quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

A Grande lacuna da educação financeira



Educação financeira nas escolas: impactos socioeconômicos no Brasil

Lucas Radd (*)

O Brasil é a 10ª economia do mundo e, apesar da posição no ranking, é um país em que somos praticamente analfabetos funcionais em finanças pessoais. Mesmo pessoas com alto nível de escolaridade não conhecem os produtos financeiros ou sabem as melhores práticas para cuidar do seu dinheiro. De acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), o endividamento das famílias bateu recorde em 2022, com 77,9% das pessoas se declarando endividadas.

A porcentagem alta nos mostra que o país não possui a base de para organizar as suas despesas. Por isso, entendo que fortalecer essa cultura nas escolas é fundamental para garantir um futuro com mais segurança e qualidade de vida para todos. Afinal, os jovens e boa parte da população adulta não sabem mexer com dinheiro.

O apoio da escola na estruturação da consciência e planejamento financeiro torna-se fundamental para quebrar esse ciclo de endividamento, afinal é um problema comportamental e cultural. Além disso, ter profissionais que entendam do tema e ensinem aos adolescentes a importância da economia, controle de gastos e investimentos é essencial para lidar com o dinheiro de forma mais consciente e inteligente.

É muito comum as pessoas comprarem por impulso e a maioria não possui o conhecimento necessário para calcular juros. Com isso, as despesas aumentam e comprometem o orçamento familiar. Entender qual é o momento ideal para decidir o que fazer com o dinheiro de forma responsável e segura é o ponto inicial para essa organização.

Pessoas estáveis financeiramente são mais propensas a aumentar seu capital, estabilizar suas despesas e, consequentemente, alavancar o crescimento econômico/patrimonial. Quando isso não ocorre, leva o país a lidar com problemas sociais e coletivos, como o fechamento de empresas, demissões e contas em atraso, além de chegar na saúde pública com pessoas adoecidas física e mentalmente.

Posso concluir que a falta de educação financeira para crianças, jovens e adultos é uma das carências estruturais que mais causa consequências a curto e a longo prazos. Somos apresentados aos conceitos básicos de coletividade desde o nascimento, entretanto, é fundamental lembrar que o analfabetismo financeiro não impacta apenas um indivíduo, e sim a todos. Garantir esse tipo de conhecimento no ensino básico é estimular um futuro mais consciente.

(*)  é sócio-fundador e CEO da Rufy, plataforma de saúde financeira, destinada para pessoas e empresas, interessadas em oferecer o sistema como benefício aos colaboradores.

 

 


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

REFORMA TRIBUTÁRIA: O FIM DA ZONA FRANCA DE MANAUS?

 


Reforma tributária decretará fim da Zona Franca de Manaus

Eduardo Bonates (*)

A reforma tributária que está em discussão no Congresso Nacional terá como consequência o fim da Zona Franca de Manaus (ZFM). Sem nem mesmo um artigo ou cláusula que trate do polo amazonense, a proposta que tramita em Brasília para unificar impostos e contribuições, na verdade, inviabilizará o modelo que levou desenvolvimento industrial à região. Ao vetar qualquer tipo de benefício tributário, a mudança atinge diretamente o que dá competitividade à ZFM em relação a outros estados.

Há uma parte da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que altera o Sistema Tributário Nacional que mira a ZFM, ainda que sem citá-la. Na definição do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), que unifica outros tributos e contribuições, existe um veto à essência do polo amazonense. “Não será objeto de concessão de isenções, incentivos ou benefícios tributários ou financeiros, inclusive de redução de base de cálculo ou de crédito presumido ou outorgado, ou sob qualquer outra forma que resulte, direta ou indiretamente, em carga tributária menor que a decorrente da aplicação das alíquotas nominais”, conforme a proposta.

O secretário extraordinário do Ministério da Fazenda para a Reforma Tributária, o economista Bernard Appy, que é um dos mentores da reforma, nunca demonstrou apreço pela isenção e crédito fiscal que atraiu muitas empresas à zona franca. Essa visão está mantida no texto da PEC que altera o Sistema Tributário Nacional, de autoria do presidente do MDB, deputado federal Baleia Rossi - que, assim como Appy, é do estado de São Paulo.

A reclamação para derrubar as vantagens competitivas da ZFM é antiga e vem de empresas de fora de Manaus, a maioria do Sudeste do Brasil. A questão já foi alvo de ações no Supremo Tribunal Federal (STF), sem sucesso. Começou então uma mobilização para conseguir a mudança via reforma, por meio de uma PEC.

Mesmo assim, é provável que essa luta contra a zona franca volte aos tribunais. O STF, o Supremo Tribunal de Justiça (STJ) e o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) decidiram diversas vezes em favor do polo amazonense, o que deu segurança e aumentou a competitividade local. Cenário que, ao que parece, está em processo de mudança.

No último dia 8, o STF reviu decisões dadas como sacramentadas e enterrou três princípios constitucionais: da segurança jurídica, do trânsito em julgado e da retroatividade em questões relativas a benefícios tributários. Em julgamento sobre a Contribuição Social sobre Lucro Líquido (CSLL), o órgão considerou que, quando há uma questão tributária de relevância para a União, o interesse da arrecadação está acima do interesse privado, inclusive para cobrança de impostos que deixaram de ser pagos nos últimos anos. Na prática, é o fim do direito tributário.

Nessa mesma noite, o STJ seguiu o STF e reverteu decisão que isentava a cobrança do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) de produtos estrangeiros revendidos. São dois tributos em que o entendimento jurídico era a favor do contribuinte que se tornaram imediatamente a favor da União. O próximo passo é o fim da ZFM.

Para completar, o governo federal havia publicado em janeiro a Medida Provisória (MP) 1160/2023, que restabelece o voto de qualidade no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf). Isso significa que em caso de empate nos votos dos conselheiros em análises pelo órgão, o representante da União dará o voto de Minerva. O Congresso havia incluído em 2020 um dispositivo que previa o desempate em favor do contribuinte, em uma MP que foi sancionada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Somente no ano passado, as decisões com igualdade de votos no Carf representaram R 25 bilhões em decisões a favor do contribuinte. A estimativa neste ano é que o montante aumente para R 50 bilhões que, desta vez, serão a favor das União.

Todas essas questões mostram a face não tão clara da reforma tributária, que é arrecadar mais. O objetivo de reduzir o tempo gasto e simplificar o pagamento de impostos ao unificar quatro em apenas um terá o seu custo. A previsão é que a alíquota do IBS seja maior do que a dos quatro anteriores somados.

É nessa onda de aumento da arrecadação federal que entra o fim dos benefícios fiscais à ZFM. É preciso que a sociedade civil se movimente e cobre os políticos da região para que atuem na defesa do polo que trouxe desenvolvimento e empregos na indústria, comércio e serviços ao Norte do Brasil.

(*) é advogado especialista em Contencioso Tributário e Zona Franca de Manaus e sócio do escritório Almeida, Barretto e Bonates Advogados.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Artigo sobre paraísos fiscais

 


Paraísos fiscais são as terras sagradas para diversificar o seu patrimônio

Luiz Felipe Bazzo (*)

O termo paraíso fiscal é utilizado para identificar aqueles países que possuem uma tributação favorecida e condições promissoras para a incorporação de empresas, as chamadas companhias offshores. Apesar da expressão remeter, para algumas pessoas, a uma prática ilegal, desde que devidamente reportada às autoridades competentes e cumpridas as normas de compliance, a constituição de companhias nestas jurisdições é lícita, sendo uma estrutura bastante utilizada para proporcionar resultados tributários mais vantajosos. Aqueles que optam por esta estrutura devem realizar os reportes às autoridades competentes, não há qualquer ilegalidade na utilização desse tipo de estrutura.

Para Bruno Fediuk de Castro, Head of Business Development na Allshore, escritório parceiro do transferbank, a utilização de uma companhia offshore, fundo exclusivo ou fundação privada no exterior pode proporcionar vários benefícios aos investidores, incluindo uma gestão financeira e patrimonial mais eficiente, sendo bastante comum estas estruturas serem utilizadas para fins de planejamento sucessório.

Todas essas vantagens decorrem de alguns fatores propiciados pela categoria, como: a exposição a moedas fortes, como o dólar e o euro, que são as mais utilizadas nas operações, trazendo maior segurança para o negócio e liberdade no câmbio; juros baixos se comparados com o de outros países, assegurando bons financiamentos; proteção e privacidade nas transações; estabilidade, visto que paraísos fiscais, normalmente, têm um cenário econômico e político melhor; isenção ou diminuição de impostos e a facilidade organizacional por conta da grande flexibilidade no manejo das organizações. Ainda a economia fiscal deve ser sempre uma consequência de um projeto maior, justamente para evitar que seja considerado um planejamento abusivo.

Quando trazemos esses pontos para a realidade do brasileiro, há ainda players como fintechs para facilitar as remessas internacionais para a conta da companhia offshore no exterior. Nesse contexto de alternativas aos bancos tradicionais, as fintechs buscam a redução da burocracia e economia, atrelado a um atendimento especializado para quem deseja enviar recursos ao exterior. Na jornada, basta que o investidor realize um cadastro em alguma dessas instituições financeiras autorizadas a operar no mercado de câmbio, em seguida apresente os documentos societários para registrar a operação. Depois, há a cotação e o fechamento do câmbio, que, com a disponibilização dos dados bancários da conta, já permite a efetivação dos pagamentos.

Vale destacar que o processo é feito sob um contrato vinculado ao Banco Central (BC), o qual faz parte do grupo de diversas organizações, conselhos e institutos que garantem uma maior transparência, controle e fiscalização dos veículos offshore. São mais exemplos de entidades como essas o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), Grupo de Ação Financeira Internacional (GAFI) e Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Quanto ao respaldo para os territórios caracterizados como paraísos fiscais, é importante atentar-se ao artigo 24 da Lei 9.430, de 27 de dezembro de 1996, o qual considera esses locais como aqueles que tributam a renda com uma alíquota inferior a 20%. Em 2008, também foi acrescido pela Lei 11.727, lugares em que não se permite o acesso às informações quanto à composição societária de pessoas jurídicas, à sua titularidade ou identificação do beneficiário efetivo de rendimentos atribuídos a não residentes. Ao todo, a lista da Receita Federal para esses territórios abarca mais de 60 países, sendo os mais conhecidos as Ilhas Cayman, Ilhas Virgens Britânicas, Bahamas e Panamá.

Portanto, ao transferir parte do capital para outra jurisdição, o investidor está diversificando e protegendo o seu patrimônio. É uma via que escapa dos efeitos negativos que podem atingir a moeda brasileira, gerando uma segurança financeira que tende a perdurar por muitos anos. E, por se tratar de uma prática completamente lícita e repleta de utilidades em potencial para o crescimento no mercado, merece a devida atenção na tomada de decisão de como movimentar o seu dinheiro.

 

 (*) é CEO do transferbank, uma das principais soluções de pagamentos e recebimentos internacionais do Brasil.

 

domingo, 4 de dezembro de 2022

O NOVO ROUBO É DIGITAL

 


Phishing: o novo roubo do século

Sebastian Stranieri (*)  

Casos que não têm a mesma cobertura midiática, mas que também são voltados ao sistema acontecem diariamente, isso porque criminosos entram em contato com usuários de instituições bancárias se passando por funcionários e por meio de perguntas muito bem instruídas e ensaiadas, conseguem extorquir dados bancários e senhas com o intuito de realizar empréstimos e sacar dinheiro das contas. O que surpreende é a facilidade e a constância que esses crimes têm acontecido. Dados da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) mostram que o Brasil registrou um aumento de 80% nas tentativas de ataques de phishing com intuito de roubo financeiro só em 2021.

Por esse e outros motivos, segundo lei do Código de Defesa do Consumidor, independente dos dados terem sido divulgados pela pessoa, o vazamento destas informações que deveriam ser mantidas em sigilo, tira a exclusiva responsabilidade do cliente. Como consequência, impõe-se ao banco o dever de ressarcir eventuais prejuízos decorrentes do phishing.

Essa decisão me convida a refletir sobre muitas coisas. É claro que o culpado não é a instituição e muito menos o cliente. O responsável é o cibercriminoso. Parece óbvio, eu sei. Mas deve ser dito. Além do debate ético-filosófico e da banalização do assunto pela mídia, que pode até promover o aumento dos crimes cibernéticos, esforços legais também devem ser feitos para fornecer um arcabouço jurídico que proteja as vítimas e puna os autores.

A regulamentação e o modelo de proteção de dados pessoais como base

Cada mercado tem seus regulamentos dentro das organizações. O Brasil tem disponibilizado grandes esforços em segurança cibernética, especialmente no setor bancário. Isso porque, os ataques de phishing cresceram quase 230% no Brasil no primeiro semestre de 2022. Do meu ponto de vista, casos como o exposto acima devem estabelecer um novo ponto de partida para a atualização da regulamentação e para que comecemos a trabalhar para que cada elo da cadeia seja responsável por 100% de suas ações. A partir disso, esses esforços permitirão equilíbrio entre segurança e usabilidade para criar uma excelente experiência de usuário daqui para frente.

Eu sei que o sistema bancário tem ferramentas sofisticadas para evitar ataques em massa. Também estou ciente da especialização dos criminosos até o momento. Portanto, estou convencido de que a chave é a educação dos usuários em segurança cibernética pelo governo, empresas e instituições de ensino.

Educação financeira e de segurança é o segredo

A cibersegurança pode proteger a identidade digital das pessoas e prevenir fraudes com inovações como inteligência artificial e reconhecimento biométrico. No entanto, apesar de já existirem diversas ferramentas contra ataques de engenharia social, nem sempre a tecnologia é suficiente.

Nesse sentido, para estar preparado contra os cibercriminosos, a educação digital permanente é fundamental. Em primeiro lugar, devemos estar cientes que qualquer um de nós é um possível alvo de um ataque de phishing. É por isso que temos que estar sempre atentos a qualquer mensagem ou ligação suspeita, já que os golpistas podem até fingir ser amigos ou conhecidos por meio do WhatsApp, por exemplo. Além disso, uma das principais formas de realizar um golpe é através das redes sociais, é por meio delas que reclamamos de produtos e serviços, além de postar informações pessoais de importância, o que as torna alvos tão importantes.

É necessário prestar atenção aos detalhes. Por exemplo, não clicar em links ou baixar anexos que chegam por e-mail, redes sociais ou serviços de mensagens de remetentes desconhecidos. Se receber uma ligação de alguém dizendo ser do banco ou de alguma instituição, fique atento! Os bancos nunca solicitarão dados confidenciais por esses meios. Portanto, em caso de dúvida, entre em contato com o atendimento ao cliente antes de responder a qualquer comunicação digital.

Outra ferramenta essencial, implementada anos atrás pelos bancos, é o múltiplo fator de autenticação, que inclui não só o envio de tokens e OTPs, mas também validações biométricas de reconhecimento facial. Para robustecer a segurança também são implementadas tecnologias de prevenção à fraude, que identificam comportamentos anômalos para aquele usuário específico como localidade e/ou dispositivos distintos àquele que o usuário costuma utilizar. Se você não o possui, deve ativá-lo e nunca compartilhá-lo, para que ninguém possa acessar sua conta de outro dispositivo. E, por fim, tenha sempre o sistema operacional atualizado, tanto no computador quanto no celular.

Essas recomendações podem nos ajudar a enfrentar os perigos do mundo digital, onde, por exemplo, a Microsoft bloqueou no ano passado mais de 35,7 bilhões de ataques de phishing e outros e-mails maliciosos enviados por criminosos. No entanto, para reduzir o cibercrime, devemos colocar o foco da justiça nos criminosos, os verdadeiros vilões dessa história.

(*) É fundador e CEO da VU, especialista em cibersegurança.

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

A volta ao passado no setor de combustíveis

 


FEITIÇO DO TEMPO  

Antonio Ticianeli (*)

Muito provavelmente você, leitor, se lembra do filme com o Bill Murray, chamado Feitiço do Tempo; filme em que seu personagem fica preso em uma armadilha temporal que o faz reviver o mesmo dia vezes sem fim. Esse é o cenário econômico atual quando falamos do mercado de petróleo e derivados no Brasil.

Colocando partidarismos e vieses ideológicos de lado, e, se realizando uma análise fria do comportamento do mercado, claramente o comportamento demonstrado desde a declaração dos resultados para presidente, confirmando o retorno de Lula ao poder central, é de agitação e a incerteza com o futuro que apresenta em um horizonte extremamente próximo. Ao menos é o que se tem percebido ao se observar as movimentações dos mercados de petróleo, especialmente os relacionados à Petrobrás.

O alto grau de incertezas acerca do futuro deste segmento em específico, encontra amparo nas ocorrências passadas em outros governos petistas em relação aos seus escândalos, e que tem impacto nos papéis da Petrobrás, que registrou desde o final da última semana uma perda acumulada de ao menos 10.00% no  valor dos seus papéis (PETR3, PETR4) desde a confirmação da vitória do ex-Presidente da República.

Ao que tudo indica, o governo futuro já tem o possível nome para assumir o cargo de presidente da estatal e para tanto já sonda o nome de Jean Paul Prates, ex-suplente de Fátima Bezerra e atual senador pelo Rio Grande do Norte, para esta cadeira. Jean Paul Prates é uma figura pouco conhecida do Sudeste brasileiro, mas muito conhecida no Estado do Rio Grande do Norte, onde tem uma longa carreira como consultor nas áreas de energia e petróleo, inclusive ocupando cargos de confiança, tanto na ANP quanto em secretariados potiguares.

Mas o que inquieta o mercado nesse momento, não se refere à capacidade técnica de seu potencial “futuro” presidente, mas sim, o pensamento intervencionista que acompanha o partido o qual lhe pretende indicar como presidente. Tal pensamento já se apresentou ao mercado, ainda que de forma acanhada. Entre as suas possíveis ações como o chefe da estatal, pode-se listar as mais impactantes, e que talvez coloque o mercado com sentimento de viver o enredo do filme com Bill Muray. São elas:

Recompra “equilibrada” das refinarias privatizadas;

Upgrade e expansão das refinarias em expansão;

Trocar o PPI por preço mercado regional;

Diminuir os dividendos para investir mais.

Vale ressaltar que as políticas de preços da estatal estão baseadas em práticas mercadológicas que visam o abastecimento do mercado através de equilibração de preços em “pari passu” com os custos envolvidos na importação de combustíveis, em especial o óleo diesel. Pois diferente do que se é sempre bradado pelos políticos, o Brasil, devido à deficiência na capacidade produtiva de suas refinarias, não consegue refinar todo o petróleo que produz, e, por isso, importa cerca de 60.00% de todo o óleo diesel consumido no país.

Desta forma, ao se revogar a regra do PPI e tornando os preços equiparados regionalmente, pode demonstrar a prática de intervencionismo ante ao mercado. E assim a regra de ouro do mercado será aplicada, tornando desinteressante a competição dada a sua baixa lucratividade ou oportunidade de ganho. E, muito provavelmente, resultará em escassez de produtos no mercado, refletindo futuramente nos preços que serão pressionados a subirem porque haverá alta demanda e baixa oferta.

Outro efeito negativo desse tipo de gestão em relação às políticas internas da estatal, sem dúvida alguma pode ter efeitos danosos, principalmente nos relacionados ao posicionamento de mercado e valuation da companhia. Muito embora a BR seja tratada como estatal, ela na realidade é uma empresa de economia mista que possui papéis nas principais bolsas de valores no mundo e logo seus investidores visam lucratividade. Obviamente ao saber que seu principal acionista e controlador pretende reduzir sua lucratividade com vistas a manter suas políticas populistas, naturalmente seus papéis podem perder valor, e, por conseguinte, suas ações se tornariam desinteressantes.  Para alguns, essas ações foram surpreendentes, já para outros, trata-se de ações totalmente previsíveis. Vamos aguardar o desenrolar das coisas com muita cautela.

(*)  é engenheiro químico, especialista em regulação e mercado de petróleo e derivados.

terça-feira, 8 de novembro de 2022

A tokenização em alta

 


O que é a tokenização e por que esse processo está tão em alta no mercado de criptomoedas

 Rodrigo Pimenta (*)

O mercado de criptomoedas se encontra em uma crescente constante. Com isso, surgiu o processo de “tokenização”, que vem ganhando enorme relevância no cenário nacional e internacional. Resumidamente, consiste no processo de transformar um ativo qualquer em quotas menores e/ou fracionadas em um ecossistema descentralizado, utilizando contratos inteligentes juntamente com tecnologia “blockchain”. Esse processo, além de permitir a garantia, simplicidade, transparência e segurança tecnologicamente, possibilita maior facilidade em negociar a partir de mercados gigantescos, como por exemplo DeFi ou exchanges de criptoativos.

Com a grande ascensão desse universo, o mercado tem criado diversos novos tipos de tokens com variados propósitos. Existem diversas opções de categorias de tokens cujas as 4 principais podem ser destacadas: os Utility tokens, Non-fungible tokens (NFT), Security tokens e Payment Tokens.

A tokenização não é um assunto recente, há pelo menos 10 anos esse tema é discutido no mercado, no entanto, ao que tudo indica, agora viveremos essa era. Recentemente, o CEO da B3, Gilson Finkelsztain, apontou que a companhia deve começar a usar “blockchain” na tokenização de ativos físicos. Com o aval na participação no Sandbox Regulatório da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a parceria entre a fintech Vórtx e a holding QR Capital, tem feito testes de regulação dos primeiros tokens no mercado de capitais nesse sandbox utilizando “blockchain”.

 A grande vantagem se dá pelo fato de a “blockchain” ser à prova de fraudes. Afinal, estamos falando em transformar qualquer ativo em um token, sendo ele real ou financeiro. Se tratando da tokenização, é essa tecnologia que permite a troca de informações, em que todos os envolvidos na rede garantem a veracidade dos termos e condições. Dessa forma, não há questionamento de confiança.

É importante tocarmos no fato da confiança ser a chave do negócio. Afinal, essa é a questão principal quando o assunto é crédito. Vamos partir do princípio de que uma lei precisa de uma interpretação humana para ser aplicada. Quando traduzimos um código para “blockchain”, é ele quem faz essa operação a partir de uma rede de consenso. Com isso, a tokenização de ativos financeiros cresceu aos olhos do mercado mundial, pois elimina a necessidade de confiança e desassocia a avaliação de risco.

 

O grande entrave no momento gira em torno dos desafios regulatórios, facilitado pelo teste de Howey, que veda ofertar qualquer tipo de ativo para um cidadão brasileiro, demandando autorização expressa da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e, mesmo assim, sendo liberado somente em alguns casos especiais. Assim como uma wallet identificada e auto-custodiada, para lidar com lavagem de dinheiro, apoio ao terrorismo e gestão das chaves privadas para diminuir a insegurança jurídica, sucessão, litígios ou disputas judiciais. Desafio enorme como o CBDC (“Central Bank Digital Currency”), o utility token do novo “real digital brasileiro”, que conforme Roberto Campos Neto, ex-Presidente do Banco Central do Brasil, seria compatível com smart contracts em “blockchain”.

É fácil perceber como os ativos digitais em “blockchain” prometem impactar a nova economia. Mas qual a amplitude desse impacto? Na realidade ainda não sabemos. Fato é que a tecnologia “blockchain” veio para ficar na economia mundial e seu grande pilar está em permitir uma utilização mais eficiente dos recursos, reduzindo os custos das operações, ampliando os produtos financeiros já existentes e seus desdobramentos, como o DeFi, GameFi, SocialFi e InsuranceFi, que ainda carecem de um melhor tratamento com os regulares. Os primeiros passos já foram dados e isso já é um magnífico sinal de importância.

(*) É engenheiro elétrico e CEO, fundador, da Hubchain Tecnologia.  

 

 

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

CRIMES FINANCEIROS NA ERA DOS DADOS

 


CRIMES FINANCEIROS NA ERA DOS DADOS

 Luiz Ohara (*)  

Na era digital, não há dúvida de que os dados são um dos ativos mais valiosos que as empresas podem ter. Como consumidores dessa nova era, estamos em constante produção de dados, os quais as empresas aproveitam para entender as necessidades, gostos, padrões de compra e comportamentos financeiros em geral.

Produzimos tantos dados, que estes se tornam uma mina de ouro para empresas que querem chamar nossa atenção, mas também para os cibercriminosos. As brechas de segurança possibilitam o vazamento de dados proveniente de diferentes interações que tenhamos. Quando as práticas de segurança são suscetíveis a invasões, a captura de informações por parte de criminosos é facilitada, abrindo assim a possibilidade de diversos tipos de golpes.

A quantidade de informações que tratamos em formatos digitais torna empresas, governos, entidades financeiras e instituições do Estado, alvos para que hackers tenham acesso a informações sigilosas. Não precisamos ir tão longe: uma das maiores falhas de cibersegurança registradas até o momento no Brasil ocorreu em agosto de 2021, quando 27 milhões de brasileiros tiveram algum tipo de dado confidencial exposto.

Os tipos de fraude

O vazamento de dados deixa os consumidores vulneráveis a diferentes tipos de fraudes. No setor financeiro, os clientes podem acabar sendo expostos a diversas formas de golpes, como: extorsão, roubo, roubo de identidade, aquisição de empréstimos por criminosos em seu nome, e transferência de capital para outras contas, que acabam sendo indetectáveis em muitas ocasiões.

Phishing, smishing e typosquatting, por exemplo, são modelos de golpes que usam e-mails falsos, mensagens de texto e links direcionados para que os clientes, clicando em determinados endereços da web, compartilhem suas informações e fiquem suscetíveis aos golpes. Os recursos são mensagens chamativas em links encurtados, impossibilitando que os usuários vejam o conteúdo da URL antes de clicar.

Fraudes envolvendo cartão de crédito, ou até mesmo extorsão para que a pessoa não tenha os dados roubados, podem ser acometidas nas vítimas. A venda não autorizada de dados também está sendo encontrada na dark web, setor da internet onde não há fiscalização.

Outra prática comum é a engenharia social, que consiste na manipulação das pessoas, seja por ingenuidade ou por eventual descuido para que sejam realizados atos ilícitos como vazamento de dados, senhas ou operações fraudulentas. Um exemplo são os boletos bancários falsos, geralmente enviados em formato de contas do cotidiano como água, luz, plano de saúde, escolas e universidades. Porém, os recursos são direcionados para contas dos fraudadores.

Outro exemplo de engenharia social são os golpes realizados em redes sociais, que acontecem quando os criminosos conseguem ativar as contas dos usuários em seus próprios dispositivos, e assim manter contato com a rede de relacionamento. Os invasores assumem a identidade das vítimas e, utilizando novamente habilidades de manipulação, conseguem obter montantes financeiros das vítimas.

Reduzindo a vulnerabilidade

As práticas e tecnologias de fraude estão em constante evolução, porém algumas ações são sempre bem-vindas e evitam grande parte das situações de risco. Utilizar aplicativos oficiais das instituições e conectar-se a redes seguras são exemplos fundamentais de ações de segurança. A autenticação em duas etapas, senhas fortes, o constante monitoramento das movimentações financeiras, e o não compartilhamento de senhas, também são práticas importantes na era dos dados.

Caso ocorra a infelicidade de envolvimento em um golpe financeiro, é preciso notificar as instituições para solicitar o cancelamento das movimentações e bloqueio dos meios de pagamento). É importante registrar boletim de ocorrência para notificação do crime e realização de investigação para identificar a rede de criminosos. Para os delitos de engenharia social em redes de relacionamento, os contatos devem ser notificados e os procedimentos previstos para recuperação da conta podem ser adotados.

Para reduzir as chances de exposição e golpe, é possível checar os dados do receptor no caso de transferências e pagamento de boletos. Ao entrar em sites desconhecidos, o cliente deve buscar o símbolo do cadeado na barra de endereço - a figura representa um selo de segurança. Os links recebidos por e-mail devem ser conferidos antes do click, para confirmação de que a mensagem é confiável. Erros de ortografia nos e-mails e sites podem auxiliar nessa tarefa.

Contas online que não são mais utilizadas devem ser desativadas. O uso de antivírus e a atualização constante de softwares também são ferramentas poderosas contra os golpes.

O senso de urgência é uma das ferramentas psicológicas implementadas pelos golpistas. Portanto, mensagens chamativas, que requerem quantias monetárias, ou ações que devem ser realizadas imediatamente, devem ser analisadas com cautela redobrada.

A era da informação traz inúmeros benefícios para empresas e consumidores. Conhecer as práticas e entender as atitudes que podem contribuir para o melhor uso das ferramentas é fundamental para a preservação da própria segurança, enquanto usufruindo do melhor que o digital pode oferecer.

(*) é Head of Financial Markets na Semantix.