quinta-feira, 2 de março de 2023
O Chat GPT e os empregos
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023
A eterna (e nunca resolvida) Reforma Tributária
Reforma Tributária no
Brasil: por que é importante avançar com a discussão e entender os impactos que
ela vai trazer a todos
Maria Carolina Soares
(*)
O
sistema tributário atual tem dificultado o crescimento econômico e social do
país, principalmente se levarmos em consideração a complexidade dos cálculos de
impostos e o posterior repasse de valores aos entes federados. A Reforma
Tributária vem, neste momento, justamente para dirimir esta pluralidade de
tributos, alíquotas e formas de apuração e arrecadação dos impostos, visando a
redução da carga tributária e a efetividade no seu recolhimento e distribuição.
Um exemplo prático de como a questão dos impostos é intrincada é a liderança do
Brasil no ranking das empresas que mais levam tempo para fazer os cálculos e
pagar esses tributos. Enquanto, por aqui, se leva mais de 1.500 horas por ano
para concluir essa etapa, a média mundial é de 250 horas.
Além
disso, por aqui temos um problema que é como os impostos são aplicados. Países
com altos índices de desenvolvimento humano, como Dinamarca e França, têm carga
tributária mais elevada, porém, conseguem reverter isso em benefícios para a
população. Já em nosso país, há um desequilíbrio visível na hora de devolver as
taxas pagas pelos contribuintes, o que causa um incômodo na maior parte dos
brasileiros.
Para
que ocorra uma reforma tributária, é necessário o interesse dos parlamentares
em desenvolver e apresentar a proposta de Lei Complementar contendo as
alterações desejadas para o Código Tributário Nacional. É importante destacar
que a elaboração desse texto não é simples. Os impactos refletem em toda a
população do país, visto que, de forma indireta, quem paga os encargos
tributários embutidos nos preços dos produtos/serviços é o contribuinte final -
nesse caso, os cidadãos brasileiros. Segundo o Ministro da Fazenda, Fernando
Haddad, em 2023, serão destaques de pautas do Congresso Nacional as medidas
provisórias e a proposta de reforma tributária elaborada a partir das PECs 45 e
110.
O
que essas Propostas de Emendas Constitucionais (PECs) têm em comum é a
unificação de tributos em três níveis federativos, com um imposto seletivo com
função extrafiscal, ou seja, finalidades diversas das arrecadações. A avaliação
deve ser feita em dois momentos: o da arrecadação e o da respectiva
distribuição para os estados e municípios.
Temos
que levar em consideração o tamanho do país e sua população, principalmente no
momento da distribuição, onde é possível enxergar a contraprestação do
pagamento dos tributos em questão. Segundo um estudo do CLP (Centro de
Liderança Pública), as propostas de reforma tributária que estão no Congresso
podem reduzir o valor da carga tributária para 96% dos contribuintes, além de
elevar a renda da população.
A
estratégia do governo federal para evitar ainda mais resistência do Senado
nesta tramitação é aproveitar partes da PEC 110, que já está na Casa, e
incorporar textos da PEC 45, que seguiria sendo a base principal da reforma. Os
parlamentares podem alterá-la livremente, mas ela deve retornar aos senadores
para apreciação integral.
Vale
destacar que tanto a PEC 45 quanto a 110 visualizam um momento de transição
entre o sistema tributário atual e o que será aprovado, justamente para que o
empresário se adapte a essa nova forma de cobrança de tributos por meio de seus
sistemas de apuração, e até mesmo para a reformulação de seus preços.
Paradoxalmente, a única certeza que se tem até o momento é que, de início,
haverá um cenário de muitas incertezas para os contribuintes, até que eles se
adequem ao novo sistema tributário proposto.
(*)
é LLM em Direito Tributário pela FGV e Advogada Tributarista da RMS Advogados,
que tem como objetivo oferecer planejamento e gestão dos impostos para empresas
de todo o país.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023
O MUNDO DO TRABALHO NUM MUNDO SEM TRABALHO
O
SIGNIFICADO DA VIDA EM UM MUNDO SEM TRABALHO
Yuval
Noah Harari (*)
A
maioria dos empregos que existem hoje pode desaparecer dentro de décadas. À
medida que a inteligência artificial supera os seres humanos em tarefas cada
vez mais, ela substituirá humanos em mais e mais trabalhos. Muitas novas
profissões provavelmente aparecerão: designers do mundo virtual, por exemplo.
Mas essas profissões provavelmente exigirão mais criatividade e flexibilidade,
e não está claro se os motoristas de táxi ou agentes de seguros desempregados
de 40 anos poderão se reinventar como designers do mundo virtual (tente
imaginar um mundo virtual criado por um agente de seguros!?). E mesmo que o
ex-agente de seguros de alguma forma faça a transição para um designer de mundo
virtual, o ritmo do progresso é tal que, dentro de mais uma década, ele pode ter
que se reinventar novamente.
O
problema crucial não é criar novos empregos. O problema crucial é a criação de
novos empregos que os humanos apresentam melhor desempenho do que os
algoritmos. Consequentemente, até 2050, uma nova classe de pessoas poderá
surgir – a classe desocupada. Pessoas que não estão apenas desempregadas, mas
desempregáveis.A mesma tecnologia que torna os seres humanos inúteis também
pode tornar viável alimentar e apoiar as massas desempregadas através de algum
esquema de renda básica universal. O problema real será, então, manter as
massas ocupadas e o conteúdo. As pessoas devem se envolver em atividades
propositadas, ou ficam loucas. Então, o que a classe desocupada irá fazer o dia
todo?
Uma
resposta pode ser jogos de computador. Pessoas economicamente redundantes podem
gastar quantidades crescentes de tempo dentro dos mundos da realidade virtual
3D, o que lhes proporcionaria muito mais emoção e engajamento emocional do que
o “mundo real” externo. Isso, de fato, é uma solução muito antiga. Por milhares
de anos, bilhões de pessoas encontraram significado em jogar jogos de realidade
virtual. No passado, chamamos essas “religiões” de jogos de realidade virtual.
O
que é uma religião, se não um grande jogo de realidade virtual desempenhado por
milhões de pessoas juntas? Religiões como o Islã e o Cristianismo inventam leis
imaginárias, como “não comem carne de porco”, “repita as mesmas preces um
número determinado de vezes por dia”, “não faça sexo com alguém do seu próprio
gênero” e assim por diante. Essas leis existem apenas na imaginação humana.
Nenhuma lei natural exige a repetição de fórmulas mágicas, e nenhuma lei
natural proíbe a homossexualidade ou a ingestão de porco. Muçulmanos e cristãos
atravessam a vida tentando ganhar pontos em seu jogo de realidade virtual
favorito. Se você reza todos os dias, você obtém pontos. Se você esqueceu de
orar, você perde pontos. Se, no final da sua vida, você ganhar pontos
suficientes, depois de morrer, você vai ao próximo nível do jogo (também conhecido
como o paraíso).
Como
as religiões nos mostram, a realidade virtual não precisa ser encerrada dentro
de uma caixa isolada. Em vez disso, ele pode se sobrepor à realidade física. No
passado, isso foi feito com a imaginação humana e com livros sagrados, e no
século 21 pode ser feito com smartphones.
Algum
tempo atrás, fui com o meu sobrinho de seis anos, Matan, para caçar Pokémon.
Enquanto caminhávamos pela rua, Matan continuava a olhar para o seu telefone
inteligente, o que lhe permitia detectar Pokémon à nossa volta. Eu não vi
nenhum Pokémon, porque não carregava um smartphone. Então vimos outras duas
crianças na rua que estavam caçando o mesmo Pokémon, e quase começamos a lutar
com eles. Parecia-me como a situação era semelhante ao conflito entre judeus e
muçulmanos sobre a cidade sagrada de Jerusalém. Quando você olha a realidade
objetiva de Jerusalém, tudo que você vê são pedras e edifícios. Não há
santidade em qualquer lugar. Mas quando você olha através de smartbooks (como a
Bíblia e o Alcorão), você vê lugares sagrados e anjos em todos os lugares.
A
ideia de encontrar um significado na vida ao jogar jogos de realidade virtual
é, evidentemente, comum não apenas às religiões, mas também às ideologias
seculares e estilos de vida. O consumo também é um jogo de realidade virtual.
Você ganha pontos adquirindo carros novos, comprando marcas caras e tendo
férias no exterior, e se você tiver mais pontos do que todos os outros, dizendo
a si próprio que ganhou o jogo.
Você
pode contrariar dizendo que as pessoas realmente gostam de seus carros e
férias. Isso certamente é verdade. Mas os religiosos realmente gostam de orar e
realizar cerimônias, e meu sobrinho realmente gosta de caçar Pokémon. No final,
a ação real sempre ocorre dentro do cérebro humano. Não importa se os neurônios
são estimulados observando pixels em uma tela de computador, olhando para fora
das janelas de um resort do Caribe ou vendo o céu nos olhos da mente? Em todos
os casos, o significado que atribuímos ao que vemos é gerado pelas nossas próprias
mentes. Não é realmente “lá fora”. Para o melhor de nosso conhecimento
científico, a vida humana não tem significado. O significado da vida é sempre
uma história de ficção criada por nós humanos.
Em
seu ensaio inovador, Deep Play: Notas sobre a Briga de Galos em Bali (1973), o
antropólogo Clifford Geertz descreve como na ilha de Bali, as pessoas passaram
muito tempo e dinheiro apostando em brigas de galos. As apostas e as lutas
envolveram rituais elaborados, e os resultados tiveram um impacto substancial
na posição social, econômica e política de jogadores e espectadores.
As
brigas de galos eram tão importantes para os balineses que, quando o governo
indonésio declarou a prática ilegal, as pessoas ignoraram a lei e se arriscavam
a prisão e multas pesadas. Para os balineses, as brigas eram “jogo profundo” –
um jogo confeccionado que é investido com tanto significado que se torna
realidade. Um antropólogo balines poderia, sem dúvida, ter escrito ensaios
semelhantes sobre futebol na Argentina, Brasil ou no judaísmo em Israel.
De
fato, uma seção particularmente interessante da sociedade israelense fornece um
laboratório exclusivo de como viver uma vida satisfeita em um mundo
pós-trabalho. Em Israel, um percentual significativa de homens judeus ultra-ortodoxos
nunca trabalhou. Eles passam toda a vida estudando escrituras sagradas e
realizando rituais de religião. Eles e suas famílias não morrem de fome, em
parte porque as esposas muitas vezes trabalham, e em parte porque o governo
lhes fornece generosos subsídios. Embora geralmente vivam na pobreza, o apoio
do governo significa que eles nunca faltam para as necessidades básicas da
vida.
Isso
é uma renda básica universal em ação. Embora sejam pobres e nunca trabalhem, em
pesquisa após pesquisa, esses homens judeus ultra-ortodoxos relatam níveis mais
elevados de satisfação com a vida do que qualquer outra parte da sociedade
israelense. Nos levantamentos globais sobre a satisfação da vida, Israel está
quase sempre no topo, graças em parte ao contributo destes pensadores profundos
e desempregados.
Você
não precisa ir a Israel para ver o mundo do pós-trabalho. Se você tem em casa
um filho adolescente que gosta de jogos de computador, você pode realizar sua
própria experiência. Fornecer-lhe um subsídio mínimo de Coca-cola e pizza e, em
seguida, remover todas as demandas de trabalho e toda a supervisão dos pais. O
resultado provável é que ele permanecerá em seu quarto por dias, colado na
tela. Ele não vai fazer qualquer lição de casa ou tarefas domésticas, vai ignorar
a escola, ignorar as refeições e até mesmo ignorar os chuveiros e dormir. No
entanto, é improvável que ele sofra de tédio ou uma sensação de sem propósito.
Pelo menos não no curto prazo.
Portanto,
as realidades virtuais provavelmente serão fundamentais para fornecer
significado à classe desocupada do mundo pós-trabalho. Talvez essas realidades
virtuais sejam geradas dentro dos computadores. Talvez sejam gerados fora dos
computadores, sob a forma de novas religiões e ideologias. Talvez seja uma combinação
dos dois. As possibilidades são infinitas, e ninguém sabe com certeza que tipos
de peças profundas nos envolverão em 2050.
Em
qualquer caso, o fim do trabalho não significará necessariamente o fim do
significado, porque o significado é gerado pela imaginação em vez de pelo
trabalho. O trabalho é essencial apenas para o significado de acordo com
algumas ideologias e estilos de vida. Os escravos ingleses do século XVIII, os
judeus ultra-ortodoxos atuais e as crianças em todas as culturas e eras encontraram
muito interesse e significado na vida, mesmo sem trabalhar. As pessoas em 2050
provavelmente poderão jogar jogos mais profundos e construir mundos virtuais
mais complexos do que em qualquer momento anterior da história.
E
quanto à verdade? E a realidade? Realmente queremos viver em um mundo no qual
bilhões de pessoas estão imersas em fantasias, buscando objetivos criativos e
obedecendo leis imaginárias? Bem, goste ou não, esse é o mundo em que vivemos
há milhares de anos.
(*)
é professor na Universidade Hebraica de
Jerusalém e é autor de ‘Sapiens: Uma Breve História da Humanidade’ e ‘Homo
Deus: Uma Breve História do Amanhã’
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023
A Grande lacuna da educação financeira
Educação financeira nas escolas: impactos
socioeconômicos no Brasil
Lucas Radd (*)
O
Brasil é a 10ª economia do mundo e, apesar da posição no ranking, é um país em
que somos praticamente analfabetos funcionais em finanças pessoais. Mesmo
pessoas com alto nível de escolaridade não conhecem os produtos financeiros ou
sabem as melhores práticas para cuidar do seu dinheiro. De acordo com a
Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), o endividamento
das famílias bateu recorde em 2022, com 77,9% das pessoas se declarando
endividadas.
A
porcentagem alta nos mostra que o país não possui a base de para organizar as
suas despesas. Por isso, entendo que fortalecer essa cultura nas escolas é
fundamental para garantir um futuro com mais segurança e qualidade de vida para
todos. Afinal, os jovens e boa parte da população adulta não sabem mexer com
dinheiro.
O
apoio da escola na estruturação da consciência e planejamento financeiro
torna-se fundamental para quebrar esse ciclo de endividamento, afinal é um
problema comportamental e cultural. Além disso, ter profissionais que entendam
do tema e ensinem aos adolescentes a importância da economia, controle de
gastos e investimentos é essencial para lidar com o dinheiro de forma mais
consciente e inteligente.
É
muito comum as pessoas comprarem por impulso e a maioria não possui o
conhecimento necessário para calcular juros. Com isso, as despesas aumentam e
comprometem o orçamento familiar. Entender qual é o momento ideal para decidir
o que fazer com o dinheiro de forma responsável e segura é o ponto inicial para
essa organização.
Pessoas
estáveis financeiramente são mais propensas a aumentar seu capital, estabilizar
suas despesas e, consequentemente, alavancar o crescimento
econômico/patrimonial. Quando isso não ocorre, leva o país a lidar com
problemas sociais e coletivos, como o fechamento de empresas, demissões e
contas em atraso, além de chegar na saúde pública com pessoas adoecidas física
e mentalmente.
Posso
concluir que a falta de educação financeira para crianças, jovens e adultos é
uma das carências estruturais que mais causa consequências a curto e a longo
prazos. Somos apresentados aos conceitos básicos de coletividade desde o
nascimento, entretanto, é fundamental lembrar que o analfabetismo financeiro
não impacta apenas um indivíduo, e sim a todos. Garantir esse tipo de conhecimento
no ensino básico é estimular um futuro mais consciente.
(*) é sócio-fundador e CEO da Rufy, plataforma de
saúde financeira, destinada para pessoas e empresas, interessadas em oferecer o
sistema como benefício aos colaboradores.
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023
REFORMA TRIBUTÁRIA: O FIM DA ZONA FRANCA DE MANAUS?
Reforma tributária decretará fim da Zona Franca de Manaus
Eduardo Bonates
(*)
A
reforma tributária que está em discussão no Congresso Nacional terá como
consequência o fim da Zona Franca de Manaus (ZFM). Sem nem mesmo um artigo ou
cláusula que trate do polo amazonense, a proposta que tramita em Brasília para
unificar impostos e contribuições, na verdade, inviabilizará o modelo que levou
desenvolvimento industrial à região. Ao vetar qualquer tipo de benefício
tributário, a mudança atinge diretamente o que dá competitividade à ZFM em
relação a outros estados.
Há
uma parte da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que altera o Sistema
Tributário Nacional que mira a ZFM, ainda que sem citá-la. Na definição do
Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), que unifica outros tributos e
contribuições, existe um veto à essência do polo amazonense. “Não será objeto
de concessão de isenções, incentivos ou benefícios tributários ou financeiros,
inclusive de redução de base de cálculo ou de crédito presumido ou outorgado,
ou sob qualquer outra forma que resulte, direta ou indiretamente, em carga
tributária menor que a decorrente da aplicação das alíquotas nominais”,
conforme a proposta.
O
secretário extraordinário do Ministério da Fazenda para a Reforma Tributária, o
economista Bernard Appy, que é um dos mentores da reforma, nunca demonstrou
apreço pela isenção e crédito fiscal que atraiu muitas empresas à zona franca.
Essa visão está mantida no texto da PEC que altera o Sistema Tributário
Nacional, de autoria do presidente do MDB, deputado federal Baleia Rossi - que,
assim como Appy, é do estado de São Paulo.
A
reclamação para derrubar as vantagens competitivas da ZFM é antiga e vem de
empresas de fora de Manaus, a maioria do Sudeste do Brasil. A questão já foi
alvo de ações no Supremo Tribunal Federal (STF), sem sucesso. Começou então uma
mobilização para conseguir a mudança via reforma, por meio de uma PEC.
Mesmo
assim, é provável que essa luta contra a zona franca volte aos tribunais. O
STF, o Supremo Tribunal de Justiça (STJ) e o Tribunal Regional Federal da 1ª
Região (TRF1) decidiram diversas vezes em favor do polo amazonense, o que deu
segurança e aumentou a competitividade local. Cenário que, ao que parece, está
em processo de mudança.
No
último dia 8, o STF reviu decisões dadas como sacramentadas e enterrou três
princípios constitucionais: da segurança jurídica, do trânsito em julgado e da
retroatividade em questões relativas a benefícios tributários. Em julgamento
sobre a Contribuição Social sobre Lucro Líquido (CSLL), o órgão considerou que,
quando há uma questão tributária de relevância para a União, o interesse da
arrecadação está acima do interesse privado, inclusive para cobrança de
impostos que deixaram de ser pagos nos últimos anos. Na prática, é o fim do
direito tributário.
Nessa
mesma noite, o STJ seguiu o STF e reverteu decisão que isentava a cobrança do
Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) de produtos estrangeiros
revendidos. São dois tributos em que o entendimento jurídico era a favor do
contribuinte que se tornaram imediatamente a favor da União. O próximo passo é
o fim da ZFM.
Para
completar, o governo federal havia publicado em janeiro a Medida Provisória
(MP) 1160/2023, que restabelece o voto de qualidade no Conselho Administrativo
de Recursos Fiscais (Carf). Isso significa que em caso de empate nos votos dos
conselheiros em análises pelo órgão, o representante da União dará o voto de
Minerva. O Congresso havia incluído em 2020 um dispositivo que previa o
desempate em favor do contribuinte, em uma MP que foi sancionada pelo
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Somente
no ano passado, as decisões com igualdade de votos no Carf representaram R$ 25 bilhões em decisões a
favor do contribuinte. A estimativa neste ano é que o montante aumente para R$ 50 bilhões que, desta
vez, serão a favor das União.
Todas
essas questões mostram a face não tão clara da reforma tributária, que é
arrecadar mais. O objetivo de reduzir o tempo gasto e simplificar o pagamento
de impostos ao unificar quatro em apenas um terá o seu custo. A previsão é que
a alíquota do IBS seja maior do que a dos quatro anteriores somados.
É
nessa onda de aumento da arrecadação federal que entra o fim dos benefícios
fiscais à ZFM. É preciso que a sociedade civil se movimente e cobre os
políticos da região para que atuem na defesa do polo que trouxe desenvolvimento
e empregos na indústria, comércio e serviços ao Norte do Brasil.
(*)
é advogado especialista em Contencioso Tributário e Zona Franca de Manaus e
sócio do escritório Almeida, Barretto e Bonates Advogados.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2023
Artigo sobre paraísos fiscais
Paraísos fiscais são as
terras sagradas para diversificar o seu patrimônio
Luiz Felipe Bazzo
(*)
O
termo paraíso fiscal é utilizado para identificar aqueles países que possuem
uma tributação favorecida e condições promissoras para a incorporação de
empresas, as chamadas companhias offshores. Apesar da expressão remeter, para
algumas pessoas, a uma prática ilegal, desde que devidamente reportada às
autoridades competentes e cumpridas as normas de compliance, a constituição de
companhias nestas jurisdições é lícita, sendo uma estrutura bastante utilizada
para proporcionar resultados tributários mais vantajosos. Aqueles que optam por
esta estrutura devem realizar os reportes às autoridades competentes, não há
qualquer ilegalidade na utilização desse tipo de estrutura.
Para
Bruno Fediuk de Castro, Head of Business Development na Allshore, escritório
parceiro do transferbank, a utilização de uma companhia offshore, fundo
exclusivo ou fundação privada no exterior pode proporcionar vários benefícios
aos investidores, incluindo uma gestão financeira e patrimonial mais eficiente,
sendo bastante comum estas estruturas serem utilizadas para fins de
planejamento sucessório.
Todas
essas vantagens decorrem de alguns fatores propiciados pela categoria, como: a
exposição a moedas fortes, como o dólar e o euro, que são as mais utilizadas
nas operações, trazendo maior segurança para o negócio e liberdade no câmbio;
juros baixos se comparados com o de outros países, assegurando bons
financiamentos; proteção e privacidade nas transações; estabilidade, visto que
paraísos fiscais, normalmente, têm um cenário econômico e político melhor;
isenção ou diminuição de impostos e a facilidade organizacional por conta da
grande flexibilidade no manejo das organizações. Ainda a economia fiscal deve ser
sempre uma consequência de um projeto maior, justamente para evitar que seja
considerado um planejamento abusivo.
Quando
trazemos esses pontos para a realidade do brasileiro, há ainda players como
fintechs para facilitar as remessas internacionais para a conta da companhia
offshore no exterior. Nesse contexto de alternativas aos bancos tradicionais,
as fintechs buscam a redução da burocracia e economia, atrelado a um
atendimento especializado para quem deseja enviar recursos ao exterior. Na
jornada, basta que o investidor realize um cadastro em alguma dessas
instituições financeiras autorizadas a operar no mercado de câmbio, em seguida
apresente os documentos societários para registrar a operação. Depois, há a
cotação e o fechamento do câmbio, que, com a disponibilização dos dados
bancários da conta, já permite a efetivação dos pagamentos.
Vale
destacar que o processo é feito sob um contrato vinculado ao Banco Central
(BC), o qual faz parte do grupo de diversas organizações, conselhos e
institutos que garantem uma maior transparência, controle e fiscalização dos
veículos offshore. São mais exemplos de entidades como essas o Conselho de
Controle de Atividades Financeiras (COAF), Grupo de Ação Financeira
Internacional (GAFI) e Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico
(OCDE).
Quanto
ao respaldo para os territórios caracterizados como paraísos fiscais, é
importante atentar-se ao artigo 24 da Lei 9.430, de 27 de dezembro de 1996, o
qual considera esses locais como aqueles que tributam a renda com uma alíquota
inferior a 20%. Em 2008, também foi acrescido pela Lei 11.727, lugares em que
não se permite o acesso às informações quanto à composição societária de
pessoas jurídicas, à sua titularidade ou identificação do beneficiário efetivo
de rendimentos atribuídos a não residentes. Ao todo, a lista da Receita Federal
para esses territórios abarca mais de 60 países, sendo os mais conhecidos as
Ilhas Cayman, Ilhas Virgens Britânicas, Bahamas e Panamá.
Portanto,
ao transferir parte do capital para outra jurisdição, o investidor está
diversificando e protegendo o seu patrimônio. É uma via que escapa dos efeitos
negativos que podem atingir a moeda brasileira, gerando uma segurança
financeira que tende a perdurar por muitos anos. E, por se tratar de uma prática
completamente lícita e repleta de utilidades em potencial para o crescimento no
mercado, merece a devida atenção na tomada de decisão de como movimentar o seu
dinheiro.
(*) é CEO do transferbank, uma das principais
soluções de pagamentos e recebimentos internacionais do Brasil.
domingo, 4 de dezembro de 2022
O NOVO ROUBO É DIGITAL
Phishing: o novo roubo do
século
Sebastian
Stranieri (*)
Casos
que não têm a mesma cobertura midiática, mas que também são voltados ao sistema
acontecem diariamente, isso porque criminosos entram em contato com usuários de
instituições bancárias se passando por funcionários e por meio de perguntas
muito bem instruídas e ensaiadas, conseguem extorquir dados bancários e senhas
com o intuito de realizar empréstimos e sacar dinheiro das contas. O que surpreende
é a facilidade e a constância que esses crimes têm acontecido. Dados da
Federação Brasileira de Bancos (Febraban) mostram que o Brasil registrou um
aumento de 80% nas tentativas de ataques de phishing com intuito de roubo
financeiro só em 2021.
Por
esse e outros motivos, segundo lei do Código de Defesa do Consumidor,
independente dos dados terem sido divulgados pela pessoa, o vazamento destas
informações que deveriam ser mantidas em sigilo, tira a exclusiva
responsabilidade do cliente. Como consequência, impõe-se ao banco o dever de
ressarcir eventuais prejuízos decorrentes do phishing.
Essa
decisão me convida a refletir sobre muitas coisas. É claro que o culpado não é
a instituição e muito menos o cliente. O responsável é o cibercriminoso. Parece
óbvio, eu sei. Mas deve ser dito. Além do debate ético-filosófico e da
banalização do assunto pela mídia, que pode até promover o aumento dos crimes
cibernéticos, esforços legais também devem ser feitos para fornecer um
arcabouço jurídico que proteja as vítimas e puna os autores.
A
regulamentação e o modelo de proteção de dados pessoais como base
Cada
mercado tem seus regulamentos dentro das organizações. O Brasil tem
disponibilizado grandes esforços em segurança cibernética, especialmente no
setor bancário. Isso porque, os ataques de phishing cresceram quase 230% no
Brasil no primeiro semestre de 2022. Do meu ponto de vista, casos como o
exposto acima devem estabelecer um novo ponto de partida para a atualização da
regulamentação e para que comecemos a trabalhar para que cada elo da cadeia
seja responsável por 100% de suas ações. A partir disso, esses esforços
permitirão equilíbrio entre segurança e usabilidade para criar uma excelente
experiência de usuário daqui para frente.
Eu
sei que o sistema bancário tem ferramentas sofisticadas para evitar ataques em
massa. Também estou ciente da especialização dos criminosos até o momento.
Portanto, estou convencido de que a chave é a educação dos usuários em
segurança cibernética pelo governo, empresas e instituições de ensino.
Educação
financeira e de segurança é o segredo
A
cibersegurança pode proteger a identidade digital das pessoas e prevenir
fraudes com inovações como inteligência artificial e reconhecimento biométrico.
No entanto, apesar de já existirem diversas ferramentas contra ataques de
engenharia social, nem sempre a tecnologia é suficiente.
Nesse
sentido, para estar preparado contra os cibercriminosos, a educação digital
permanente é fundamental. Em primeiro lugar, devemos estar cientes que qualquer
um de nós é um possível alvo de um ataque de phishing. É por isso que temos que
estar sempre atentos a qualquer mensagem ou ligação suspeita, já que os
golpistas podem até fingir ser amigos ou conhecidos por meio do WhatsApp, por
exemplo. Além disso, uma das principais formas de realizar um golpe é através
das redes sociais, é por meio delas que reclamamos de produtos e serviços, além
de postar informações pessoais de importância, o que as torna alvos tão
importantes.
É
necessário prestar atenção aos detalhes. Por exemplo, não clicar em links ou
baixar anexos que chegam por e-mail, redes sociais ou serviços de mensagens de
remetentes desconhecidos. Se receber uma ligação de alguém dizendo ser do banco
ou de alguma instituição, fique atento! Os bancos nunca solicitarão dados
confidenciais por esses meios. Portanto, em caso de dúvida, entre em contato
com o atendimento ao cliente antes de responder a qualquer comunicação digital.
Outra
ferramenta essencial, implementada anos atrás pelos bancos, é o múltiplo fator
de autenticação, que inclui não só o envio de tokens e OTPs, mas também
validações biométricas de reconhecimento facial. Para robustecer a segurança
também são implementadas tecnologias de prevenção à fraude, que identificam
comportamentos anômalos para aquele usuário específico como localidade e/ou
dispositivos distintos àquele que o usuário costuma utilizar. Se você não o
possui, deve ativá-lo e nunca compartilhá-lo, para que ninguém possa acessar
sua conta de outro dispositivo. E, por fim, tenha sempre o sistema operacional
atualizado, tanto no computador quanto no celular.
Essas
recomendações podem nos ajudar a enfrentar os perigos do mundo digital, onde,
por exemplo, a Microsoft bloqueou no ano passado mais de 35,7 bilhões de
ataques de phishing e outros e-mails maliciosos enviados por criminosos. No
entanto, para reduzir o cibercrime, devemos colocar o foco da justiça nos
criminosos, os verdadeiros vilões dessa história.
(*) É fundador e CEO da
VU, especialista em cibersegurança.






