quinta-feira, 2 de julho de 2026

O MAIS NOTÁVEL GOVERNADOR DO EX-TERRITÓRIO DE RONDÔNIA

                                                                                               
O GRANDE LEGADO DE HUMBERTO DA SILVA GUEDES

Silvio Persivo (*)

Quem acompanhou a história de Rondônia nas últimas cinco décadas dificilmente deixará de destacar três nomes como protagonistas da grande virada vivida pelo então Território Federal: Silvio Gonçalves de FariasHumberto da Silva Guedes e Jorge Teixeira de Oliveira - todos com trajetória militar e presença decisiva em momentos-chave. Dentre eles, por muito tempo, o único ainda vivo foi o ex-governador Humberto da Silva Guedespenúltimo governador do Território Federal de Rondônia (1975–1979), nomeado pelo presidente Ernesto Geisel.

Uma leitura isenta da história administrativa rondoniense leva a uma conclusão difícil de evitar: muitas das bases estruturais e do planejamento que sustentariam o futuro Estado foram lançadas durante a gestão Guedes. Mesmo reconhecendo que coube a Jorge Teixeira conduzir a transformação política do território em estado, é difícil imaginar a vocação de crescimento que Rondônia viria a consolidar sem o trabalho articulado e visionário feito por Guedes - e também pelo então capitão Silvio, frequentemente lembrado como parte essencial desse ciclo de construção institucional.

Um território grande, uma máquina pública pequena

Quando Guedes desembarcou em Porto Velho, em 20 de maio de 1975, sucedendo o coronel João Carlos Marques Henriques, o Território ainda operava com uma estrutura administrativa típica das demais unidades territoriais da época: governador, um secretário de governo e poucos departamentos (Educação, Saúde, Agricultura). Era uma máquina pública enxuta, com pouco quadro técnico para lidar com um território vasto - e, na prática, muitas vezes limitada a manter serviços básicos e produzir relatórios ao Ministério do Interior. Não era raro, inclusive, que recursos disponíveis deixassem de ser utilizados, por falta de capacidade de execução.

O cenário urbano também era restrito: apenas duas cidades tinham peso administrativo e estrutura municipal consolidada -Porto Velho e Guajará-Mirim - além de pequenas comunidades ao longo da BR-364. Rondônia tinha, então, cerca de 140 mil habitantes, e o Estado, como projeto, ainda parecia distante.

A ocupação acelera - e expõe as deficiências

A dinâmica começou a mudar com força quando o INCRA implantou o Projeto Integrado de Ouro Preto, iniciativa de colonização voltada à distribuição de lotes (em geral, cem hectares) para pequenos produtores desenvolverem culturas agrícolas. O café aparecia como aposta natural, por ser conhecido de grande parte dos migrantes. O cacau ganhou impulso graças ao trabalho do engenheiro agrônomo Frederico Monteiro Álvares Afonso, incentivador da cultura na Amazônia e introdutor do cacau em áreas de Rondônia.

Com a intensificação do processo migratório, a realidade foi se impondo: manter o Território como estava significava caminhar para um conjunto de crises previsíveis. A chegada de famílias, a abertura de linhas e a expansão de núcleos urbanos escancararam a precariedade administrativa, a falta de pessoal e uma organização insuficiente para responder às novas demandas de saúde, educação, moradia, infraestrutura e segurança.

Guedes e a ideia de Estado: planejamento como missão

Carioca, coronel formado em academias militares e descrito por muitos como alguém de visão humanista e planejadora, Humberto Guedes encarou Rondônia como uma missão institucional: estruturar uma nova unidade da federação. Intelectual e metódico, produziu um texto-base- continuamente revisado- sobre o que seria necessário para tornar Rondônia um Estado viável.

Em 1976, na abertura de um curso de capacitação de técnicos governamentais, no auditório da CERON, ele expôs o coração de sua visão: Rondônia vivia um processo de ocupação territorial com característica particular. O INCRA recebia e assentava os imigrantes, organizando projetos de colonização; ao mesmo tempo, o governo do Território era responsável por entregar o que, na prática, são funções de Estado: saúde, educação, infraestrutura urbana, segurança e políticas públicas diversas.

O problema é que faltava planejamento comum. Em vez de cooperação, frequentemente havia concorrência, ausência de diálogo e decisões desconectadas que reduziam a eficiência dos resultados. Para Guedes, era indispensável que o governo territorial assumisse o papel de protagonista- mas isso exigiria coordenação técnica, visão de futuro e gente qualificada pensando localmente.

O desafio era ainda maior porque quase tudo dependia de Brasília: a administração territorial vinculava-se ao Ministério do Interior, que aprovava anualmente plano de ação e orçamento; a política de pessoal era conduzida pelo DASP; o Judiciário era subordinado à esfera federal; e os investimentos dependiam fortemente do Polo Amazônia, coordenado pela SUDECO. Não haveria mudança sem método - sem quadros técnicos capazes de planejar Rondônia desde dentro.

O que não fazer -e o que construir

Guedes também foi explícito sobre erros que não aceitaria repetir. Criticava conjuntos habitacionais de baixa qualidade - as “casinhas de pombo”, feitas para favorecer empreiteiros - e defendia soluções adaptadas ao ambiente amazônico, lembrando construções do período da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Sua agenda incluía:

  • fortalecer a agricultura, para reduzir dependência de produtos vindos de fora;
  • iniciar um processo industrial básico;
  • organizar cidades atuais e futuras;
  • planejar equipamentos estruturantes (matadouro, usina de leite);
  • viabilizar projetos energéticos como Samuel e Teotônio;
  • lutar pelo asfaltamento da BR-364.

A questão central era transformar essas ideias em programa viável, que desse ao futuro Estado condições econômicas e financeiras para sustentar sua própria estrutura e cumprir obrigações com a população.

Infraestrutura e viabilidade: o Estado precisava “fechar a conta”

Dois gargalos eram decisivos: rodovias e energia. Na área rodoviária, contratou-se consultoria para produzir planejamento amplo. Na energia, o caminho apontado passava por hidrelétricas.

Mas havia um entendimento estratégico: Rondônia não poderia virar Estado apenas por decisão política; eram necessários indicadores econômicos que mostrassem capacidade de sustentação. Por isso, um movimento crucial foi a contratação do professor Charles Muller (UnB), que montou equipe multidisciplinar para preparar um programa de desenvolvimento orientado à criação do Estado. Os estudos estimariam investimentos necessários para que, em cerca de dez anos, Rondônia alcançasse um estágio de crescimento capaz de financiar uma máquina administrativa e um plano de investimentos públicos.

Os resultados foram apresentados ao governo federal e, mais tarde, contribuíram para viabilizar recursos que desembocariam no POLONOROESTE, megaempreendimento que se tornaria realidade em 1981, com participação do Banco Mundial, já agregando também Mato Grosso e focando a expansão da fronteira agrícola, colonização e a pavimentação do trecho Cuiabá–Porto Velho da BR-364.

Reforma administrativa e a “era dos planos”

Enquanto estudos e negociações avançavam, o Território viveu uma fase de efervescência. Reformou-se a estrutura: extinguiu-se o modelo baseado em secretaria de governo e departamentos e criou-se a Secretaria de Planejamento, que passou a integrar gestão territorial e coordenação estratégica. Para auxiliar, teve papel importante Luiz César Auvray Guedes, reconhecido como planejador e, mais tarde, figura de destaque em trajetórias ligadas à pesquisa agropecuária. Ele foi uma das cabeças pensantes que fizeram a EMBRAPA ter o papel que teve.

Chegaram novos técnicos e, em vários setores, elaboraram-se planos para dar musculatura ao governo. Com apoio das equipes técnicas, surgiram iniciativas e estudos marcantes: propostas de curto e longo prazo, experiências consideradas inovadoras (como discussões em torno de orçamento participativo), desenho de criação de novos municípios, trabalhos de hierarquização urbana e planejamento viário.

Uma discussão decisiva era como organizar o território e orientar investimentos públicos em saúde, educação, segurança, saneamento e infraestrutura. Por indicação do arquiteto Silvio Sawaya, foi contratado o geógrafo Milton Santos, reforçando a dimensão analítica do ordenamento territorial. Vale o registro: os especialistas externos atuavam sobretudo para formação, debate e formulação; a abertura concreta de cidades e a execução cotidiana recaiam, majoritariamente, sobre os técnicos locais.

Da base planejada ao zoneamento: um legado que atravessou décadas

O ciclo de planejamento iniciado naquele período ajudou a formar uma capacidade institucional rara para a época. Um desdobramento simbólico dessa maturidade foi o surgimento, em Rondônia, do Zoneamento Socioeconômico e Ecológico (ZSEE), concebido por equipe local, e que viria a apoiar o PLANAFLORO - Plano Agropecuário e Florestal de Rondônia, iniciativa voltada a harmonizar crescimento econômico e proteção ambiental, buscando compatibilizar a agropecuária com a realidade amazônica.

Hoje, Rondônia se destaca pelo crescimento do PIB e por um perfil de equilíbrio territorial que muitos comparam, em certos aspectos, ao papel de estados de forte base produtiva no Sul do país. Muito disso se explica pela força do trabalho de milhares de pessoas que migraram, produziram e construíram comunidades. Mas há um ponto que o tempo não deveria apagar: o Estado carrega uma dívida de reconhecimento com Humberto da Silva Guedes, cuja atuação ajudou a erguer a espinha dorsal administrativa, urbana e estratégica que sustentaria a Rondônia moderna.

Ao falecer em 18 de junho, aos 103 anos, Guedes deixa não apenas a memória de um gestor, mas a marca de um período em que Rondônia começou a ser pensada como futuro Estado com método, planejamento e ambição- não como improviso.

 (*) Economista, escritor e professor da UNIR. 

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