeiro e existencial ajuda a explicar por que o grupo 60+ cresce no mercado de trabalho, mesmo em um cenário de envelhecimento populacional acelerado.

Apesar disso, o mercado brasileiro ainda não se ajustou plenamente a essa realidade. A lógica predominante de contratação segue fortemente centrada em profissionais mais jovens, com valorização de habilidades técnicas recentes e menor atenção à experiência acumulada. O resultado é um desalinhamento entre oferta e demanda de trabalho: de um lado, uma população mais longeva e disposta a permanecer ativa; de outro, estruturas organizacionais que ainda operam com uma visão linear de carreira: estudar, trabalhar e aposentar.

Esse descompasso alimenta barreiras conhecidas, como o etarismo, que ainda influencia decisões de contratação e promoção. Em muitos casos, a idade é interpretada como limitação, e não como ativo profissional. Isso ocorre apesar de evidências práticas mostrarem que a experiência acumulada ao longo da carreira tem valor crescente em ambientes mais complexos, especialmente na tomada de decisão e na gestão de riscos.

Ao mesmo tempo, a convivência entre gerações distintas tende a produzir ganhos relevantes. Profissionais mais jovens trazem maior familiaridade com novas tecnologias e agilidade de adaptação. Já os mais experientes oferecem contexto, visão sistêmica e estabilidade na tomada de decisão. Quando bem estruturada, essa combinação se traduz em equipes mais completas e eficientes.

O aumento da longevidade e a permanência mais longa no mercado de trabalho apontam para uma mudança estrutural mais profunda: a carreira deixa de ser linear e passa a ser contínua e flexível. A vida profissional passa a ser composta por diferentes ciclos, transições e reinvenções ao longo do tempo.

É neste momento que a aposentadoria perde o caráter de ruptura e passa a ser uma transição gradual, muitas vezes combinando atividades formais, projetos independentes e participação parcial no mercado. Para as empresas, o desafio não está apenas em manter profissionais mais velhos ativos, mas em redesenhar suas práticas de gestão para uma força de trabalho multigeracional.

Isso envolve rever políticas de contratação, modelos de progressão e até a forma como se entende produtividade e aprendizado ao longo da vida. A longevidade, nesse contexto, não é apenas uma questão demográfica. É um fator econômico e organizacional que já impacta a forma como empresas formam equipes, distribuem conhecimento e planejam o futuro.

O Brasil caminha para uma sociedade mais envelhecida, com impactos diretos sobre trabalho, renda e produtividade. A permanência de pessoas 60+ no mercado não é um fenômeno secundário, mas parte central dessa transformação. O desafio está em transformar esse movimento em oportunidade, reduzindo barreiras de entrada e permanência, combatendo o etarismo e reconhecendo que o futuro do trabalho será, inevitavelmente, mais longevo e diverso.

(*) é fundador e CEO da Maturi, plataforma de carreira para profissionais 50+.

Ilustração: Equipamentos Construtec. 

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