sexta-feira, 5 de maio de 2023

O Chat GPT na gestão financeira?

 


ChatGPT: Uma nova era na gestão financeira pessoal

por Bruno Loiola, cofundador e CGO da Pluggy


Este artigo não foi escrito pelo ChatGPT, mas com certeza o futuro da gestão financeira vai ser.

Antes de falarmos sobre isso, vamos dar um passo para trás e voltar a 2016, com a criação da BIA, inteligência artificial do Bradesco, uma iniciativa do banco para melhorar a experiência do cliente no atendimento bancário. Desde então, a BIA tem sido aprimorada e atualizada com novas funcionalidades. Em 2020, a ferramenta realizou mais de 178 milhões de atendimentos durante o ano e foi responsável por 70% dos atendimentos realizados pelo banco em canais digitais. Entre as principais funcionalidades, estão consultas de saldo e extrato, transferências, pagamentos de contas, recarga de celular, contratação de empréstimos, investimentos e seguros. Ela também está integrada ao Next, a conta digital do Banco Bradesco, oferecendo informações em tempo real sobre gastos, receitas e investimentos. Por ser uma importante e inovadora ferramenta para atendimento bancário, por vezes foi eleita a melhor assistente virtual do mercado financeiro brasileiro, com um índice de satisfação de 84%.
Mas qual o futuro desse tipo de solução?

Embora a gestão financeira seja uma importante ferramenta que apoia a garantia de um futuro financeiro seguro e estável, percebe-se um gap em seu oferecimento na prática. Isso porque trata-se de uma tarefa desafiadora, principalmente olhando para dados de educação financeira no Brasil: em pesquisa para Leve, 52% dos entrevistados não possuem ou não sabem como montar um planejamento financeiro para os próximos anos.

É aqui que entra minha aposta para o futuro: o ChatGPT.
Segundo o próprio Chat: Ele “pode ser usado para ajudar nas finanças pessoais, permitindo que as pessoas gerenciem suas finanças de forma mais eficiente”. Mas como? Acredito que ao lado de outra inovação financeira importante: O Open Finance. Imagine conectar suas contas de diferentes instituições financeiras ao ChatGPT, podendo contar com um assistente financeiro pessoal, gerenciando seu orçamento mensal, oferecendo conselhos importantes para ajustes em seus gastos de modo a economizar, otimizando metas financeiras, analisando seus investimentos e até gerando relatórios financeiros detalhados.

Finalmente poderemos utilizar a inteligência virtual para responder perguntas como: “Posso sair pra jantar hoje?”

Com respostas do tipo:
1) É melhor você preparar algo em casa já que seu orçamento para comidas fora de casa já foi ultrapassado esse mês!

2) Parece uma ótima ideia! Mas limite-se a R80, pois isso pode comprometer o pagamento do seu cartão de crédito no dia 20.

3) Vai fundo! Recalibrei suas finanças para que você consiga jantar tranquilo. Divirta-se!

O ChatGPT abre possibilidades imensas sobre o futuro e faz com que as soluções que temos atualmente pareçam pré-históricas. Esse é o futuro em que eu aposto. E estamos mais próximos dele do que imaginamos.

Ilustração: Bastidores. 



 

domingo, 30 de abril de 2023

Primeiro de Maio - o Dia da Inteligência Artificial

 


José Eduardo Gibello Pastore (* )

Claudia Patah (** )

O mundo está mudando, as relações de trabalho estão mudando. O que será de nós?

Temos hoje robôs que fazem o trabalho do homem e Inteligência Artificial que pensa por ele.

As máquinas e os robôs vão tirar nossos empregos? O que será de nós, humanos, se máquinas cada vez mais fizerem e pensarem por nós? Em que nos transformaremos: em seres felizes, mas tristes? Felizes por que máquinas farão o que não queremos mais fazer e tristes porque não teremos mais o que fazer? Se o trabalho dignifica, está profundamente atrelado a um propósito e identifica o ser humano consigo e com outrem, o que seremos sem o trabalho?

Como será o mundo agora que a Inteligência Artificial veio para ficar, mas que tanto nos atormenta? Sim, porque admiramos essa coisa toda, mas, ao mesmo tempo, a tememos.

Eu, por exemplo, quando vejo a Inteligência Artificial escrevendo um poema de amor para mim, porque outro dia lhe pedi que fizesse isso, fico pensando no futuro dos poetas. O que será das cartas de amor, dos romances, das lindas histórias cheias de alma que nos contam os escritores por meio de suas palavras? Será que no futuro vamos amar um poeta virtual, que nem coração tem?

Qual será o futuro dos professores se a Inteligência Artificial vai nos ensinar tudo? Como será o relacionamento tão importante entre os alunos e seus mestres na sala de aula? Admiraremos uma máquina como nosso educador? É A Inteligência Artificial que vai nos dar nota e nos avaliar? Ela poderá, por exemplo, nos reprovar? O que será dos alunos e dos professores? Aliás, o que será da escola? Eu é que não ia querer receber um abraço e um aperto de mão de um robô no dia da minha formatura, tampouco lhe render homenagem. Será que este será o futuro?

O que faremos com tanta tecnologia, que nos liberta e nos escraviza? Este é o paradoxo do século XXI, penso eu. Estamos nos transformando em escravos virtuais?

E notem a dimensão da tecnologia. Outro dia assisti a uma palestra de um sujeito que acessou os dados da empresa de uma pessoa por meio da luz queimada da sua varanda. Explico: com um celular e em frente à porta de seu vizinho, o sujeito “entrou” nos filamentos da luz queimada da varanda do vizinho, e da luz queimada entrou em todos os seus equipamentos eletrônicos, geladeira, TV, secadora, máquina de lavar, inclusive seu computador, onde estavam armazenados todos os dados da sua empresa, como faturamento, despesas e custos.

Este é só um exemplo daquilo que as tecnologias permitem fazer. Esse cara é o que se denomina “hacker do bem”. Ele fez tudo isso para mostrar o quanto estamos vulneráveis por conta das tecnologias. Que fique claro aqui que não as abomino; pelo contrário, apenas estou relatando esse admirável mundo novo em que vivemos.

Voltando à questão do trabalho e à Inteligência Artificial, a coisa é tão assustadora que já há um movimento para que as pesquisas em Inteligência Artificial não sejam executadas com tanta velocidade. O motivo? O medo de a Inteligência Artificial, por conta de sua autonomia de pensar e decidir, se tornar incontrolável.

Com seu impacto no mundo do trabalho, quem fará o trabalho de quem? Por certo, a Inteligência Artificial está seduzindo e ameaçando o ser humano. O que assusta são os empregos que ela está destruindo. O que nos preocupa são os lugares que ela ocupará. Se as tecnologias, por um lado, nos libertaram e possibilitaram que chegássemos até aqui vivos, são elas também que nos assombram, e a Inteligência Artificial é o exemplo máximo disso. O mundo do trabalho está mudando, e tudo está acontecendo de uma maneira tão rápida que não conseguimos acompanhar, apenas estranhar e aceitar; afinal, não há como parar o progresso.

Neste primeiro de maio comemoraremos o Dia do Trabalho. E, pela primeira vez, imagino um robô, todo feliz da vida, com bandeira em punho, comemorando o Dia do Trabalho.

 (*) é advogado, consultor de relações trabalhistas e sócio do Pastore Advogados.

(**) é advogada trabalhista sócia de Patah e Marcondes Sociedade de Advogado.

Ilustração: UNIJUI. 

quarta-feira, 26 de abril de 2023

Um artigo sobre o futuro do trabalho

 Revolução da IA: ChatGPT e o futuro do trabalho

Victor de Almeida Moreira*

A história da humanidade é marcada por revoluções, momentos em que um evento, uma invenção ou um movimento popular causam uma mudança de rota na sociedade que nos leva a uma nova dinâmica de existência, como a Revolução Industrial.

Atualmente, com o avanço e disseminação da tecnologia do ChatGPT e outras inteligências artificiais (IA) semelhantes, tenho convicção de estarmos passando por um destes momentos revolucionários.

O ChatGPT é uma IA baseada em um modelo avançado de linguagem capaz de entender, aprender e gerar textos em diversos idiomas, produzir trabalhos de alta qualidade em poucos segundos. Esta tecnologia pode desenvolver documentos, escrever artigos, elaborar estruturas de trabalho, checklists de atividades, otimizações de processos e muito mais. As possibilidades de uso são incontáveis e muito de seu potencial ainda é inexplorado.

Na minha opinião, ela é exatamente o tipo de tecnologia que nos dá a oportunidade de mudar a dinâmica de trabalho como conhecemos atualmente. Veja!

Com a Revolução Agrícola, nós, homo sapiens, deixamos de ser caçadores-coletores para nos tornarmos agricultores. Desde então, a correlação entre produção e tempo de trabalho era direta e linearmente proporcional. Ou seja, quanto mais queríamos produzir, mais tempo precisávamos trabalhar. Com a Revolução Industrial e diversas evoluções tecnológicas, ao longo dos anos essa ligação entre produção e tempo de trabalho foi se dissolvendo.

Hoje, com tecnologias de inteligência artificial, a quebra desta correlação nunca esteve tão evidente. Vivemos em um novo mundo no qual os meios de produção se tornaram tão eficientes que pode-se produzir cada vez mais com menos tempo de trabalho humano.

Considerando que entre 50% e 80% do nosso tempo é gasto com comunicação, a criação de uma tecnologia (ChatGPT) que tem a capacidade de otimizar essa comunicação por meio de um modelo de aprendizado e aprimoramento constante tem o potencial de elevar nossa produtividade a patamares nunca antes atingidos.

Algumas empresas já utilizam o ChatGPT em sistemas de atendimento ao cliente, gerenciamento de agendas, processamento de dados e automação de processos, tornando as atividades mais eficientes e ágeis. Isso quer dizer que a IA já é uma realidade e que diversas empresas estão economizando tempo e recursos graças a inteligências artificiais. Isso possibilita que os funcionários se concentrem em atividades mais estratégicas e de maior valor agregado.

Mas, é apenas o início, e as possibilidades a serem exploradas são inúmeras. É por isso que, como disse o especialista em inovação Walter Longo em uma de suas palestras, acredito que “no futuro, as pessoas serão pagas para estudar e aprender, e não para trabalhar”.

(*) Victor de Almeida Moreira é engenheiro de produção,com MBA em Engenharia de Custos, e autor do livro (Auto)liderança Antifrágil, publicado pela Editora Gente.


terça-feira, 11 de abril de 2023

A evolução da Inteligência Artificial e suas aplicações para 2024

Claudio Pinheiro (*)

A inteligência artificial deixou de ser uso apenas de cientistas e agora está disponível para todos nas mais variadas maneiras, de máquinas de lavar a computadores quânticos. Quase tudo o que conhecemos tem um pouquinho do tempero da IA e do que ela proporciona para as pessoas, governos e empresas. Segundo o IDC, os gastos com inteligência artificial devem subir dos US 50.1 bilhões registrados em 2020 para mais de US 110 bilhões em 2024. Fator que é reforçado pela inerente tendência de converter os imensos volumes de dados que estamos criando em informação e conhecimentos úteis para nossas vidas e negócios.

A inteligência artificial replica a forma como os seres humanos trabalham. Naturalmente realizamos as tarefas analíticas, como a de sumarização de dados ao contarmos de forma resumida uma experiência ou situação ocorrida. Por exemplo, quando falamos sobre um jogo de futebol que assistimos, logo comentamos os resultados da partida, se os times jogaram bem, os melhores lances etc. Quando pensamos em replicar isto analiticamente, utilizamos técnicas como análise descritiva, com métricas como média, valores máximos, mínimos e até outliers (valores fora do padrão). Voltando ao exemplo do futebol, consideramos o placar do jogo e estatísticas como posse de bola, quantidade de faltas, número de chutes ao gol. Ou seja, replicando os fatos ocorridos em termos agregadores de dados. Existem outras tarefas analíticas que executamos naturalmente, tais como segmentação, classificação, previsão, recomendação e estimação, no momento em que percebemos diferentes grupos ou modalidades de clientes. Entendemos em que classe eles se encaixam, realizamos previsões de vendas, criamos campanhas de recomendação de produtos e estimamos os impactos de nossos investimentos nos resultados das organizações.

As técnicas estatísticas e os algoritmos de aprendizado de máquina são os principais instrumentos utilizados pela IA; eles replicam nossa forma de analisar os dados potencializada pelo poder de processamento computacional da nuvem.  Existem alguns tipos de abordagens lógicas que geralmente são utilizadas para desenvolver os modelos preditivos e criar soluções, como a Supervisionada, a Não-Supervisionada e a de Aprendizagem por Reforço. Cada uma delas permite analisar e explorar os conteúdos presentes nas bases de dados de forma a obtermos conhecimento e aplicações práticas.

A abordagem Supervisionada, por exemplo, permite criar modelos que aprendem com as situações passadas, focando em uma determinada variável-alvo e que permitem criar estimativas a partir de variados cenários de dados, nos dizendo, por exemplo, o impacto da variação cambial na inflação de um país ou o impacto nos preços de um produto a partir da variação dos insumos.

Já a abordagem de análise Não-Supervisionada avalia como os dados estão estruturados, seja em uma visão de clientes ou de suas características, e extrai padrões permitindo detectar agrupamentos de características ou de pessoas com gostos similares.

Por fim, a abordagem de Aprendizagem por Reforço traz soluções de desafios a partir de experimentações, de tentativas de erro e acertos devidamente orquestradas. Isso possibilita encontrar a solução de um problema complexo, utilizando, entretanto, um considerável poder computacional para chegar nas respostas.

Em 2024, teremos cada vez mais empresas avançando no uso de IA sendo as principais aplicações definidas como:

Aplicações de IA para Health: desde aplicações com modelos de análise de tempo de fila, suporte a diagnóstico a partir de análise de imagens e análise de prontuários eletrônicos. Sendo a mais notória a demanda de análise de dados de gadgets, tais como relógios digitais, celulares e pulseiras digitais que capturam dados de movimentação, práticas esportivas, batimentos cardíacos, pressão arterial e atividades físicas, o que acaba impactando em valores de apólices de seguro e de planos de saúde.

Aplicações de IA para Business: o uso de IA para análise de dados operacionais com modelos preditivos que apoiam a tomada de decisão. Nesse cenário, é crescente o uso dos modelos desde a área de marketing, vendas, operações e financeira, com foco em modelos preditivos de demanda, otimização de atendimento de cliente com processamento de dados não-estruturados (mensagens textuais ou áudios), gestão de talentos com modelos preditivos para otimizar performance de pessoal e de times, modelos para detecção de atrito de clientes e de colaboradores. Os novos aplicativos e serviços de BI como Tableau, QuickSights e PowerBI possuem recursos de inteligência que oferecem - de acordo com uma pergunta de negócios - quais seriam as melhores respostas baseadas em dados.

As aplicações de IA para análise de fraudes e detecção de fake news surgem como grandes tendências, em meio ao crescente uso de canais eletrônicos e redes sociais para rápida propagação deste tipo de conteúdo, aos modelos de IA que realizam uma análise prévia do conteúdo permitindo criar faixas de risco e implementar ações de inibição de exibição ou propagação. Aplicativos como WhatsApp, Facebook e Instagram têm cada dia mais modelos integrados em suas operações. 

Agentes de atendimento inteligentes com reconhecimento biométrico: sem dúvida, uma das grandes tendências, evoluindo dos devices de fechaduras digitais, leitores de digital presentes desde celulares, computadores, catracas de ônibus até portas de residências e recepções de edifícios para uma IA que interage com o cliente a ponto criar uma malha de segurança e de interação mais robusta.

Aplicações de IA para inovação: algoritmos para análise de bases de dados não-estruturados para identificação de elementos, com foco em desenhos de sistemas autônomos e assistentes inteligentes como o ChatGPT, da OpenAI (ChatGPT: Optimizing Language Models for Dialogue) que além de responder questões, realiza tarefas até de geração de programas de forma muito eficiente.

Colocando no contexto do nosso cotidiano, a tecnologia está mais presente do que nunca. Um aplicativo que foi amplamente utilizado final do ano passado, o Lensa, tem repercutido bastante devido à criação de imagens por meio da inteligência artificial, e o resultado são imagens únicas, utilizando diversos traços de desenhos.

Outro exemplo é o uso de assistente de voz que, integrado com a residência, consegue automatizar tudo só com o comando da fala. Além disso, também podemos conferir em serviços de streaming, que utilizam algoritmos de aprendizado para oferecer conteúdo específicos aos consumidores.

Estimativas de instituições financeiras apontam um aumento do PIB (Produto Interno Bruto) para o próximo ano e o mercado financeiro estima uma expansão para os anos seguintes. Esse crescimento permeia uma aplicação amplificada da inteligência artificial, principalmente para ofertar produtos baseados em cada perfil de consumidor, que pode gerar personalização de produtos e serviços. A Inteligência Artificial já é realidade, é questão só de entender e se acostumar com todas as facilidades que nos proporcionam.

(*) Chief Data Officer da GFT Brasil.


Um artigo sobre o Real Digital

  


O papel do Real Digital na agenda de inovação

Jonatas Leandro*

 

O Banco Central (BC) tem feito, desde 2020, estudos para a criação do Real Digital. Esta será a primeira moeda virtual oficial do Brasil e que não deve ser confundido com criptomoeda, sendo sim uma representação da moeda soberana. O uso será mais transparente e trará a possibilidade de o cliente utilizar serviços de sua instituição financeira, porém com opções de atuar junto a um ecossistema do próprio Banco Central.

A virtualização da moeda, que entrou em fase de testes no início de março, tem como caminho melhorar significativamente o comportamento dos agentes financeiros, os quais devem observar alterações dos perfis dos consumidores a partir do momento que tivermos plena funcionalidade, estimado para o final de 2024. E, neste momento, o BC tem acompanhado o uso da moeda digital focado em alguns temas centrais: entrega de pagamento (voltado à liquidação de transações com ativos digitais tanto nativos do ambiente digital quanto tokenizados); pagamento contra pagamento (para câmbio entre moedas); IoT (direcionado à liquidação algorítmica ou diretamente entre máquinas); e finanças descentralizadas (definição de protocolos com liquidação baseado em uma CBDC e tendo em vista requisitos de compliance e supervisão estabelecidos em norma).

Pensando em uma visão a longo prazo da moeda digital, teremos um ecossistema de finanças descentralizadas, divididas em camadas:

  • Agregação, com princípios alinhados ao Open Finance;Aplicação, em que as instituições autorizadas pelo BCB desenvolverão serviços que atendam ao mercado, mas garantindo atomicidade nas operações;
  • Protocolos de negociação, nos quais se definem os padrões de cada modelo de negócio (ex.: Gestão de Ativos, Empréstimos, Derivativos);
  • No registro de ativos são estabelecidos padrões para a emissão de tokens 
  • e representação de instrumentos financeiros. Nesta camada, se ancoram as operações entre os tokens  dos depósitos à vista e moeda eletrônica, fornecendo os mecanismos de liquidação  atômica dos ativos.

E aí, entra um ponto muito importante para a plataforma do Real Digital: as camadas de transição. 

A primeira, muito importante, é a da infraestrutura. Tanto a internet como as tecnologias estão passando por processos de melhoramentos contínuos. Com a implementação do Real Digital, vemos mais um passo sendo dado a caminho da digitalização econômica no país. A chegada do 5G vai alavancar ainda mais todos os processos tecnológicos, com ajuda também da Web 3.0, que fornece muito mais suporte aos criptoativos e moedas digitais, com rastreabilidade, por exemplo. A partir do momento que tivermos uma informação emitida, não será possível alterar, o que agrega ainda mais aos serviços.

Entretanto, pode parecer simples atualizar sistemas para comportar esses novos serviços financeiros e, dito isso, é preciso ter certa cautela. Devemos identificar como será toda a transição e observar o lado do pagador e recebedor. É a famosa disrupção! É ofertar tecnologias que possam impactar positivamente nos negócios e serem acessíveis, além de facilitadoras, ao usuário.

Já a segunda camada, vejo o comportamento como destaque. Hoje temos o usuário como parte estratégica dos negócios empresariais. A pandemia acelerou muito a questão da digitalização e personalização de produtos, além de serviços. Só que o mercado financeiro vai ter que acompanhar de perto esse movimento, pois teremos uma transformação em commodities. As informações relevantes vindas dessas novas transações, poderão ser convertidas em produtos futuramente, algo extremamente valioso.

O empoderamento do consumidor será uma das métricas essenciais para as estratégias que seguirão anos à frente.

O Real Digital, mesmo que ainda não seja ofertado para toda a população brasileira, tem um fator muito importante para o Banco Central, sendo o de estimular ainda mais nossa competitividade e ser inovador ao mesmo tempo. Já provamos em outros anos que somos capazes disso e agora teremos mais outro passo importante.

 

(*)é VP de Inovação da GFT Brasil


segunda-feira, 6 de março de 2023

Uma Análise da Conjunta Econômica para 2023

 


Cenário macroeconômico de 2022 e perspectivas para 2023

Felipe Chimenti (*)

A economia brasileira apresentou, ao longo de 2022, um desempenho positivo em meio a um ambiente macropolítico global desafiador. A continuidade da reabertura econômica global pós-pandemia, as discussões e tensões geopolíticas no Leste Europeu e na Ásia, a resiliência da inflação de serviços, o ciclo de aperto monetário dos Bancos Centrais, o avanço do processo de desinflação no ambiente doméstico, o avanço do processo de desglobalização (e reshoring) e as incertezas com relação à economia chinesa, são exemplos de fatos relevantes visualizados em economias emergentes e avançadas. Na economia local, a atividade (PIB) surpreendeu. Enquanto as projeções de crescimento da pesquisa Focus, no início de 2022, apontavam para a mediana de +0,7%, o consenso moveu-se ao longo do ano e encerrou com uma expectativa de +3,0%. Entre os motivadores para as revisões altistas, destacam-se: (i) a continuidade do processo de reabertura econômica, impulsionado pelo setor de serviços; (ii) transferências de renda do governo às famílias, gatilho para o aumento do consumo interno; (iii) mercado de trabalho positivo, com redução da taxa de desemprego para patamar historicamente baixo (+8,1%, em novembro). O Índice de Atividade Econômica (IBC-Br), divulgado pelo Banco Central, alcançou +2,90%, ao final de 2022.

Apesar da recuperação econômica, os choques de oferta nas cadeias de suprimentos em meio à recuperação sincronizada da demanda nos países ocidentais pós-Covid e o início dos conflitos no leste europeu, produziram pressões inflacionárias disseminadas. No Brasil, após alcançar 12,1% em abril, a inflação encerrou o ano passado em 5,8%, onde a principal influência positiva foi a redução na tributação de ICMS sobre bens e serviços essenciais, com destaque aos combustíveis. Na Europa, Inglaterra e Estados Unidos, a inflação encerrou o ano passado, respectivamente, em 9,2%, 10,5% e 6,5%. Por outro lado, a inflação na China (e em um conjunto de países asiáticos) foi bastante menor: 2,1% na China, 5,5% na Indonésia e 3,8% na Malásia, por exemplo.

Em resposta aos choques de oferta e demanda, o Banco Central do Brasil (BCB) elevou a taxa Selic para 13,75% e encerrou o ano com uma taxa de juro real ex-ante de 8%, patamar bastante contracionista. As defasagens com que opera a política monetária são elevadas e, estima-se, que o processo de aumento de juros pela autoridade monetária terá seu efeito sobre a economia real neste ano, principalmente no 1º semestre de 2023. Porém, vale ressaltar, que o eficiente combate à inflação é composto pela política monetária e, também, por uma política fiscal adequada.

Assim, o déficit fiscal de R 231,5 bilhões (estimado no orçamento da União para 2023) e os sinais de ampliação de gastos públicos pelo novo governo preocupam, destacando-se a expansão fiscal aprovada na PEC da Transição, que amplia os gastos públicos em mais de R 145,0 bilhões fora da regra de responsabilidade fiscal vigente, o reajuste do salário-mínimo para R 1.320 e a isenção do IRPF para indivíduos com renda de até R 2.640 por mês.

O plano fiscal apresentado pelo Ministério da Fazenda, apesar de ir na direção correta, é insuficiente para reequilibrar as contas públicas e dar previsibilidade para a trajetória fiscal. Os agentes econômicos aguardam um novo arcabouço fiscal a ser apresentado até o fim de março, substituindo a regra fiscal corrente, praticamente extinta com o anúncio da PEC da Transição. Sem entrar em detalhes, o consenso do mercado é de um pacote fiscal com poucas medidas factíveis, destacando-se o aumento da tributação sobre combustíveis e receitas financeiras estimado em R 28,8 bilhões e a revisão da base de cálculo das restituições de créditos tributários decorrentes da retirada do ICMS da base de cálculo do PIS e Cofins estimado em R 30,0 bilhões. As demais medidas anunciadas apresentam dúvidas em termos de viabilidade, além de serem pontuais para o ano corrente. Desta forma, aguarda-se um plano fiscal robusto, com a presença de medidas estruturais do lado das despesas, criando condições para o processo de desinflação, início do ciclo de redução da taxa básica de juros e evolução sustentável da dívida pública.

Em meios aos desafios citados acima, os ruídos do novo governo com relação à autonomia operacional do Banco Central e à meta de inflação ampliam a percepção de risco dos agentes econômicos, o que estimula a desvalorização cambial, o avanço da inflação e suas expectativas e abertura da curva de juros futuro, variáveis importantes na precificação de ativos locais. Apesar da ausência de comunicação do Conselho Monetário Nacional (CMN), as expectativas de inflação para o horizonte relevante de política monetária já demonstram desancoragem, ampliando os desafios da política monetária no combate à inflação. O consenso de mercado é de que o processo de aumento do centro da meta de inflação, com o objetivo de reduzir a taxa referencial de juros, em meio a um contexto de ampliação de gastos públicos, torna-se ineficaz. Uma eventual mudança, caso tecnicamente discutida, deve ser moderada e conduzida em meio a um quadro de equilíbrio fiscal, ou seja, a partir de regras factíveis e críveis de responsabilidade fiscal com as contas públicas.

Nos Estados Unidos, o Federal Reserve elevou a taxa referencial de juros (FFR) para o intervalo de 4,50% e 4,75% em sua última reunião, em linha com o movimento dos principais bancos centrais globais, o que tende a induzir uma recessão global sincronizada nos próximos trimestres.

Após alcançar 9,1% em junho, a inflação aos consumidores nos Estados Unidos encerrou o ano em 6,5%, patamar elevado devido a resiliência da inflação de serviços e de suas características inerciais, a partir de um mercado de trabalho que segue apertado. Jerome Powell sinalizou que o Federal Reserve ainda tem muitos desafios para convergir a inflação para a meta de 2%. Em linha, os membros do Comitê de Política Monetária (FOMC) reforçam que o risco de errar para menos, subindo menos os juros referenciais, seria negativo para o equilíbrio econômico de médio prazo da economia, sinalizando uma preferência por errar para mais (ou seja, maior aperto monetário). Todo esse contexto foi reforçado, recentemente, por dados macroeconômicos resilientes, destacando-se: (a) criação de 517 mil vagas de trabalho, em janeiro, acima do consenso de mercado de 185 mil vagas para o período; (b) inflação ao produtor (PPI) com aceleração de 0,7% na variação mensal de janeiro; (c) núcleo do CPI de janeiro permanecendo pressionado, incompatível com patamar de juros nominal.

Neste cenário de política monetária contracionista e resiliência de dados, parte do mercado acredita que a recessão na economia americana será maior que o cenário estimado inicialmente ou o próprio soft landing (difícil em termos de execução pelo Federal Reserve). Na medida em que a autoridade monetária caminhar para o encerrar o ciclo de alta de juros, a calibragem dos próximos aumentos e da taxa terminal será condicional a força (ou fraqueza) dos dados macroeconômicos de alta frequência (ou seja, data dependence), como a inflação, atividade econômica e mercado de trabalho. Importante reforçar que, a convergência da inflação corrente para a meta de 2% exigirá um crescimento econômico (PIB) menor que o produto agregado potencial da economia norte americana por certo período. Segundo projeções, o PIB americano encontra-se em 1,4% e 1,0% para 2023 e 2024, respectivamente.

A economia chinesa, após 8 trimestres de uma rígida restrição de mobilidade, decidiu iniciar o processo de reabertura da economia, com atenção à aceleração da vacinação, principalmente da população mais idosa. Após tanto tempo fechada, a recuperação da mobilidade trará um relevante crescimento econômico, em especial do varejo interno e serviços, fechados de forma total ou parcial nos últimos 24 meses. A poupança forçada no período em que a economia estava fechada deve ser consumida, sustentando a demanda das famílias durante o processo de reabertura, movimento muito semelhante ao que ocorreu nos países ocidentais pós-Covid. O estouro recente da bolha imobiliária e a tentativa do governo em estabilizar o setor, devem limitar o otimismo com relação às commodities em geral. Em adição ao desafio de ajustar o setor de real estate (e os balanços das empresas privadas), destaca-se a recente piora demográfica na economia chinesa, o que deve prejudicar o crescimento econômico de médio e longo prazo no gigante asiático.

A economia brasileira, em consequência da desaceleração da atividade global, da retomada da economia chinesa e do juro real local ex-ante contracionista para convergir a inflação para o intervalo de metas de inflação, deve desacelerar neste ano: a última pesquisa Focus indica crescimento (mediana) de 0,76% da atividade econômica para 2023. Os desafios macroeconômicos são ampliados a partir da necessidade de endereçar o quadro fiscal, mais especificamente o novo arcabouço fiscal, e reformas estruturais necessárias, como a tributária e administrativa. Os ruídos políticos ampliam a percepção de riscos pelos agentes econômicos e proporcionam um esforço maior ao Banco Central do Brasil para ancoragem de expectativas de inflação (controle da inflação), prejudicando o nosso equilíbrio macroeconômico, incluindo o frágil quadro fiscal corrente. O cenário externo mais desafiador e a desaceleração da atividade contratada para este ano indicam que a gestão eficaz da política econômica será fundamental para a determinação do produto agregado (PIB), inflação, contas públicas, taxa básica de juros e evolução da dívida pública, em 2023, e nos próximos anos.

(*) É membro do Núcleo de Estudos de Conjuntura Econômica (NECON) da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP).

quinta-feira, 2 de março de 2023

O Chat GPT e os empregos


ChatGPT vai tomar meu emprego? 
Alex Winetzki (*) 
O novo chatbot é um popstar. 
Ele conversa, escreve, compõe e desenha. Ela 
sabe muitas coisas. E o que não sabe, inventa sem pudor, tem personalidade e, de vez em quando, dá uns chiliques, como nas conversas com o jornalista americano Kevin Roose. E com tudo isso, é natural que muita gente se pergunte: o que acontecerá se esse programa quiser o meu emprego? 
O ChatGPT é a última ferramenta em um processo de automação de funções e tarefas que não é nem um pouco novo, e talvez tenha se iniciado com a invenção da roda, mas podemos localizar na Inglaterra vitoriana o primeiro movimento de oposição ferrenha à automação. 
Foi lá que surgiu uma organização secreta, os Luditas, que usavam métodos violentos e de sabotagem para impedir a adoção de máquinas de fiação automáticas nas tecelagens inglesas, por temor que essas causassem desemprego em massa. 
O movimento dos Luditas acabou, a automação tomou conta de todas as tecelagens do mundo, e ninguém ficou sem trabalhar. Assim como produtores de cinema não ficaram sem trabalho com a chegada do VHS, radialistas com o advento da televisão, maquinistas e condutores de carruagens com a invenção do carro e do avião, datilógrafos com o aparecimento do PC, e a lista segue infinita em todas as direções. 
Mas é melhor eu ser mais preciso aqui. Quando se observa individualmente o conjunto de tarefas ligadas e uma profissão, empregos podem ser perdidos. Linotipistas não existem mais. Mas quando a observação é macroeconômica, cada nova tecnologia expande o corpo de demandas ocupacionais, e os indivíduos se readaptam a novas funções e responsabilidades. Portanto, tecnologias destroem profissões, mas criam empregos. E o ChatGPT não vai tomar o seu. 
Vou reforçar a afirmação com duas outras razões. A primeira delas: Eu trabalho com Inteligência Artificial e automação há mais de uma década, sempre buscando a mesma coisa, aumentar a produtividade de organizações, e nunca, repito, nunca, vi empregos serem perdidos em razão de automação. Nenhuma organização, de qualquer tamanho, demite bons profissionais porque suas funções foram substituídas por automação. Essas organizações automatizam processos exatamente para que bons profissionais possam se concentrar em funções mais nobres, que demandam sensibilidade e tomada de decisão. 
E quero comprovar essa afirmação com alguns números. Os Estados Unidos são - pouca gente vai argumentar contra isso - a economia mais intensamente automatizada do mundo. E na recuperação pós-Covid, o país tem hoje a menor taxa de desemprego desde 1969. De fato, não há trabalhadores para todas as vagas disponíveis, portanto, a única solução é automatizar mais. 
E não é só lá. No Brasil, a taxa de desemprego cai em trimestres sucessivos há 2 anos, e os países da OCDE fecharam o ano de 2022 com taxa média de desemprego de 4,9%, o limite do que chamamos de território de pleno emprego. 
O segundo fator é ainda mais interessante. O crescimento populacional estacionou em quase todas as locomotivas econômicas do mundo, e não há volta. China, Japão, Coréia, Espanha, Portugal, Itália e Alemanha têm taxas de natalidade negativas ou próximas de zero. 
E no Brasil, o estado do Rio Grande do Sul, que cresceu apenas 0,06% em 2021, é apenas o primeiro retrato de uma tendência irreversível de redução e envelhecimento da população. Mas a economia não vai crescer zero. A previsão para a economia global é crescer por volta de 3,5% esse ano. 
E como crescer, se não tem gente para ocupar empregos? Com o aumento de produtividade - e para incrementá-la ainda mais -, precisamos de todos os ChatGPTs e seus primos que pudermos usar. 
Mas volto a repetir. Se o volume de empregos não vai mudar, sua natureza vai. Na próxima semana, falarei do impacto do bot-matraca e IA generativa na economia criativa. Stay tuned! 
(*) É CEO da Woopi e diretor de P&D do Grupo Stefanini, referência em soluções digitais.