sábado, 11 de junho de 2022

O uso da inteligência artificial no comércio


Deixe a inteligência artificial trabalhar para você no online e no offline 

 Bento Ribeiro (*)

A cada ano que passa, a sociedade, de maneira geral, fica mais complexa. Os interesses, a maneira de falar, a moda, as crenças, a sexualidade, o entretenimento, tudo se transforma e, assim, se transformam também as necessidades dos usuários. O cliente demanda cada vez mais personalização em sua experiência, um atendimento que considere suas particularidades, ele não quer ser mais um. É necessário oferecer recomendações e promoções especiais para esse consumidor, mostrar que o conhece.

Mas como proporcionar esse tipo de experiência a milhares de clientes? Parece humanamente impossível, e é aí que entra a inteligência artificial (IA). Você já deve ter ouvido alguém dizer que os dados “são o novo petróleo”, não é de hoje que o mercado começou a valorizá-los, tanto que já existe legislação específica para o seu tratamento. A partir da análise de uma quantidade enorme de dados, feita com velocidade e precisão, é possível personalizar a jornada do cliente levando em conta seus gostos, preferências, aversões e necessidades, elevando assim o tíquete-médio e aumentando a recorrência de suas compras.

Outro ponto em que o sistema faz toda a diferença é na cadeia logística. De acordo com estudo da empresa de consultoria Gartner, 50% das organizações da supply chain investirão em tecnologias que suportam inteligência artificial (IA) e recursos de análise avançadas até 2024. Utilizando big data, é possível prever a demanda de consumo, entender onde devem estar localizadas dark stores, evitar falta ou excesso de estoque e evitar desperdício de recursos. Ela pode ainda analisar dados relacionados ao fornecedor, tais como desempenho de entrega dentro do prazo, auditorias e avaliações, otimizar rotas, maximizar o carregamento de caminhões, melhorando assim a velocidade de entrega, reduzindo o valor do frete e a pegada ambiental.

Um exemplo da aplicação da inteligência de dados é o case da Mondelez. A empresa buscava:

visibilidade e previsibilidade do sell-out (venda ao consumidor final)

sincronização do sell out com o sell-in (venda B2B)

Com a tecnologia da Infra.data, foi possível prever tendências e indicar o abastecimento ideal. O resultado foi uma acuracidade entre 65% e 85%.

 

Ações implementadas:

Ganhos efetivos: 

 

 

Categorização de histórico de dados entre: próprios, do mercado e de clientes

Integração, limpeza e enriquecimento de dados obtidos do histórico

Aplicação de redes neurais de aprendizado cruzado e individual

 

melhor alinhamento e aderência ao planejamento

redução de estoque na cadeia

balanceamento de DOH

redução da ruptura ponderada

melhoria nos indicadores de performance (OCT, CFR, OTIF)

melhor tempo de resposta às sazonalidades

melhoria no write-off por shelf life

 

 

 

 

É claro que existem decisões que se sobrepõem às previsões, e a simbiose entre a inteligência natural e a artificial é que vai trazer os melhores resultados para cada negócio. A tecnologia não chega para substituir o ser humano, mas substitui planilha de excel, libera as pessoas de um trabalho míope e dá suporte para que possam tomar melhores decisões. A IA é capaz de reconhecer padrões, analisar possibilidades e oferecer soluções, mas há de se levar em conta as escolhas estratégicas da empresa: se eu sei que vou tirar um produto de linha, vou querer escoar esse estoque, ou se minha intenção é aumentar meu market share, a decisão não é baseada em lucro e prejuízo apenas.

Se engana quem pensa que o uso dessa ferramenta é assunto para os grandes players, quanto menor a empresa, mais importante é ter esse suporte, porque o pequeno tem menor margem e menos visão, já que dificilmente conta com um time para fazer essas análises. Hoje já conseguimos produtizar essa ferramenta, em vez de tratar cada cliente como um projeto, que leva tempo e não é acessível para os pequenos negócios, nossos clientes utilizam uma mesma versão de software, o que torna tudo mais simples.

O algoritmo precisa de algum histórico para trabalhar, porque ele aprende do passado e infere o que vai acontecer, mas esse aprendizado pode ser curto, com poucos dados internos já é possível iniciar -- a partir, por exemplo, de fontes como máquinas de cartão, planilhas, ERP -- e eles serão enriquecidos com o cruzamento de informações sobre clima, sazonalidade, eventos externos.

Os avanços tecnológicos em big data, o desenvolvimento de algoritmos e o aumento do poder de processamento apontam para um futuro promissor, com soluções cada vez mais sofisticadas que contribuirão para a eficiência do commerce on e offline e para que o consumidor tenha uma experiência fluida, conveniente e de máxima qualidade.

 (*)Diretor da unidade de negócio Infradata na Infracommerce.

Ilustração: https://www.sankhya.com.br/. 

sexta-feira, 10 de junho de 2022

Um artigo sobre ser preciso pensar de forma digital

 


 A transformação digital precisa de uma mentalidade digital

por Dirceu Torres, CEO da Fuse IoT

 

Com uma alta demanda por serviços digitais por parte dos consumidores após a pandemia do Covid-19, é inevitável dizer que o futuro pertence às empresas que conseguem capacitar digitalmente suas experiências de consumo, independente do setor. Um estudo do Boston Consulting Group (BCG) apontou que líderes digitais podem esperar um crescimento pelo menos 1,8 vezes maior de lucros em relação aos que são retardatários na transformação digital. No entanto, o BCG também descobriu que quase 70% de todos os esforços de transformação digital ficam aquém de seus principais objetivos. Essa alta taxa de falha foi notavelmente mencionada por várias empresas líderes globais de pesquisa e consultoria. Então, agora vem a pergunta importante - por que há uma chance maior de fracasso nas iniciativas de transformação digital, apesar do enorme interesse sobre o assunto de quase todos os setores?

A resposta está em entender o fato de que a transformação digital não está apenas em levar tecnologias novas e inovadoras para impulsionar todos os aspectos do seu negócio. É necessário cultivar uma mentalidade digital dentro da organização, entre todas as partes interessadas e funcionários, para atender às expectativas dos consumidores com experiência digital. Há uma urgência de promover uma evolução cultural para ajudar as pessoas dentro da organização a alavancar novos processos de pensamento, enquanto resolvem os desafios do cliente, e não apenas seguir o que uma nova plataforma digital lista como sua capacidade.

Não há dúvidas sobre o imenso potencial que a tecnologia pode desbloquear dentro das empresas. No entanto, a principal abordagem que os líderes precisam adotar ao implementar a transformação digital é impulsionar a tecnologia em seus negócios e não permitir que ela seja conduzida por conta própria enquanto o resto apenas pega carona. Muitos líderes não conseguem promover a necessidade de uma mentalidade digital entre os funcionários, o que pode prejudicar os objetivos estratégicos dos negócios. Vamos abordar brevemente os potenciais de uma mentalidade digital para uma melhor transformação digital em todos os níveis de uma empresa:

 

Agilidade aprimorada

Com uma mentalidade digital, sua força de trabalho pode perceber a importância de como os diferentes componentes de um ecossistema digital, principalmente dados, aplicativos e infraestrutura, dependem uns dos outros e como cada um pode complementar o outro para uma transformação bem-sucedida. Essa conscientização ajuda a elaborar planos estratégicos de integração de diferentes sistemas de negócios, minimizando processos e fluxos de trabalho e mesclando ou eliminando gargalos, resultando em melhor utilização dos dados dentro do negócio.

 

Melhor experiência do cliente

Uma mentalidade digital permite que sua empresa pense do ponto de vista do cliente. Os funcionários de todos os departamentos poderão visualizar cada parte da jornada digital que um cliente percorre e fazer ajustes estratégicos e baseados em tecnologia. Ao trazer pensamentos e feedbacks integrados de todas as partes interessadas do consumidor, insights podem ser obtidos para fornecer resultados superiores às expectativas do cliente, não como uma capacidade de um único aplicativo, mas como uma combinação de diferentes ferramentas, processos e pensamento crítico em diversas camadas de serviço.

 

Tempo de colocação no mercado mais rápido

As empresas que têm pessoas no comando e em todos os departamentos com mentalidade digital saberão o quão importante é remover barreiras e atrasos burocráticos que impedem decisões sobre implementação digital. Trabalhariam para eliminar políticas redundantes e substituí-las por outras simplificadas e ágeis; garantir o acesso à infraestrutura crítica para a força de trabalho digital; e priorizar investimentos para adoção de tecnologia. Isso acabará se traduzindo na implementação mais rápida de serviços digitais ou habilitados digitalmente pela empresa para seus clientes. Com o aumento da concorrência, as empresas precisam trazer experiências mais rapidamente ao mercado para que os consumidores possam ligeiramente construir lealdade com ela.

 

Elimine o medo de perder o emprego

Uma das principais razões pelas quais os funcionários não aproveitam o verdadeiro poder do digital é o medo oculto em suas mentes sobre uma possível substituição futura de suas funções por uma máquina ou aplicativo. Isso resultaria em situações em que eles podem, voluntária ou inconscientemente, resistir às mudanças necessárias para a transformação digital. Ao trazer uma mudança de mentalidade, os líderes podem capacitar os funcionários a pensar além de seus medos e ver o digital como uma oportunidade para melhorar suas habilidades e atender as interações com clientes mais orientadas por valor. Para isso, eles precisam criar um esboço do que a empresa pretende alcançar estrategicamente por meio do digital, traçar caminhos para cada função individual e motivá-los a seguir o trajeto para garantir o sucesso colaborativo.

 

Estamos testemunhando uma enxurrada de tecnologias inovadoras impulsionadas por IA, aprendizado de máquina, IoT e Blockchain, que estão sendo introduzidas no ecossistema digital. As empresas geralmente enfrentam um dilema ao decidir onde concentrar seus investimentos e qual tecnologia devem priorizar para obter sucesso mais rapidamente. Embora a escolha da tecnologia exija uma avaliação detalhada, o conceito fundamental da transformação digital, que se concentra em alavancar a tecnologia por meio de uma mentalidade digital, é o que deve assumir o comando.

domingo, 9 de janeiro de 2022

Um artigo de Luiz Pedro, especialista em criptomoeda da Nord Cryto Master

 


“Se não pode com ele, junte-se a ele”

Esse dizer popular, que não tem um autor definido, é repetido ao longo dos anos nos mais diversos contextos, entretanto, aqui, ele tem uma aplicação muito clara.

Em 2017 e 2018, os grandes bancos do mundo todo temiam o Bitcoin e o “demonizavam” para seus grandes investidores.

O Bitcoin foi criado para descentralizar as relações financeiras, tirando o intermediário de confiança de uma transação. Isto é, tirando os bancos da jogada.

Claramente, os grandes bancos entendiam isso e atacavam o Bitcoin de forma voraz.

Um dos grandes representantes desse ataque coordenado era Jamie Dimon, CEO do JP Morgan, que por diversas vezes chamou o Bitcoin de “inútil” e chegou até a dizer que demitiria pessoalmente qualquer funcionário que tivesse bitcoin em posse ou realizasse trades com o ativo.

No entanto, essas declarações parecem ser águas passadas. Não é, Jamie?

O crescente entendimento da classe de ativos associado à demanda pelos clientes levou bancos como Goldman Sachs e JP Morgan, que já haviam criticado no passado o Bitcoin como ativo, a oferecer fundos aos seus clientes com exposição no ativo.

A grande captação que esses fundos tiveram e os grandes lucros provenientes disso fizeram os grandes bancos “mudarem de opinião” quanto ao Bitcoin.

Na última semana de 2021, vimos tanto os analistas do Goldman Sachs quanto os do JP Morgan se pronunciando sobre o Bitcoin e concordando no potencial do ativo como uma nova reserva de valor, que ainda vai se comparar ao ouro em termos de relevância no mercado.

O Goldman ainda cravou que “Bitcoin a 100 mil dólares é uma questão de tempo”.

Independentemente da ótica ou do motivo que leva a isso, ter grandes instituições favorecendo o racional de diversificação do portfólio com inclusão de Bitcoin nas carteiras é um fato positivo.

Apesar das quedas nesta semana devido à divulgação da ata da última reunião do Federal Reserve em dezembro de 2021, o racional de investimento no Bitcoin como reserva de valor permanece forte a longo prazo.

As quedas são bons pontos de compra para ativos que têm bons fundamentos. A longo prazo, a disciplina de aportar periodicamente, aliada ao aproveitamento de boas oportunidades, pode trazer bons frutos para os investidores.

Vamos parar de ter medo das quedas e direcionar o nosso foco para onde ele deve estar: no longo prazo.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Com o metaverso, a internet vai acabar?

 


É o que pergunta o jornalista, escritor e professor Fernando Morgado

Depois de tantos dizerem que a internet mataria todas as demais formas de comunicação, agora ela é a mais nova ameaçada de morte. Uma das frases que o Google sugere em seu serviço de busca é “what will replace the internet” (“o que substituirá a internet”). No momento em que escrevo este artigo, foram encontrados mais de 700 milhões de resultados que podem ser sintetizados em uma só palavra: metaverso. Trata-se de um espaço digital que replica e amplia a realidade.  Esse fenômeno é tão irônico quanto equivocado, assim como também foram equivocadas as promessas de que o cinema mataria o teatro, o rádio mataria os jornais e a TV mataria o rádio. Cassiano Gabus Mendes, por exemplo, disse para a Revista do Rádio: “O rádio vai sumir… Daqui a uns dez ou vinte anos, sim. Mas que vai, vai”. Essa frase foi publicada na edição de 25 de novembro de 1952. Sendo assim, pelas contas de Cassiano, o rádio teria acabado entre 1962 e 1972. Entretanto, aqui estamos nós, às portas de 2022, sendo informados pela Kantar Ibope Media de que 80% da população brasileira ouve rádio.

Metaverso: caminho para a renovação do Facebook

Ainda que metaverso seja um dos assuntos mais comentados na atualidade, a verdade é que esse conceito não é inédito. O ‘Second Life’, criado em 1999 e lançado em 2003, já oferece isso. O metaverso foi recolocado nas manchetes graças ao Facebook. Enfrentando severa crise de imagem e crescente concorrência, principalmente pelo público jovem, a companhia de Mark Zuckerberg decidiu lançar uma nova marca corporativa e anunciar seu novo empreendimento. As duas ações estão intimamente ligadas, visto que o nome Meta faz óbvia alusão ao metaverso. Em um vídeo com cerca de uma hora e vinte minutos de duração, Zuckerberg e seus executivos trataram de diferentes atividades virtuais: ensino, dança, jogos, shows e, sobretudo, vendas. “O comércio será grande parte do metaverso”, disse Vishal Shah, vice-presidente da Meta. Esse movimento representa um ajuste importante no modelo de negócio da companhia, que troca o primado da publicidade pela evolução do conceito de marketplace. O metaverso reuniria lojas tridimensionais que venderiam não apenas produtos físicos, mas também virtuais, feitos sob medida para uso dos avatares. Na Zuckerberglândia, as relações seriam construídas de forma mais direta, entre indivíduos e marcas, em ambientes que misturam elementos concretos e virtuais. Nenhuma parte da longa apresentação foi exclusivamente dedicada àquilo que hoje é fonte de parte relevante do tráfego (e das polêmicas) do Facebook: informação, seja ela confiável ou não. A empresa de Mark Zuckerberg, fortemente associada às fake news, passou a impressão de que quer recomeçar, mas bem longe da armadilha que ela montou e na qual ela própria caiu. A publicidade em troca de clique ergueu uma gigante em termos de faturamento, mas pôs em xeque o sistema político de vários países e a saúde de bilhões de pessoas ao redor do mundo. Os efeitos legais de tanta desgraça agora ameaçam os negócios do Facebook, que se viu obrigado a mudar. Ao que parece, no metaverso, o “você é o que você posta” dará lugar ao “você é onde você está e com quem você está”. Nas redes sociais de hoje, tudo é mediado por fotos, textos e vídeos. Já na Zuckerberglândia, as relações seriam construídas de forma mais direta, entre indivíduos e marcas, em ambientes que misturam elementos concretos e virtuais. Consumo, emoções e relações ditariam as normas. Conteúdos, portanto, perderiam protagonismo. Parafraseando Marshall McLuhan, seria um meio sem mensagem. Em tempo: é preciso reconhecer que já existe um veículo de comunicação cujas mensagens envolvem muito pouco ou quase nada além de sensações. Eu me refiro ao TikTok. Ainda que o jingle cantado por Emicida fale em aprendizado e mencione a palavra “conteúdo”, fato é que essa rede social prioriza as reações puras e simples do usuário, não o teor daquilo que transmite. Ronaldo Lemos, cientista chefe do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio), promete lançar em 2022 um livro no qual aprofundará essa discussão, que é tão relevante quanto sensível.

O metaverso e o setor de comunicação

Diante de todos esses movimentos, surge uma pergunta: quais as consequências (e oportunidades) do metaverso para os veículos de comunicação? É cedo para fazer considerações mais robustas. A própria Meta (leia-se Facebook) disse que ainda falta para o seu metaverso chegar ao público. Mesmo assim, a prioridade da tríade consumo, emoções e relações sugere que, no metaverso de Mark Zuckerberg, a produção de conteúdo caminharia, mais do que nunca, junto com a produção de atividades (ou experiências, como alguns preferem chamar). Nesse contexto, projetos especiais ganhariam novas possibilidades: ativação de marca em pontos de venda tridimensionais, promoção de shows virtuais e até sorteio de produtos para avatares.

De que forma os conteúdos jornalísticos serão produzidos e consumidos no metaverso?

A par de tanta especulação, é essencial que certas perguntas sejam respondidas para que os profissionais de comunicação tenham maior noção do futuro. De que forma os conteúdos jornalísticos serão produzidos e consumidos no metaverso? Qual será o modelo de remuneração para empresas e profissionais envolvidos nessa produção? O Brasil terá uma conexão à internet boa o suficiente para suportar o metaverso? Como se dará a regulação desse mercado? As pessoas estarão dispostas a gastar com novos aparelhos, como luvas e óculos, para entrar no reino encantado de Zuckerberg? Haverá algum esforço mais efetivo em prol da inclusão digital? Em suma: o metaverso veio mesmo para ficar ou é apenas um estratagema para mudar o foco do noticiário em torno do Facebook?

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Por Fernando Morgado. Jornalista, professor universitário e autor dos livros Comunicadores S.A. e Silvio Santos – A trajetória do mito. Mestre em Gestão da Economia Criativa e especialista em Gestão Empresarial e Marketing pela ESPM. Site: fernandomorgado.com.

Ilustração: Yahoo.

O FUTURO DO TRABALHO JÁ COMEÇOU, UM ARTIGO DE LEONARDO NOGUEIRA, CEO DA PROSPERI

 


Nesta nova dimensão do metaverso, as pessoas irão interagir representadas pelos seus avatares e "skins", serão remuneradas via moedas digitais e premiadas com artigos digitais protegidas por NFT

Até 2020, antes da pandemia do Covid-19, se falava em transformação digital e inovação, mas ainda era um tema um pouco distante para muitas pessoas. Ninguém imaginava que um vírus vindo da China ia mudar completamente este cenário. O mundo todo precisou adotar novas formas de pensar e agir. O futuro, que parecia distante, virou presente da noite para o dia, levando pessoas e empresas a anteciparem seus planos e se adequarem de forma abrupta a todas as novidades que estavam sendo impostas para todos nós.  Nem bem nos adaptamos a essas mudanças, e diversas tecnologias já estão invadindo o nosso dia a dia, como metaverso, NFT, blockchain, inteligência artificial, realidade virtual e/ou aumentada, que formam novas perspectivas de futuro e criam possibilidade de novos ambientes de interação entre as pessoas, semelhante aos mundos virtuais dos games em que milhares de pessoas já passam horas e horas imersos.

Nesta nova dimensão do metaverso, as pessoas irão interagir representadas pelos seus avatares e “skins”, serão remuneradas via moedas digitais, premiadas com artigos digitais protegidas por NFT e, como num vídeo game, estarão submersos com os objetivos de “passar de fase” ao alcançar as metas do metaverso, seja na educação, no trabalho e/ou no lazer. Imagine um experimento de deixar um adolescente num ambiente seguro, com um vídeo game, sem nenhuma responsabilidade a ser cumprida e com fornecimento de alimento e bebida, provavelmente, ele irá passar dias neste local jogando e, talvez, não saia nem para tomar banho.

A inteligência artificial deve acabar com as atividades repetitivas e analíticas. Por exemplo, já existem algoritmos de IA que conseguem diagnosticar doenças por análise de imagem, com maior precisão do que médicos especialistas, outros que escrevem petições jurídicas com alto grau de assertividade, através de análises de milhares de outros casos e características dos juízes do local do julgamento. Com todas estas mudanças, vagas de trabalho como atendente de call center, auxiliar de escritório, entre outros, não farão mais sentido no escopo das empresas. Em contrapartida, serão criadas novas oportunidades de trabalho como arquiteto de mundo virtual, influenciadores do metaverso, e outras que nem imaginamos ainda, porém, a tendência é que estas profissões necessitem cada vez mais especialização e conhecimento. É certo afirmar que teremos maiores perdas em empregos de baixo salário, enquanto a demanda por profissionais mais qualificados e com maior remuneração deve crescer. Estas mudanças implicam numa necessidade enorme de transição de carreiras e, para isso, é necessário se preparar, como já mencionado. Estudos apontam que entre 10% e 14% da população, em diferentes geografias precisarão mudar de carreira se quiserem se manter ativos profissionalmente. É importante ter em mente que cada vez mais a tecnologia fará parte do dia. Ou seja, pessoas que estiverem mais preparadas serão as que disputarão essas vagas. Além da competência profissional, as empresas também estarão atentas as “soft skills”, ou habilidades pessoais e comportamentais, que farão a diferença na hora da decisão. Alguns dos skills que já estão sendo considerados fundamentais para o futuro do trabalho, são: fluência digital, autoconfiança, saber lhe dar com incertezas, conhecimento organizacional, adaptabilidade, pensamento analítico e inovação, resolução de problemas complexos, aprendizagem, criatividade, liderança, inteligência emocional e influência social.

O Fórum Econômico Mundial fez um alerta ao indicar que 85 milhões de empregos serão remodelados até 2025, e que 50% dos profissionais que continuarão na sua função terão que se atualizar se quiserem fazer parte do trabalho do futuro. A requalificação profissional se torna essencial neste cenário em que muitos sistemas se tornaram ou estão se tornando autônomos e a inteligência artificial está mais presente em nossas vidas do que podemos imaginar. A questão é: quais serão as alternativas para as pessoas que não terão acesso e nem oportunidade para se atualizar e adquirir as especializações necessárias? Será que teremos milhões de pessoas vivendo imersos em uma realidade virtual do metaverso, simplesmente passando de fases e sendo sustentados por políticas globais de oferta de renda mínima, semelhante ao experimento do vídeo game citado anteriormente? O futuro está sendo criado hoje, e é um reflexo de diversas reações em cadeia. A qual grupo de trabalhadores do futuro você quer pertencer? Não perca mais tempo, se prepare agora.

Obs.: A Prosperi oferece soluções de colaboração, gestão de conteúdo e gerenciamento inteligente de projetos e portfólio de ponta a ponta. 

Ilustração: Ideia Clara. 

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Uma análise perfeita de Jean Marcel Carvalho França

 


Na pandemia, esqueceram Foucault

Por   Jean Marcel Carvalho França (*)

Os ditos progressistas têm, em geral, um especial apreço pela obra do filósofo Michel Foucault; conservadores, por sua vez, torcem o nariz mal escutam o nome do pensador francês ou de um dos seus muitos discípulos. Em tempos normais, essa afirmação soaria demasiado óbvia, quase consensual. Todavia, coisas muito estranhas ocorreram no planeta ao longo destes meses pandêmicos. Inexplicavelmente, foucaultianos e simpatizantes, em meio à confusão sanitária geral, deixaram totalmente de lado uma das mais salientes obsessões do pensador francês, justo aquela relacionada diretamente ao drama que o mundo vivia: o tal biopoder, isto é, o uso do medo da morte e da promessa de uma vida longa (saudável) como um mecanismo eficaz de controle social.

Ora, o que se viu durante o corre-corre e a guerra de informações gerados pela pandemia foi uma verdadeira “inversão de valores”. Especialistas que passaram a vida escrevendo e gritando contra todo tipo de encarceramento (de loucos em hospícios, de presos em cadeias, de operários em vilas, de drogados em centros de recuperação, etc.) vieram a público pedir freneticamente que o estado atentasse contra as liberdades individuais e obrigasse cidadãos saudáveis, lúcidos e honestos a mofarem em suas casas ou a de lá saírem somente em casos excepcionais e devidamente mascarados – medida que, até se prove o contrário, parece mais moral do que sanitária.

Críticos incansáveis da ciência ocidental, aquela produzida pelo homem branco e dominador, de uma hora para outra, tornaram-se positivistas ferozes e cobraram testes de segurança – dentro dos bons padrões da ciência clássica – para medicamentos utilizados há décadas e consumidos aos montes, e sem receitas médicas, pela população. Pior ainda: inúmeros defensores dos denominados “saberes alternativos sobre a doença e a cura” (aqueles produzidos por parteiras, curandeiros, naturalistas etc.) puseram em xeque, lançando mão de uma ideia quase mística de ciência, exagerada até mesmo para os positivistas mais convictos, a experiência clínica – empírica – de médicos e enfermeiros.

O mais bizarro, porém, ainda estava por vir. Um vírus qualquer da incoerência tomou conta daquela gente que tinha a Big Pharma em péssima conta, daquela gente que, atenta aos ensinamentos de Foucault, desconfiava do uso que tais empresas faziam do vasto conhecimento que detinham sobre os corpos humanos; mas também daqueles céticos que, por razões as mais variadas, até há algum tempo atrás, desconfiavam e falavam horrores de imunizantes testados e aprovados há décadas. Mal se aventou a possibilidade de uma vacina para o vírus de Wuhan e esses precavidos e críticos de outrora, em meio a cânticos de louvor às indústrias farmacêuticas, exigiram vacinas para todos, inclusive para os que não queriam, não precisavam ou não podiam tomar a poção mágica ofertada pelos laboratórios. Não contentes, num derradeiro gesto de adeus a Foucault, saudaram com júbilos de alegria o passaporte sanitário, um instrumento nada desprezível de “governo dos outros” – como diria o já esquecido filósofo.

Por uma ironia do destino, coube, neste mundo de ponta-cabeça, aos denominados conservadores comungarem de algumas das preocupações de Foucault e, por razões que certamente não são as mesmas do pensador francês, lançar um olhar de desconfiança sobre os poderes constituídos e sobre as políticas que estavam implantando para combater a pandemia e supostamente garantir a vida dos cidadãos. Foram pessoas taxadas de egoístas e individualistas – e também de inescrupulosas e desprovidas de empatia – que, sem muito sucesso, advertiram sobre os perigos de permitir que o estado adotasse medidas sanitárias de eficácia duvidosa, mas que inquestionavelmente atentavam contra as liberdades individuais, contra o sagrado direito de ir e vir dos cidadãos. Foi gente com pouco apreço por Foucault e por suas críticas à ciência ocidental que apontaram o uso mistificador que se estava fazendo dessa mesma ciência, que apontaram a deslegitimação sistemática então em marcha da experiência clínica e mesmo a censura que se impunha aqui e ali a certos temas trazidos a público por médicos e cientistas que não engrossavam o coro geral. Foram surpreendentemente críticos que jamais pensaram que doenças imaginárias eram criadas pela indústria farmacêutica para vender medicamentos – ou que vacinas testadas eram substâncias duvidosas inoculadas autoritariamente em nossas crianças – que levantaram uma bandeira amarela para a segurança e eficácia de vacinas desenvolvidas em meses, vacinas experimentais que pareciam estar sendo impostas de uma maneira muito afoita a toda a população do país. Para completar a total inversão de valores e tornar o ambiente ainda mais esquisito, foram indivíduos apontados como simpáticos à opressiva ordem burguesa liberal que saíram por aí conclamando as pessoas a não aceitarem passivamente uma medida que tem todo o jeito de ser um instrumento poderoso de controle social: a exigência do controverso comprovante de vacina – aquele mesmo que muitos progressistas se orgulham de ostentar nas redes sociais.

 

Enfim, é realmente uma sociedade complicada esta que construímos no Ocidente: parece que todas aquelas partilhas que utilizávamos ainda ontem e que tornavam o mundo tão bem delineado e compreensível já não servem mais para nada.

 

* Jean Marcel Carvalho França é professor Titular de História do Brasil da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho e autor, entre outros, dos seguintes livros: “Literatura e sociedade no Rio de Janeiro Oitocentista (Imprensa nacional - Casa da Moeda, 1999), “Visões do Rio de Janeiro Colonial” (José Olympio, 2000), “Mulheres Viajantes no Brasil” (José Olympio, 2008), “Andanças pelo Brasil colonial” (Editora da UNESP, 2009), “A Construção do Brasil na Literatura de Viagem dos séculos XVI, XVII e XVIII” (José Olympio/Editora da UNESP, 2012), “Piratas no Brasil“ (Editora Globo, 2016) e “Ilustres Ordinários do Brasil” (Editora da UNESP, 2018).

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Uma excelente análise sob o impacto do PIX


 Um ano de Pix: Qual o tamanho da transformação no sistema financeiro?

*Por Julián Colombo

Quando o Banco Central anunciou o novo sistema de pagamento instantâneo brasileiro, o famoso Pix, muitas especulações e discussões sobre qual seria o impacto dessa ferramenta no setor financeiro começaram a surgir. Ao completar um ano de operação, já conseguimos enxergar se, de fato, mudanças e competições previstas aconteceram? Antes de responder a essa pergunta, acredito que seja importante lembrar que, quando estamos no campo da economia, é difícil estabelecer com precisão o impacto de um único evento, pois existem muitas variáveis operando ao mesmo tempo.  Só para começar, neste último ano, por exemplo, muito mais que o lançamento do Pix, a economia enfrentou as consequências de uma devastadora pandemia, mudanças significativas no setor financeiro com a chegada do Open Banking, apostas expressivas de investidores em Neobanks, entre outros fatores decisivos que afetam diretamente o comportamento das pessoas e empresas. Por isso, fica difícil isolar o impacto individual de um único sistema , mas me arrisco a tentar. Analisando de uma maneira prática e direta os efeitos do Pix no Brasil, percebemos que sim, as mudanças estão acontecendo e temos alguns números oficiais que demonstram isso. Em seu lançamento, muito se falou sobre os possíveis efeitos positivos na concorrência e consequente democratização dos serviços financeiros. Um indicador muito importante que reflete a  concentração bancária de um mercado é a porcentagem que os cinco maiores bancos de um país representam no crédito total (ou nos depósitos). Se compararmos  esse número, vemos que o Brasil, em 2016, tinha 86% de concentração. Nos  últimos cinco anos, no entanto,  esse indicador tem se reduzido em sete pontos - e cada vez mais rápido - chegando em 2021 perto de 79,5%. Ainda assim os avanços são lentos: o País ainda é um mercado extremamente concentrado, ficando atrás apenas da Holanda, que possui quase 90% de concentração bancária. Nos Estados Unidos esse número está perto de 40%, já a China e Índia ficam entre 35% e 37%. Observando a questão da aderência, o Pix foi um sucesso absoluto e é um dos melhores casos de adoção voluntária de um “produto” financeiro no mundo. Em um ano de funcionamento, nove  a cada 10 transferências já são feitas pelo sistema e 105 milhões de pessoas, ou seja, mais da metade da população brasileira,  já usou. Num primeiro momento, quase todas as transações no sistema eram  feitas de pessoa para pessoa, mas agora 16% já são de pagamentos a empresas. O produto está melhorando muito e logo será possível ainda pedir troco, fazer saques e pagar parcelado.  A consequência dessas mudanças e da grande aceitação está também no impulsionamento da concorrência. Se antes, os grandes bancos sempre tiveram vantagens muito expressivas em suas redes de meios de pagamentos, hoje elas perdem importância quando existe uma alternativa mais rápida, confortável, barata e segura e, principalmente, que qualquer banco de médio e pequeno porte podem oferecer. Dentro deste cenário de mudanças no último ano, a pandemia também foi fator determinante para a concorrência financeira e não só no Brasil, mas especialmente aqui. Os grandes bancos brasileiros tiveram historicamente redes de distribuição e atendimento gigantescas, em consonância com o tamanho do país. Há 20 anos, teria sido impossível para um banco sem agências capturar clientes. Mas a tecnologia foi desenvolvida e algumas pessoas, que chamamos de early adopters (primeiros a adotar), começaram a migrar para os canais digitais dos grandes bancos, e depois para Fintechs e Neobanks. A pandemia gerou um problema logístico que fez com que a parcela que não confiava, gostava e/ou entendia os canais digitais foi obrigada a os adotar. Essa mudança forçada  acabou acelerando o processo de digitalização, o que equaliza  hoje o poder de um banco com 5 mil agências com um que não possui nenhuma e está apenas no ambiente digital. Ainda sobre concorrência, não podemos deixar de citar outros exemplos que estão impactando o mercado e ainda terão uma parcela grande nas futuras mudanças dentro do setor financeiro. Os Neobanks possuem recursos enormes para concorrer com os grandes bancos, podendo investir muito mais em publicidade e desenvolvimento tecnológico. Isso porque eles não se importam com o lucro na mesma medida que os bancos tradicionais. Os investidores dos grandes bancos exigem rentabilidade, é claro, mas os investidores dos neobanks querem crescimento de market share, qualidade de atendimento, etc. Ou seja, permitem que eles possam baixar os preços a níveis que os concorrentes diretos não podem acompanhar.  Com tantos eventos e acontecimentos neste ano que passou, a mudança em geral está sendo possível graças à parcela de responsabilidade de cada uma delas, seja Pix, Pandemia, Open Banking e Neobanks. O fato é que todos incentivam um mercado mais competitivo, o que desempenha um papel fundamental para a economia do País. 

 

*Julián Colombo é economista com mais de 20 anos de carreira em banco, também é co-fundador e CEO da N5, empresa de software dedicada à transformação digital no setor financeiro.



Julián Colombo, CEO da N5