sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Uma excelente análise sob o impacto do PIX


 Um ano de Pix: Qual o tamanho da transformação no sistema financeiro?

*Por Julián Colombo

Quando o Banco Central anunciou o novo sistema de pagamento instantâneo brasileiro, o famoso Pix, muitas especulações e discussões sobre qual seria o impacto dessa ferramenta no setor financeiro começaram a surgir. Ao completar um ano de operação, já conseguimos enxergar se, de fato, mudanças e competições previstas aconteceram? Antes de responder a essa pergunta, acredito que seja importante lembrar que, quando estamos no campo da economia, é difícil estabelecer com precisão o impacto de um único evento, pois existem muitas variáveis operando ao mesmo tempo.  Só para começar, neste último ano, por exemplo, muito mais que o lançamento do Pix, a economia enfrentou as consequências de uma devastadora pandemia, mudanças significativas no setor financeiro com a chegada do Open Banking, apostas expressivas de investidores em Neobanks, entre outros fatores decisivos que afetam diretamente o comportamento das pessoas e empresas. Por isso, fica difícil isolar o impacto individual de um único sistema , mas me arrisco a tentar. Analisando de uma maneira prática e direta os efeitos do Pix no Brasil, percebemos que sim, as mudanças estão acontecendo e temos alguns números oficiais que demonstram isso. Em seu lançamento, muito se falou sobre os possíveis efeitos positivos na concorrência e consequente democratização dos serviços financeiros. Um indicador muito importante que reflete a  concentração bancária de um mercado é a porcentagem que os cinco maiores bancos de um país representam no crédito total (ou nos depósitos). Se compararmos  esse número, vemos que o Brasil, em 2016, tinha 86% de concentração. Nos  últimos cinco anos, no entanto,  esse indicador tem se reduzido em sete pontos - e cada vez mais rápido - chegando em 2021 perto de 79,5%. Ainda assim os avanços são lentos: o País ainda é um mercado extremamente concentrado, ficando atrás apenas da Holanda, que possui quase 90% de concentração bancária. Nos Estados Unidos esse número está perto de 40%, já a China e Índia ficam entre 35% e 37%. Observando a questão da aderência, o Pix foi um sucesso absoluto e é um dos melhores casos de adoção voluntária de um “produto” financeiro no mundo. Em um ano de funcionamento, nove  a cada 10 transferências já são feitas pelo sistema e 105 milhões de pessoas, ou seja, mais da metade da população brasileira,  já usou. Num primeiro momento, quase todas as transações no sistema eram  feitas de pessoa para pessoa, mas agora 16% já são de pagamentos a empresas. O produto está melhorando muito e logo será possível ainda pedir troco, fazer saques e pagar parcelado.  A consequência dessas mudanças e da grande aceitação está também no impulsionamento da concorrência. Se antes, os grandes bancos sempre tiveram vantagens muito expressivas em suas redes de meios de pagamentos, hoje elas perdem importância quando existe uma alternativa mais rápida, confortável, barata e segura e, principalmente, que qualquer banco de médio e pequeno porte podem oferecer. Dentro deste cenário de mudanças no último ano, a pandemia também foi fator determinante para a concorrência financeira e não só no Brasil, mas especialmente aqui. Os grandes bancos brasileiros tiveram historicamente redes de distribuição e atendimento gigantescas, em consonância com o tamanho do país. Há 20 anos, teria sido impossível para um banco sem agências capturar clientes. Mas a tecnologia foi desenvolvida e algumas pessoas, que chamamos de early adopters (primeiros a adotar), começaram a migrar para os canais digitais dos grandes bancos, e depois para Fintechs e Neobanks. A pandemia gerou um problema logístico que fez com que a parcela que não confiava, gostava e/ou entendia os canais digitais foi obrigada a os adotar. Essa mudança forçada  acabou acelerando o processo de digitalização, o que equaliza  hoje o poder de um banco com 5 mil agências com um que não possui nenhuma e está apenas no ambiente digital. Ainda sobre concorrência, não podemos deixar de citar outros exemplos que estão impactando o mercado e ainda terão uma parcela grande nas futuras mudanças dentro do setor financeiro. Os Neobanks possuem recursos enormes para concorrer com os grandes bancos, podendo investir muito mais em publicidade e desenvolvimento tecnológico. Isso porque eles não se importam com o lucro na mesma medida que os bancos tradicionais. Os investidores dos grandes bancos exigem rentabilidade, é claro, mas os investidores dos neobanks querem crescimento de market share, qualidade de atendimento, etc. Ou seja, permitem que eles possam baixar os preços a níveis que os concorrentes diretos não podem acompanhar.  Com tantos eventos e acontecimentos neste ano que passou, a mudança em geral está sendo possível graças à parcela de responsabilidade de cada uma delas, seja Pix, Pandemia, Open Banking e Neobanks. O fato é que todos incentivam um mercado mais competitivo, o que desempenha um papel fundamental para a economia do País. 

 

*Julián Colombo é economista com mais de 20 anos de carreira em banco, também é co-fundador e CEO da N5, empresa de software dedicada à transformação digital no setor financeiro.



Julián Colombo, CEO da N5

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

O POTENCIAL INEXPLORADO DA ECONOMIA CRIATIVA EM RONDÔNIA

 

O POTENCIAL INEXPLORADO DA ECONOMIA CRIATIVA EM RONDÔNIA

                                                   Silvio Rodrigues Persivo Cunha

RESUMO - Nas últimas décadas um novo tema de estudo denominado “economia criativa”, que tem como foco as atividades baseadas no capital intelectual passou a ser uma forma de oportunidade para empresas, regiões e países ao permitir  a geração de riquezas, impulsionar o crescimento e a geração de empregos por meio de atividades que possuem em comum a criatividade, como é o caso do design, da arquitetura, do turismo, de produtos culturais e mídias, entre outros. Estes “novos” produtos passam, cada vez mais, a ter maior participação na produção de riqueza e no comércio internacional. Por isto a economia criativa passou a despertar interesse nos governos, academias e ser inserida nas políticas públicas, como forma de expandir o emprego e a renda. No Brasil o conceito já possui iniciativas relevantes, mas, carece de políticas públicas definidas, mesmo, tendo uma secretaria dedicada ao tema.  Este texto propõe-se a analisar o conceito, algumas consequências de sua relevância e defende uma maior discussão e a inclusão da economia criativa nas políticas públicas de Rondônia como forma de estimular o seu desenvolvimento.

Palavras-chave: Economia criativa. Criatividade. Capital intelectual.

 

INTRODUÇÃO

Embora sendo um conceito relativamente novo, já existe quase um consenso de que a “economia criativa” tende a se tornar uma parte, cada vez mais, determinante e crescente da economia global. Em parte isto se verifica por uma evolução decorrente da potencialização da ciência e da tecnologia, de vez que, com a mecanização da agricultura e da indústria, os novos empregos tendem a surgir de atividades de comércio e de serviços, principalmente, dos denominados setores criativos, daí, a maior importância ao papel que o conhecimento e as inovações desempenham como fonte de empregos, de riqueza e de renda. Portanto, as expressões “indústrias criativas” e “economia criativa” são relativamente recentes, decorrentes da “terceira revolução industrial”, a produção contemporânea baseada na era pós-industrial, pós-fordista, do conhecimento e da informação e aprendizado (MIGUEZ, 2007).

Com o peso menor da participação da indústria no PIB-Produto Interno Bruto da grande maioria dos países em relação ao setor de serviços surge a necessidade de reorientar as políticas públicas de emprego, daí, a atenção que os serviços passam a ter, em especial, por conta das mídias digitais e das novas empresas criativas que introduzem no mercado novas  tecnologias digitais revolucionando e tornando os mercados mais sofisticados e instáveis. A atenção para esta singularidade importou em que, na Grã-Bretanha, no final dos anos 1990, durante o governo Tony Blair, se fizesse um extenso mapeamento das atividades ditas criativas, que foram catalogadas em treze áreas estratégicas, que conformariam o que se chama de economia criativa. As áreas escolhidas ultrapassaram as que, normalmente, são incluídas nas políticas culturais, exemplos disto são o design, a moda e os softwares.  A partir daí, o que era tema apenas das academias, as indústrias criativas e a economia criativa passaram a ser não apenas  um campo novo de estudo, mas, a despertar um interesse crescente de planejadores e de políticas públicas.

No Brasil, porém, só no início do século XXI é que começam a proliferar os estudos sobre a questão e para a compreensão do papel da economia criativa e de como pode ser útil para uma política de desenvolvimento local. O objetivo deste trabalho é o de ressaltar os conceitos de economia criativa e suas manifestações na economia de Rondônia, e de sua capital, Porto Velho, propondo políticas públicas para a economia criativa, como uma fonte potencial para crescimento de empresas, da renda e do desenvolvimento econômico. Desta forma, o trabalho foi organizado em duas partes. A primeira discute, e reforça a importância de se dar mais atenção ao conceito de economia criativa, sua amplitude e relevância econômica. A segunda salienta, e sugere, como as manifestações práticas e os exemplos concretos necessitam de uma maior atenção do poder público, das lideranças empresariais e acadêmicas para que se possa explorar com sucesso as oportunidades existentes, o que se explicita nas considerações finais.

2- O CONCEITO DE ECONOMIA CRIATIVA E SUA VISÃO ESTATAL BRASILEIRA

A economia criativa pode ser vista como um conjunto de atividades, bens ou serviços culturais que possuem, por um lado, um processo criativo, que, muitas vezes, é visto como cultural, mas, que, por outro lado, resulta na produção de riqueza econômica. Este conjunto de atividades, bens ou serviços possui como processo principal um ato criativo que, em primeira mão, gera um valor simbólico, e, algumas vezes, único, que tem como base a  capacidade humana de inventar, de imaginar, de criar, seja de forma individual ou coletiva, mas, que importa em formação de preços e na produção de riqueza econômica. O conceito, portanto, abrange mais do que os setores ditos culturais, ligados à produção artístico-cultural, como música, dança, teatro, ópera, circo, pintura, fotografia, cinema, abrangendo inclusive atividades inovadoras como às mídias, à indústria de conteúdos, ao design à arquitetura, entre outros.  No Brasil a Secretaria da Economia Criativa, vinculada ao Ministério da Cultura, classificou como  setores criativos aqueles cujas atividades produtivas têm como insumos principais a criatividade e o conhecimento. A partir disto, a economia criativa se caracteriza por ser a economia do intangível, do simbólico, o que não lhe retira nem o valor econômico, nem a característica de ser um mercado competitivo.

O conceito de economia criativa teve, claramente, sua discussão iniciada nos países desenvolvidos na década de 1980, porém, tomou corpo a partir do projeto Creative Nation, surgido na Austrália em 1994, que defendia a importância do trabalho criativo para a economia do país e do uso da tecnologia como aliada das políticas culturais. É, porém, em 2001, com John Howkins, autor de  The Criative Economy: How People Make Money From Ideas (A Economia Criativa: Como as Pessoas Transformam Ideias em Dinheiro), que, ao definir que a economia criativa lida com as ideias, ou seja, que é o negócio das ideias, que a terminologia passa a ser aceita e disseminada. Quase, concomitantemente, são publicados, nos Estados Unidos, os livros  do professor de economia da Universidade de Harvard, Richard Caves, “Creative industries”, em 2001, e o de Richard Florida, The rise of the creative class, em 2002, que assentam, definitivamente, a tese de que na era pós-industrial não é mais apenas o capital que se tem para investir em máquinas e insumos o que irá produzir riqueza e sim as ideias, criatividade, que será um determinante dos negócios de sucesso.

Como se observa o conceito de economia criativa se ampara na criatividade. De acordo com a Unesco (2010), a criatividade se assenta em várias dimensões do fenômeno e nasce da articulação entre diferentes criatividades: científica, tecnológica, cultural e econômica. Segundo ainda John Howkins (2001), a criatividade não é monopólio dos artistas e pode estar presente nos cientistas, empresários, economistas, entre outros, pois, todos eles têm a capacidade de criar algo novo, original, pessoal, significativo e real. Para a UNCTAD, a definição de indústria criativa está nos círculos de criação, produção e distribuição de bens e serviços que utilizam criatividade e capital intelectual como insumos primários, baseados em atividades de conhecimento que abrangem as artes em geral. São potenciais geradores de vendas do comércio e direitos de propriedade intelectual; de produtos tangíveis e intelectualmente intangíveis ou serviços artísticos com criatividade, valor econômico e objetivos de mercado que constituem  uma nova dinâmica do setor. E destaca como manifestações da indústria criativa o patrimônio cultural, as artes e a mídia.

No Brasil, como decorrência da importância que o conceito vem tendo, foi em junho de 2012, aprovado por decreto 7743 de 1º de junho de 2012, a criação da Secretaria da Economia Criativa (SEC), subordinada ao Ministério da Cultura,  tendo como missão conduzir a formulação, a implementação e o monitoramento de políticas públicas para o desenvolvimento local e regional, priorizando o apoio e o fomento aos profissionais e aos micro e pequenos empreendimentos criativos brasileiros. O objetivo foi o de tornar a cultura um eixo estratégico nas políticas públicas de desenvolvimento do estado brasileiro. E, por isto, a Secretaria da Economia Criativa do MinC formulou um plano para o setor abrangendo o triênio 2011-2014. Neste documento se tenta um conceito para economia criativa e se chega ao seguinte conceito:

os setores criativos são aqueles cujas atividades produtivas têm como processo principal um ato criativo gerador de um produto, bem ou serviço, cuja dimensão simbólica é determinante do seu valor, resultando em produção de riqueza cultural, econômica e sócia. (MinC, 2011, p.22).

Esta definição alarga o campo de atividades da economia criativa para além

das que são, normalmente, objeto das políticas culturais. Este é o grande sintoma de que o  discurso em torno da economia criativa passa a pertencer mais ao campo da economia que o  da cultura, que é secundário na visão proposta.

É preciso ver que, antecedendo o plano, há uma citação de Celso Furtado, que relaciona o desenvolvimento à criatividade. Neste sentido, a escolha de um economista  para estar na primeira página do plano, mostra que a visão que norteia o documento é de que as ferramentas da economia criativa devem ser um mecanismo para promover o desenvolvimento econômico.   Ou seja, o plano pretende adequar o setor cultural a um modelo de desenvolvimento econômico mais abrangente, que leve em conta o potencial  empregador e inovador das atividades culturais e criativas.  Esta parece ser uma visão capaz de dar dinamismo à economia criativa brasileira na medida em que o conceito pode ser a fonte de políticas públicas que, efetivamente, modifiquem a forma de ver não somente dos fenômenos culturais, como das cidades como fontes de novos negócios e empreendimentos. A percepção de que é preciso dar prioridade aos aspectos singulares de economias estaduais e locais, de que é imprescindível que se utilize os potenciais típicos de cada espaço, como a comida e/os costumes, é um sintoma de que o conceito de economia criativa começa a tomar forma como base das políticas públicas.

3. POTENCIALIDADES E POLÍTICAS PÚBLICAS

Já existem exemplos relevantes de que as políticas públicas de economia criativa podem impulsionar a melhoria de vida, a geração de renda e de emprego. No Brasil um exemplo relevante é o Projeto Porto Digital, na capital de Pernambuco, que, com cerca de 150 empresas de TI, duas instituições de ensino, duas instituições de pesquisa, 20 empresas incubadas de base tecnológica, 14 empresas incubadas de economia criativa, oito empresas de serviços associados e quatro entidades empresariais de classe, o  gera mais de 6,5 mil empregos diretos. O cluster ocupa 40 mil metros quadrados no Recife Antigo, onde estão outros importantes equipamentos da economia da cultura apoiados pelo BNDES, como o Paço do Frevo e o museu Cais do Sertão. A Unesco (2008, 2010) defende a tese de que a economia criativa é uma forma de impulsionar o crescimento econômico e representa uma alternativa para o desenvolvimento, por ter como matéria-prima base a criatividade e utilizar características culturais e sociais de cada país/região,  com a vantagem  de produzir bens e serviços únicos. Ainda segundo os documentos da Unesco os benefícios da  economia criativa podem obtidos por meio de: i) da criação de empregos, exportação, promoção e inclusão social, diversidade cultural e desenvolvimento humano; ii) do entrelaçamento entre economia, cultura e aspectos sociais com tecnologia, propriedade intelectual e objetivos turísticos; iii) de um sistema econômico baseado no conhecimento desenvolvendo a dimensão e através da interligação entre elementos macro e micro da economia; e iv) do desenvolvimento da inovação através de políticas multi-disciplinares.

Contudo, apesar de iniciativas relevantes e da percepção da importância das potencialidades da economia criativa a sua importância ainda parece estar muito distante de ser compreendida. Existem iniciativas que, efetivamente, dependem de recursos, mas, a compreensão do tema e sua inclusão nas políticas públicas parece ser um empecilho importante para que medidas mais efetivas sejam discutidas e executadas. Um exemplo disto é que a maior festa brasileira, o carnaval, em 2108, depois de três anos em queda, movimentou financeiramente  R$ 6,25 bilhões na economia. O  Ministério do Turismo estimou que a festa envolveu 11 milhões de turistas, entre os quais 400 mil estrangeiros. É, portanto, um movimento relevante e o carnaval é um produto típico da economia criativa. Em Porto Velho, segundo estimativa da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Rondônia-Fecomercio Rondônia, o carnaval  girou, em 2018, cerca de R$ 400 milhões, o que são recursos significativos. No entanto, como se constata abaixo, um importante bloco da cidade não conseguiu desfilar:

Galo da Meia Noite é impedido de desfilar em Porto Velho

Considerado o segundo maior bloco carnavalesco de Porto Velho, o Galo da Meia Noite está prestes a não se apresentar no carnaval deste ano. De acordo com o Blog do Zé Katraca os diretores do bloco, Edson José Caula e Benjamim Mourão disseram que, por motivos alheios à vontade da diretoria, o Galo da Meia Noite pode não desfilar na quinta feira dia 8 de fevereiro, pelo tradicional circuito ‘Caiari’, formado pelas ruas Rogério Weber, Pinheiro Machado, Joaquim Nabuco, Carlos Gomes até a praça das Três Caixas D’água. ‘Infelizmente não conseguimos superar a burocracia que norteia em torno desse tipo de evento. Sabemos que temos culpa, por não cumprirmos parte do que ficou acordado com os órgãos financeiros da prefeitura de Porto Velho, porém, entidades como o Galo da Meia Noite e a Banda do Vai Quem Quer deveriam há muito tempo, fazer parte do Patrimônio Imaterial do município de Porto Velho e até do estado de Rondônia’, disse Edson José” (JH Notícias, 2018).

Realmente, houve problemas na prestação de contas do bloco, mas, o que o dirigente disse também tem muito de realidade e da falta de atenção que a economia criativa possui. Na verdade, os blocos carnavalescos enfrentam não somente uma questão de muita burocracia, em especial quando necessitam de recursos públicos, mas, mesmo quando não precisam, são exigidos para qualquer desfile uma série de documentos e cumprimento de requisitos que importam num custo muito alto, como por exemplo, licenças de bombeiros, requisitos de segurança, questões relativas a trajeto e policiamento que, não poucas vezes, impedem ou acabam com iniciativas carnavalescas. Em Porto Velho, mesmo iniciativas tradicionais, como o Arraial Flor de Maracujá ou feiras agropecuárias já tiveram interrupções na sua realização por conta de exigências burocráticas. Em suma, não se leva em conta os efeitos econômicos de muitas festas públicas.

É preciso, por conseguinte, que exista uma maior discussão da importância da economia criativa, bem como das potencialidades dela, em relação aos municípios e ao próprio Estado de Rondônia. É verdade que já existem, mas, de forma isolada, iniciativas que visam estimular a economia criativa, inclusive na gastronomia, que é um rico filão local a ser devidamente explorado. A realidade é que, em Rondônia, a economia criativa, mesmo no meio acadêmico, é um assunto relativamente novo. E, muitas iniciativas recentes estão no seu âmbito, mas, nem são tratadas como tal, como é o caso, por exemplo, o Festival Gastronômico Cacoal Sabor ou um projeto como o “Projeto Porto Velho Sport Fishing”, que pretende transformar Porto Velho na capital da pesca esportiva.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A  economia criativa é um conceito relativamente novo que se baseia  na inovação, intuição, criatividade e em novos produtos e serviços, que é uma característica da produção da sociedade contemporânea. Por suas características teve um desenvolvimento muito maior nos países mais desenvolvidos e com sistemas educacionais melhores e mais escolaridade. No entanto, mesmo nos países menos desenvolvidos, há muitas oportunidades de inovação e a potencialidade de fenômenos, características e especificidades locais que podem estimular maior geração de emprego e de renda.

No caso brasileiro as possibilidades são muito grandes dadas as suas características de país continental com costumes diversificados, abundância de matéria prima, patrimônio cultural e artístico. Inclusive já existem, até mesmo em setores modernos, como o da mídia, iniciativas que se revelaram promissoras, em especial se cita o caso do projeto pernambucano Porto Digital. A criação de Secretaria da Economia Criativa (SEC), subordinada ao Ministério da Cultura, e de um plano de economia criativa já é um sintoma de que existe uma movimentação estatal em torno da ideia, mas, não existem políticas públicas em especial nos estados e municípios.

Neste sentido, este artigo tem como principal objetivo fomentar a discussão de discussões sobre a economia criativa e a criação de políticas públicas no Estado de Rondônia onde, o tema, apesar de importante continua a ser relegado sem ter a importância que é devida para uma região que, com a economia baseada, principalmente, em comércio e serviços tem que, inevitavelmente, dar uma maior atenção à economia criativa.

 

BIBLIOGRAFIA

BNDES. Pernambuco inaugura parque tecnológico para a economia criativa apoiado pelo BNDES. https://www.bndes.gov.br/wps/portal/site/home/imprensa/noticias/conteudo/pernambuco-inaugura-parque-tecnologico-para-a-economia-criativa-apoiado-pelo-bndes. Capturado em 28 de março de 2018.

CAVES, R. E. Creative industries: contracts between art and commerce. Cambridge: Harvard University Press, 2001.

http://fecomercio-ro.websiteseguro.com/site/index.php/2016-09-02-06-09-26/noticias-fecomercio/item/658-turismo-de-pesca-foi-tema-de-reuniao-com-a-santo-antonio-energia. Capturado em 28 de março de 2018.

FIRJAN. A cadeia da indústria criativa no Brasil. Estudos para o desenvolvimento do estado do Rio de Janeiro. n. 2, mai. 2008.

FLORIDA, R. The rise of the creative class. New York: Basic Books, 2002.

G1 Rondônia.  Festival gastronômico compõe calendário do mês de aniversário de Cacoal https://g1.globo.com/ro/cacoal-e-zona-da-mata/noticia/festival-gastronomico-compoe-calendario-do-mes-de-aniversario-de-cacoal.ghtml. Capturado em 03 de abril de 2018.

HOWKINS, J. The creative economy: how people make money from ideas. London: Penguin Press, 2001.

JH Notícias. CARNAVAL 2018 – Galo da Meia Noite é impedido de desfilar em Porto Velho.  https://jhnoticias.com.br/geral/carnaval-2018-galo-da-meia-noite-e-impedido-de-desfilar-em-porto-velho/. Capturado em 18 de fevereiro de 2018.

MIGUEZ, P. Economia criativa: uma discussão preliminar. In: Nussbaumer, G. M. (Org.). Teorias e políticas da cultura: visões multidisciplinares. Salvador: EDUFBA. Coleção CULT, p. 96-97, 2007.

Plano da Secretaria da Economia Criativa: políticas, diretrizes e ações, 2011 – 2014, Brasília, Ministério da Cultura, 2011.

 UNESCO. Creative economy: report 2008. Nova York: United Nation, 2008.

UNESCO. Creative economy: report 2010. Nova York: United Nation, 2010.

 

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Os novos públicos num artigo

Novos públicos requerem novas empresas 

Janguiê Diniz  (*) 

As relações de consumo têm mudado muito e de forma bastante acelerada nas últimas décadas. Se, antes, para adquirir qualquer coisa, era necessário ir a uma loja; e, posteriormente, vieram as vendas por telefone; hoje, boa parte das transações já é feita pela internet. Acontece que essas relações de consumo – e o próprio relacionamento das marcas com seus clientes – têm sofrido alterações não mais por causa das tecnologias (ao menos não diretamente), mas por mudanças no próprio perfil do público consumidor. 

Nas décadas de 1980 e 90, surgiu a chamada Geração Y, ou Millenials, aqueles que viram de perto o boom da internet e das tecnologias de informação e comunicação (TICs). Hoje, eles têm entre 24 e 38 anos de idade, estão em idade economicamente ativa e formam boa parte da mão de obra nacional, ou seja, ainda têm influência sobre as relações de mercado. No entanto, já começa a despontar uma nova geração, a Z, ou Centennials. Estes são os nascidos entre 1995 e 2010, que já vieram ao mundo em meio à tecnologia e cresceram com ela. São os chamados nativos digitais. É com estes que as empresas precisam se preocupar ainda mais e dedicar atenção e estudo. 

As gerações anteriores se adaptaram às ofertas. Com a Geração Z, de forma inversa, é o mercado que precisa se adequar aos clientes. Isso porque esse público está acostumado com a liberdade e as possibilidades de experiência personalizada que o ambiente digital oferece e leva isso para todas suas relações, inclusive as de consumo. Tudo precisa ser fácil, prático, rápido – instantâneo, até – e do jeito que eles querem, não como as marcas querem oferecer. Apesar de serem muito jovens, muitos ainda sem poder de consumo, são eles o futuro do mercado e os que possuem mais influência. 

Esse novo panorama exige das empresas, principalmente, investimento na inovação. É preciso cativar o cliente de forma cada vez mais especial e diferenciada. Isso porque, no mundo multiconectado, você pode comprar o mesmo produto de uma empresa local ou de uma do outro lado do globo. Os fatores decisivos serão detalhes que farão a oferta mais atraente para cada cliente. Daí a importância de estar conectado com a clientela, analisando constante e reiteradamente as tendências de consumo, as necessidades do público-alvo, para atendê-las de forma inovadora e criativa. É preciso, mais do que nunca, ser “amigo” do seu cliente, criar laços e intimidade. 

O mundo tem mudado cada vez mais rápido. O mercado, então, ganha novas “regras” constantemente e a tendência é que esse movimento se identifique com as próximas gerações. Cabe às marcas saberem acompanhar essa evolução e oferecerem produtos e serviços sempre atrativos, diferenciados e personalizados. A pena para a não observância dessas premissas é, inevitavelmente, a falência.

(*)  Mestre e Doutor em Direito - Chanceler da Universidade UNG. Fundador e Presidente do Conselho de Administração do Grupo Ser Educacional.
janguie@sereducacional.com 

Ilustração: Viviana Jordão - WordPress.com. 

segunda-feira, 29 de maio de 2017

O QUE É VENDER ?


Vender é ciência, arte e mágica

Luiz Carlos Barcelos (*)

Vender é algo mágico. É a coisa mais linda que existe no mundo. É uma ciência e uma arte: a arte da abordagem.
Abordar bem é ter a capacidade de entrar no cliente, conhecê-lo a fundo, entender suas condições, o ambiente em que atua e vive, seus gostos pessoais, sua personalidade, os desafios de seu negócio. Compreender as dificuldades de seu ramo de atividades, não apenas de sua empresa em particular. Conhecer o problema para, então, propor não um produto ou um serviço, mas uma solução.
Todos somos vendedores natos: ao longo da vida, todos os dias, estamos sempre argumentando, defendendo posicionamentos, vendendo nossas ideias. No caso estritamente comercial, cabe ao vendedor se especializar nessa arte e tornar-se um criador de necessidades. De que forma? De forma técnica, embasado em um nível de conhecimento do cliente que o permita conduzir a negociação de modo a empregar sua ideia como resposta exata para cada determinada demanda.
Vender uma ideia por meio de algo tangível. Saber demonstrar ao cliente do que ele precisa e o que ganhará adquirindo tal item, ou seja, agregar valor na relação. Isto feito, entra em cena a capacidade de negociação, pautada na habilidade de pensar e estruturar formas e condições de acordo com o perfil e possibilidades do cliente.
Venda completa? Garanta a satisfação do atendido, não os abandone. O pós-venda é tão importante quanto o vender, e a qualidade de sua condução pode tanto encantar e resultar na fidelização quanto afugentar o cliente de negócios futuros.
Saber vender é saber perguntar. Todos podem extrair as respostas de que precisam se souberem conduzir as questões. Isto não tem uma fórmula pronta, é preciso analisar cada caso, mas uma dica é: preste atenção aos detalhes. O time para o qual seu prospect torce, se ele tem filhos ou se é interessado em cultura, gastronomia, velocidade... Acredite, dados pessoais importam, pois são eles que desenham a personalidade e mostram com quem o vendedor está falando, abrindo margem para pensar o melhor tipo de abordagem.
Vender bem é um passo firme na direção do sucesso de uma empresa. Aliás, é fundamental em um mercado como o brasileiro, no qual quase metade – 48,2% - das companhias fecha antes de completar quatro anos de vida, segundo o IBGE.
Em um cenário como este, permeado por desafios e incertezas econômicas, políticas, tributárias, legais e tantas outras, permanecer competitivo é uma luta diária. E competitividade é sinônimo de vendas, logo, uma depende da outra em um círculo virtuoso ao qual todo bom negociante tem de ser adepto. 
Empreender é como estar em um casamento, um relacionamento de amor e comprometimento com o negócio. E, tal qual o casamento, ter uma empresa é tarefa para pessoas que sabem calcular com precisão o momento de avançar, recuar, permitir, recusar, respeitar, se fazer respeitado.
Adicione-se a isso uma boa dose de planejamento, organização, resiliência para enfrentar as crises, sapiência para agregar valores como credibilidade, respaldo, ética, moral, compliance à operação e saúde financeira para gerar reservas, e teremos um negócio lucrativo em andamento, sem dúvida.
Saber vender é um dos passos mais importantes deste caminho. Uma empresa é feita de pessoas e ideias, e é o que faz destes recursos que a levam a se sobressair ou não no mercado. Vender uma ideia, um produto, um serviço, uma imagem: é preciso estar apto para fazer isso com maestria. Habilidade que se consegue com aplicação e prática e que, se alcançada, traz resultados benéficos para a empresa e para a sociedade – afinal, nenhuma companhia é um ente isolado, ela é seus clientes, colaboradores, fornecedores, parceiros, conterrâneos. Logo, bem vender, bem empreender, é lucrativo não somente para o ser diretamente envolvido, mas para todo o ecossistema com que convive. É um ato de responsabilidade social.

(*) É Sócio-fundador da LTA-RH Informática
Ilustração: blog.acelerato.com




Um artigo sobre a construção da humanidade



A humanidade é um ato de aprendizagem e esclarecimento

Por Samuel Sabino (*)

Ser um humano não garante a humanidade. Pode parecer uma afirmação ilógica a primeira vista, porém o que se tem por humanidade não é sinônimo de ser um humano, como pode se considerar em um primeiro momento. O humano é a condição base da espécie, que é dotada de liberdade de escolha e capaz do raciocínio lógico, mas não exclui o instinto e, nem mesmo, a posturas consideradas “inumanas”.
Hoje em dia se acostumou a falar que é desumano cometer atos que são prejudiciais ao próximo, como guerras, que prejudicam populações inteiras, ou mesmo atos de corrupção, que prejudicam grupos dentro de uma empresa ou governo. O caso é que o humano é capaz dessas coisas, e o que o impede, ou faz refletir sobre não fazê-lo, é sua humanidade, que não é uma condição inata. A humanidade é uma construção da evolução, fruto da consciente capacidade de escolher e raciocinar, porém apenas quando guiada pelo aprendizado e pelo esclarecimento.
A natureza escolheu os instintos para guiar a vida dos animais. Isso os acorrenta a sempre escolher os meios e os fins que atendam a um único propósito, a perpetração de sua espécie. Já os humanos também têm instintos, porém raciocinar e escolher está em nós, o que faz com que, por essa liberdade, nem sempre escolhamos os caminhos que perpetuaram nossa sociedade.
Na verdade, o que o humano geralmente escolhe é a preservação de si mesmo. Esse é o caminho da ética egoísta, que considera apenas o ganho presente, individual, e cujo nível de esclarecimento é baixo. Digo nível de esclarecimento no sentido ético, no sentido de continuação da espécie, da construção evolutiva que pode levar o ser humano além como raça.
Nascemos humanos e buscamos a humanidade através desse esclarecimento. Nascemos egocêntricos, viciosos, em estado de menoridade. Para sair disso é preciso escolher conscientemente a humanidade. O altruísmo, a virtude e a maioridade só vem com o aprendizado. Este por fim gera o esclarecimento.
Mas, porque buscar isso? Se somos naturalmente viciosos, por que buscar o esclarecimento? Por que se preocupar com o próximo? Basicamente por dois motivos; primeiro: por sermos detentores de dignidade, algo que é tão natural quanto ser um ser humano e; segundo: por sermos reclamantes dessa dignidade.
Isso quer dizer que quando a dignidade nos é tirada nós lutamos para reconquistá-la, para voltar ao estado de bem estar e felicidade. Por sermos sensíveis a perceber que somos dignos, se torna necessário que se alcance um estado onde a dignidade seja garantida, encontrando então esse estado de humanidade.
Mas, como se dá a passagem do mero humano para o humanizado? Justamente pelo esclarecimento advindo do aprendizado. Para aprender é preciso escolher, mas, sobretudo, com responsabilidade. Exatamente com esses atos que partem da ética nobre, que pensa no maior número de pessoas, o esclarecimento surge então conforme vamos nos sensibilizando com o outro, exemplo da empatia ou íntima compaixão.
No entanto, é possível alcançarmos outro caminho quando não pela empatia; pelo uso do raciocínio. Por ele se constrói princípios éticos e passíveis do uso da liberdade e escolha, como escolher, por exemplo, a ética nobre. Porém tudo começa com uma atitude de escolha consciente em abraçar essa habilidade humana de construir a humanidade. Sem usar isso estamos condenados, pois até os animais são compelidos a se preservar como espécie. Nós, sem escolher pela dignidade, estamos fadados a extinção e a um mal que destrói até o último de nós.

(*) é fundador da Éticas Consultoria, Filósofo, Mestre em Bioética, e professor universitário.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Para obter transformação social a comunicação é imprescindível


A comunicação como instrumento de transformação

Maíra Junqueira  (*)

A convicção de que a comunicação deve estar no centro das ações das organizações que atuam para a transformação social tem um forte exemplo na campanha de educação pública realizada contra o Dont Ask, Dont Tell, termo utilizado para a antiga política de restrição a gays nas Forças Armadas dos Estados Unidos.  De acordo com essa política, os homossexuais poderiam permanecer nas Forças Armadas caso não revelassem sua orientação sexual. Durante uma década, a organização Palm Center, que luta pelos direitos dos homossexuais nos EUA, desenvolveu uma estratégia de informação baseada em uso de ferramentas de comunicação, divulgação de dados de pesquisas, advocacy e educação pública com o objetivo de derrubar a restrição. Em 2011, o governo norte-americano aboliu oficialmente a proibição e passou a permitir que homens e mulheres pudessem prestar o serviço militar sem ter medo de represálias ou da expulsão. O sucesso da campanha mostrou a importância da utilização adequada de estratagemas de comunicação para a conquista de um objetivo específico. Um dos métodos utilizados foi a conquista da adesão de porta-vozes tradicionalmente relacionados a outras bandeiras, o que despertou a atenção da opinião pública. Aaron Belkin, diretor da Palm Center e um dos criadores da campanha bem-sucedida, foi um dos destaques da ComNet -The Communications Network Annual Conference 2016, conferência anual para discutir as estratégias de comunicação para o setor social realizada em Detroit (EUA) em setembro.  Ele detalhou a articulação de técnicas e métodos que tornou a campanha contra o Dont Ask, Dont Tell um caso emblemático da possibilidade de mudar políticas públicas por meio da conquista do apoio da população. Também ressaltou a importância de insistir na mensagem a ser divulgada, o que pode ser feito de formas diversas, mas sempre com a repetição da relevância da causa.  
O ComNet 2016 reuniu 500 profissionais do setor social para debates e trocas de experiências sobre o potencial da comunicação. Ao lado de representantes de outras organizações brasileiras, participei como representante do Fundo Brasil de Direitos Humanos de workshops, conferências, debates e painéis realizados durante o evento. Além do Fundo Brasil, marcaram presença organizações brasileiras como o GIFE, o Instituto Alana, a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, o Instituto Ayrton Senna, o Minha Sampa e o Instituto Unibanco.
Foi uma grande oportunidade de conhecer outras realidades e possibilidades, além de trocar experiências. Temas como as experiências digitais de comunicação estratégica, como causar impacto no público e a influência das questões culturais na compreensão das mensagens estiveram no centro das discussões. Um dos pontos debatidos, por exemplo, foi a importância de conhecer e entender a audiência em potencial das campanhas de comunicação e quais são as ferramentas que podem ser utilizadas para isso. É uma questão bastante avançada entre as organizações sociais dos Estados Unidos.A curadoria do conteúdo a ser transmitido e a escolha do público-alvo são importantes desafios para conseguir comunicar em um cenário em que há uma avalanche de informações circulando na internet e uma intensa disputa pela audiência.
Nesse contexto, o foco no público que interessa de fato e a customização da informação são estratégias que ganham força.   Para organizações que atuam no campo dos direitos humanos no Brasil também é um grande desafio lidar com um ambiente cultural em que as forças conservadoras ocupam cada vez mais espaço e em que grande parte da sociedade ainda não compreendeu a importância de apoiar os defensores de direitos. Na ComNet, uma das discussões foi baseada em como fazer com que o público pense diferente do que está acostumado e, a partir disso, tenha ações também diferentes.  Shaun Adamec, diretor de comunicações estratégicas da Nellie Mae Education Foundation, e Nat Kendall-Taylor, CEO do FrameWorksInstitute, lembraram que muitas vezes a linguagem que usamos para enfrentar as formas conservadoras de pensamento correm o risco de reforçá-las ainda mais, tornando ainda mais complicada a comunicação de nossas ideias.  
Identificar de que forma a linguagem reforça o pensamento conservador; conhecer novas formas e estratégias para comunicar questões difíceis; e aplicar esses aprendizados para pensar em maneiras diferentes de envolver o público e ser mais eficaz foram questões que estiveram no centro da conversa com os dois comunicadores.  Outro destaque na conferência foi a apresentação da  campanha Love has no label, veiculada no Valentine´s Day, em Nova Iorque, e que ganhou repercussão mundial. A campanha usou imagens de raio-x de participantes de várias idades e gêneros para mostrar que todos são iguais e ressaltar a diversidade do amor. Na ComNet, a campanha serviu como base para a discussão sobre os tipos de divulgação que conseguem interagir com os jovens e o fato deles criarem os padrões nos ambientes virtuais, exatamente por serem os que mais produzem na internet. No geral, a participação na conferência foi uma oportunidade de discutir as melhores formas de envolver os jovens que vivem em um ambiente digital nas causas sociais e também como aprender com essa geração.
O Fundo Brasil se mantém atento às novidades relacionadas às mídias sociais e tem como uma de suas estratégias de comunicação a atuação em canais onde já existe um público engajado nas questões relacionadas aos direitos humanos, principalmente o Facebook, o Twitter e o site da fundação.
Textos, fotos, vídeos, gifs e infográficos compõem o conteúdo, baseado principalmente nas histórias dos projetos apoiados ao longo de dez anos e em ações de promoção e divulgação da filantropia para a justiça social. Atuamos cada vez mais utilizando o poder que a comunicação tem como garantidora de direitos, com a perspectiva de que comunicar é uma ação política de longo prazo e que é necessário perseverar na divulgação de uma mensagem, além de usar os instrumentos disponíveis para conhecer e conquistar a sociedade.


(*) é coordenadora executiva adjunta e coordenadora de relacionamento com a sociedade do Fundo Brasil de Direitos Humanos.
Ilustração: ipnews.com.br

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Os impactos da transformação digital no emprego e no trabalho


Como a Transformação Digital elimina seu emprego... e gera trabalho

Gabriela Viana (*)

Emprego e trabalho, até mesmo no dicionário, são palavras que têm uma variação importante no significado. Enquanto emprego é ocupar-se de algum serviço, o trabalho é estar em movimento/funcionamento. Um mundo que está se transformando radicalmente demanda por fluxo, movimento, interação. A pressão por movimento contínuo está modificando as relações sociais, familiares e, como não poderia deixar de ser, modificando fundamentalmente o trabalho.
Movimentos mundiais como a globalização e a disseminação em escala da Internet mudaram radicalmente o cenário dos negócios: 40% das empresas que faziam parte da Fortune 500 na década passada não figuram mais na lista nesta década. A geração nascida entre 1980 e 2000 já é hoje o maior grupo que forma a força de trabalho da maioria dos países (e a maior geração que os Estados Unidos, por exemplo, já teve), e suas prioridades e valores também estão modificando de maneira fundamental o ambiente de consumo e de trabalho. 
As empresas estão sob enorme pressão para realizarem mudanças que as permitam seguir sendo relevantes através do tempo. E o desafio para os profissionais é o mesmo: manter a relevância. E como fazê-lo em um mundo de constantes mudanças?

Como inovar no meu trabalho atual?

É necessário não interpretar a demanda por inovação como uma necessidade de criar uma ideia de 100 milhões de dólares por dia ou a de dominar toda e qualquer nova tecnologia a ser criada. Inovar é um modo de operar, de pensar e de estar no mundo. Como diria o cientista e escritor Max Mckeown, inovar é tornar ideias úteis.
Uma postura de solução é válida para grandes ou pequenos problemas. Quer uma sugestão? Sempre que for mencionar um problema ou dificuldade, veja se você não tem alguma solução para propor. O simples exercício de pensar em soluções - mais do que identificar e apontar problemas - já prepara você para uma nova postura. Troque a palavra inovação (mais vaga) por uma outra expressão: resolvo problemas. 
Desenvolva também maior abertura à tentativa e ao erro. Prepare sua organização - e seus times - para essa possibilidade. Negócios e pessoas refratários ao erro e à mudança não inovam. Não custa repetir a máxima: não inova quem não tenta (e quem não erra!).

Como me manter atualizado?

Todos temos o sentimento de estarmos constantemente desatualizados. Uma sensação com a qual teremos que nos acostumar, sem nos acomodarmos ou sem cedermos à distração total de boiar apenas na superfície dos assuntos - um dos efeitos colaterais da Internet (Don’t let Google make you Stupid**).
Se já estávamos acostumados a uma realidade em que o próprio mercado de trabalho tem maior impacto na formação de profissionais que o ensino formal, precisamos radicalizar o processo, tornando-nos também individualmente responsáveis por nossa contínua formação. Não podemos esperar uma nova geração chegar ao mercado de trabalho preparada. Essa tampouco é uma possibilidade com a velocidade das mudanças tecnológicas que vivemos.
Governos, empresas e indivíduos terão que atuar para preparar os trabalhadores para a nova demanda de um mundo que se transformou através da Internet. Prepare-se para montar e investir - você mesmo - em um percurso de formação contínua. A Internet é, nesse caso, um grande suporte e várias das instituições mais renomadas do mundo têm programas de ensino a distância. Procure e veja que até Kevin Spacey e Serena Williams dão aulas via plataformas digitais a valores acessíveis.
Torne-se independente do seu atual empregador - ou da sua instituição de ensino - no que se refere à sua própria formação.

Outros impactos da Transformação Digital e da consequente mudança geracional que vão impactar você como profissional

*Acesso substituindo a propriedade: uma das facetas simplificadas seria assumir que produtos/bens estão sendo substituídos por serviços - vide Uber, BlaBlaCar e AirBnb. Quando você precisa pendurar um quadro na parede, você precisa do furo ou da furadeira? Como repensar o negócio da sua empresa e, por que não?, seu próprio “negócio” como profissional, com essa provocação em mente?;

*Crowdsourcing e Economia Compartilhada: em um futuro nada distante e em busca de diversidade de habilidades, empresas verão mais valor em usar talentos via crowdsourcing do que os talentos que poderia manter “em casa”. Trabalhe para que seu talento seja desejável e ligue o botão da “contribuição”, independente do modelo de contratação;

*Populações mais longevas: uma radical mudança na pirâmide etária está em curso. A geração atualmente ativa no mercado de trabalho tende a uma vida produtiva mais longa que todas as gerações anteriores. Isso também significa que teremos que seguir investindo em nós mesmos - por mais tempo.

*Robótica e Inteligência Artificial: a tecnologia tende a substituir muitos dos empregos que existem hoje (não apenas os repetitivos e mecanizados, mas também aqueles que requerem atividades cognitivas). Esse também é um indício que não é a tentativa de dominar habilidades específicas de novas tecnologias que será um grande diferencial no longo prazo, mas sim uma maior capacidade de interpretação e domínio de conceitos.
Sejamos realistas: aquilo que hoje conhecemos por emprego está em extinção e não nos resta alternativa a não ser nos adaptarmos. Durante séculos, o trabalho foi visto e descrito como uma atividade desprazerosa e relegada às classes sociais inferiores. Pertencemos a uma época que passou a dar novo significado e nova escala ao trabalho. Mas estamos agora em um novo movimento, onde tampouco apenas trabalhar traz satisfação ou quaisquer garantias. Se nos dispusermos a uma outra forma de trabalhar (e isso significa dar novo significado e direção ao trabalho constantemente), podemos ter como resultado algo mais desafiador, menos mecânico, mais criativo – e, portanto, mais prazeroso.

(*) é diretora de Marketing Adobe para América Latina

**Artigo de Nicholas Carr no qual ele defende que o uso intensivo da Internet - e a característica de navegarmos rapidamente sempre de um conteúdo a outro não passando da "superfície" - está reconectando nossos cérebros de modo a dificultar a capacidade de concentração em assuntos de maior profundidade, leituras mais complexas e atividades que exijam maior concentração. 

Ilustração: Sottelli