terça-feira, 8 de abril de 2025

Economia criativa funciona até mesmo onde o Estado falta

 


Economia criativa é resistência onde falta política pública

Por Wagner César (*)  

Em um país onde as políticas públicas frequentemente falham em transformar realidades, a criatividade tem desempenhado um papel que o Estado muitas vezes não consegue. Ela gera renda, preserva culturas e transforma comunidades. Esse movimento tem nome: a economia criativa. Crescendo silenciosamente, à margem das grandes decisões econômicas, ela é responsável por milhões de empregos e por iniciativas que realmente mudam vidas.

Em 2023, a economia criativa no Brasil empregava cerca de 7,8 milhões de pessoas, com um crescimento de 4% em relação ao ano anterior, segundo a Fundação Itaú e o Observatório Itaú Cultural, com base na PNAD Contínua do IBGE. No Espírito Santo, no segundo trimestre de 2024, aproximadamente 220 mil pessoas estavam no setor, representando 10,5% da força de trabalho do estado, com aumento em relação ao trimestre anterior e ao mesmo período de 2023. O rendimento médio dos trabalhadores criativos no estado foi de R$ 3.465,36, colocando-o em quinto lugar no ranking nacional de remuneração.

Esses dados são um reflexo claro do dinamismo da economia criativa, que, mesmo na ausência de um apoio institucional constante, tem demonstrado um crescimento notável, profissionalização e a geração de empregos de qualidade. Onde o mercado tradicional não chega, a criatividade se estabelece, preenchendo lacunas em regiões com escassez de oportunidades, estrutura e investimento, e, dessa forma, sustenta comunidades inteiras por meio do talento e da inovação.

Um exemplo marcante vem da aldeia indígena localizada em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo. Lá, os moradores encontraram na economia criativa uma alternativa real de geração de renda e de valorização cultural. Por meio de visitas guiadas, os turistas conhecem trilhas, cachoeiras, casas de reza e locais sagrados da comunidade. Também podem adquirir artesanatos feitos pelos próprios moradores. A renda que entra não só garante o sustento das famílias, como é reinvestida na aldeia, fortalecendo tradições e melhorando a qualidade de vida de todos.

A experiência da aldeia de Ubatuba não é isolada. Em todo o Brasil, existem iniciativas semelhantes. Comunidades periféricas, quilombolas, artistas de rua, pequenos produtores culturais. Todos esses agentes têm utilizado a criatividade como instrumento de resistência, empreendedorismo e transformação social. São pessoas que, mesmo esquecidas pelo poder público, seguem gerando impacto, criando soluções e movimentando a economia a partir da cultura. Outro ponto importante é o papel do turismo cultural nesse processo. Quando bem articulado, o turismo impulsionado pela criatividade pode atrair visitantes, movimentar restaurantes, pousadas, lojas e serviços locais. Isso gera um ciclo virtuoso. A renda circula, novos empregos surgem e os territórios se desenvolvem de forma mais sustentável.

Para que esse potencial seja plenamente aproveitado, é fundamental que o poder público reconheça a economia criativa como uma prioridade estratégica. É urgente investir em formação, incentivar o empreendedorismo cultural, apoiar a formalização e criar políticas públicas que valorizem os saberes locais. A criatividade não se limita à expressão artística ou ao entretenimento; ela é uma fonte concreta de desenvolvimento econômico e inclusão social. O Brasil possui um patrimônio cultural vasto e um povo incrivelmente criativo. Ignorar esse potencial é desperdiçar uma das maiores riquezas do país. A história da aldeia de Ubatuba é um exemplo claro de como é possível construir soluções reais a partir da cultura. O que falta agora é que o país compreenda de uma vez por todas que a criatividade não é um luxo, mas uma necessidade.

(*) é escritor, mercadólogo e ativista social.

quarta-feira, 5 de março de 2025

Ives Gandra comenta os equívocos do governo Lula

 


O aumento disparado nos preços dos alimentos e os equívocos do governo Lula

Creio que o Presidente Lula, que foi um presidente pragmático em seus dois primeiros mandatos, talvez por influência de sua esposa, tornou-se um presidente ideológico de extrema esquerda, neste seu terceiro mandato, cometendo, na minha avaliação de modesto advogado de província, alguns equívocos que poderão tornar o ano de 2025 um ano de pesadelos para o Brasil.

 

O primeiro dos equívocos é aquele da política econômica que teima em seguir, semelhante àquela que levou a presidente Dilma ao impeachment, de gastar o que não tem, elevando consideravelmente a dívida pública, descompassando as contas do Governo, propiciando o aumento da inflação e a dramática desvalorização do real.

 

O país entrou na ciranda inflacionária, com o estouro do teto máximo da meta de inflação em 2024, ou seja, 4,84% quando a meta, em sua tolerância máxima era de 4,50%, gerando um círculo vicioso de aumento de juros, fuga de recursos – tivemos uma das maiores saídas de dólares do país -, redução de investimentos e imprevisibilidade de possível reversão deste processo pela resistência de cortes de despesas que são feitas, em parte, sem recursos próprios.

Em 2024, os preços dos alimentos e bebidas aumentaram 7,69%, o que é superior à inflação geral do país, que foi de 4,83%. A disparada nos preços dos alimentos afetou principalmente os mais pobres, que gastam uma maior parte da sua renda com a alimentação.

 

Entramos no denominado fenômeno econômico da “dominância fiscal”, em que nem mesmo uma rígida política monetária é capaz de sustar a inflação.

 

A previsão, portanto, com esta mentalidade presidencial, a qual o Ministro Fernando Haddad não consegue alterar, é de que teremos mais fugas de capitais, resistência dos bancos estrangeiros em sugerir investimentos no país, elevação da inflação, com a possibilidade de ocorrer o triste fenômeno da estagflação, ou seja, estagnação desenvolvimentista e inflação.

 

Ronal Coase e Douglas North, dois prêmios Nobel de Economia, em seus escritos do século passado, entendiam que, sem segurança jurídica, não há possibilidade de prosperar a economia de mercado.

 

O segundo equívoco de seu governo é, portanto, trazer a Suprema Corte para apoiá-lo, já que 7 dos 11 Ministros foram indicados por seu Partido, ou seja, por ele ou a Presidente Dilma. Há um protagonismo maior do Pretório Excelso a favor do Presidente Lula, com invasões de competência do Poder Legislativo e hospedando pautas presidenciais, como de regulação das redes sociais, marco temporal, narrativas golpistas, etc, o que gera uma insegurança jurídica que intranquiliza parte considerável da população.

 

Não sem razão, como demonstraram pesquisas realizadas no início do ano, publicadas em vários jornais, a credibilidade do STF, na avaliação entre “bom” e “ótimo”, caiu de 32% para 12% na opinião pública. Isto representa que 88% do povo brasileiro não considera a Corte nem ótima, nem boa, razão pela qual se compreende porque, pela primeira vez, seus Ministros são obrigados a sair à rua com muitos seguranças.

 

Lembro-me, nos 43 anos de Simpósios de Direito Tributário que coordenei no Centro de Extensão Universitária, que saia com Ministros como Moreira Alves, Oscar Corrêa, Carlos Mário Velloso, Cezar Peluso sem necessidade de qualquer segurança, muitas vezes levando-os em meu carro às suas residências ou hotéis sem acompanhamento de ninguém.

 

Mais do que isto. Nos restaurantes todos que os viam diziam com admiração e reverência “Lá vem um Ministro do STF”. É que, à época, nem legislavam, nem interferiam na administração pública, sendo tão somente juízes encarregados de administrar a justiça, no máximo como legisladores negativos, dizendo se uma lei era ou não inconstitucional, mas não legislando, até porque a Constituição os proíbe de fazê-lo por força dos artigos 49, inciso XI e 103, §2º.

 

À evidência, minhas divergências doutrinárias com os eminentes Ministros do STF não mudam minha admiração pelos seus méritos de grandes juristas e de idoneidade moral inquestionável. Sou apenas um professor universitário de província, mas como cidadão com o direito de expor minha inteligência sobre a Constituição e sobre o Direito, num país em que a liberdade de Cátedra continua ainda sendo permitida.

 

O terceiro equívoco, a meu ver, que dificultará o crescimento do país reside em não pretender seguir seu discurso de posse de pacificação nacional, mas, ao contrário, continuar com narrativas conflitivas, mantendo o clima “Eu contra eles” e não “Nós pelo Brasil”.

 

 

Como antigo professor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército por 33 anos e emérito - título outorgado ainda em 1994 -, disse durante todo o segundo semestre de 2022 que o risco de golpe de Estado era zero, multiplicado por zero, dividido por zero, somado a zero. É que o curso onde lecionei desde 1990, foi criado em 1989 para aqueles coronéis dentre os quais seriam escolhidos os generais ao fim de cada ano, para que fossem, todos eles, escravos da Constituição.

 

Sabia, portanto, que nunca, nunca dariam um golpe de Estado. À evidência, 8 de janeiro foi uma baderna em que um grupo desarmando e sem líderes jamais poderia dar um golpe de Estado. Nunca houve, na história do mundo, um golpe de Estado sem armas e sem Forças Armadas.

 

Foi semelhante à baderna que o PT e o MST fizeram no Governo Temer, invadindo e destruindo dependências do Congresso Nacional, nem o STF nem o Governo tendo-os punido como golpistas.

 

Manter a narrativa, dois anos depois, na Praça dos Três Poderes esvaziada de povo e repleta de autoridades e servidores, é não querer a pacificação, mas pretender continuar alimentando a polarização. É de se lembrar que o discurso em “defesa da democracia”, que quer dizer governo do povo, não teve povo na comemoração. A manutenção desta polarização alimentada pelo Governo,não faz bem ao Brasil.

 

O quarto e último ponto – não abordo outros pelo tamanho do artigo – diz respeito à palavra de presidentes. Um presidente deve ter a liturgia do cargo, como tiveram Fernando Henrique e Michel Temer. Cada palavra em público que diz tem reflexos na Economia, na Política e no Exterior.

 

Ora, o presidente Lula não tem cautela no que diz. Quando fala em economia criticando o mercado e os livros de economia, não pretendendo cortar gastos, nem controlar as contas públicas, afeta imediatamente o câmbio, a inflação e a confiança no país. Quando manda uma embaixadora à posse do fraudulento ditador Maduro, está avalizando uma ditadura sangrenta. Quando diz que Dilma sofreu um golpe desmoraliza seu Ministro da Justiça, que foi o presidente do procedimento de impeachment, com aprovação do Congresso Nacional e previsão constitucional. O mesmo ao declarar que o Presidente Temer não foi eleito e não poderia estar na Presidência, quando sua posse seguiu rigorosamente a Constituição.

 

E assim, outros deslizes como comparar o amor à democracia ao amor à amante e não à esposa, desmoraliza a Instituição do casamento, equiparando este amor a uma traição conjugal e, certamente, desagradando sua esposa e todas as mulheres, menos as amantes.

 

São algumas reflexões que trago, na esperança de que o Presidente Lula deixe de ser candidato ou sindicalista, quando podia dizer o que quisesse, e lembre que é o Presidente do Brasil, em razão do qual todos os brasileiros e eu desejaríamos quês seu Governo desse certo e não mostrasse sinais de problemas que poderão afetar toda a Nação em seu futuro.

 

Ives Gandra da Silva Martins é professor emérito das universidades Mackenzie, Unip, Unifieo, UniFMU, do Ciee/O Estado de São Paulo, das Escolas de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), Superior de Guerra (ESG) e da Magistratura do Tribunal Regional Federal – 1ª Região, professor honorário das Universidades Austral (Argentina), San Martin de Porres (Peru) e Vasili Goldis (Romênia), doutor honoris causa das Universidades de Craiova (Romênia) e das PUCs PR e RS, catedrático da Universidade do Minho (Portugal), presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio -SP, ex-presidente da Academia Paulista de Letras (APL) e do Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp).

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

A Reforma Tributária terá o efeito de uma pandemia na contabilidade?

 


Reforma tributária será a pandemia do setor contábil?

Assim como a crise sanitária exigiu adaptação rápida, digitalização e resiliência dos negócios, a Reforma Tributária impõe uma nova realidade para os contadores

Por Karine Manes (*)

A Reforma Tributária tem se consolidado como um dos temas centrais no debate econômico atual. As novas regras trarão mudanças estruturais significativas para o sistema tributário nacional, e prometem simplificar os processos e reduzir a burocracia ao unificar tributos. No entanto, ao mesmo tempo em que esses avanços podem representar ganhos de eficiência, também impõem desafios para empresas e profissionais da contabilidade. Mas, afinal, será que o impacto da reforma pode ser comparado à transformação que a pandemia causou em diversos setores?

Assim como a crise sanitária forçou empresas a se adaptarem rapidamente, investindo em digitalização e resiliência para sobreviver, a Reforma Tributária exige uma adaptação igualmente urgente por parte dos contadores. Aqueles que não se prepararem adequadamente podem enfrentar sérios problemas envolvendo competitividade e segurança financeira dos clientes.

A contabilidade no Brasil sempre esteve ligada ao cumprimento das obrigações fiscais e tributárias. Neste sistema – considerado um dos mais complexos do mundo – os contadores desempenham papel essencial, garantindo que as empresas se mantenham em conformidade com a legislação vigente. Agora, com a chegada da Reforma Tributária, esse cenário será reconfigurado. A substituição de tributos como PIS, Cofins, ICMS e ISS por um novo Imposto sobre Valor Agregado (IVA) exigirá uma reestruturação profunda dos processos nas empresas e nos escritórios contábeis. Atualização de sistemas, capacitação profissional e revisão de planejamentos tributários serão tarefas indispensáveis para mitigar riscos e prejuízos financeiros.

Durante a pandemia, as empresas que mais se destacaram foram aquelas que investiram em digitalização. No setor contábil, o cenário será semelhante. A adoção de novas tecnologias, como a inteligência artificial para automação de processos fiscais e a análise preditiva de impactos tributários, se tornará um diferencial estratégico. Profissionais da área também terão de investir em capacitação contínua. O domínio da nova legislação, de suas regulamentações e das possíveis brechas será indispensável para prestar um serviço de excelência e se manter competitivo no mercado.

É nesse contexto que as plataformas de gestão empresarial se tornam peças-chave. Com soluções para automação de processos contábeis e fiscais, essas ferramentas tornam a transição para o novo modelo tributário muito mais eficiente. Isso permitirá que os contadores foquem em atividades de maior valor agregado, como a consultoria estratégica, ajudando empresas a tomar decisões financeiras mais inteligentes e a otimizar sua carga tributária dentro das novas regras.

Para pequenos e médios escritórios de contabilidade, que frequentemente dependem de processos manuais e, até mesmo, tradicionais, a Reforma Tributária pode ser particularmente desafiadora. Sem a adoção de novas tecnologias e sem um modelo consultivo de atuação, esses escritórios correm o risco de perder clientes para concorrentes mais preparados.

Mas, embora a reforma represente um grande desafio, ela também abre novas oportunidades para quem souber enxergar além da obrigação fiscal. O contador do futuro será aquele que conseguir atuar como consultor estratégico, orientando as empresas em um ambiente de incerteza econômica e maximizando a eficiência tributária. Para os contadores que souberem explorar esse nicho, a Reforma Tributária poderá representar uma oportunidade de crescimento significativo.

As novas regras não precisam, portanto, ser encaradas como um perigo para o setor contábil. As mudanças têm o potencial de ser um divisor de águas para a contabilidade. A grande diferença entre os que fecharão as portas e os que expandirão seus negócios estará na capacidade de adaptação. Quem entender as novas regras, investir em tecnologia e adotar uma postura consultiva será capaz de prosperar em um mercado que, mais do que nunca, demandará uma orientação especializada e estratégica.

O futuro da contabilidade no Brasil dependerá das escolhas que os profissionais fizerem agora. E você, contador, está pronto para essa nova realidade?

(* ) é Coordenadora de Processos e Inteligência Comercial na área do Sucesso do Contador na Omie, plataforma de gestão (ERP) na nuvem.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Futuro dos chatbots: principais tendências para 2025

 


por Claudia Andrade, Especialista em Design Conversacional da Nexcore by Selbetti

O uso de chatbots no Brasil tem crescido de forma significativa nos últimos anos, impulsionado por avanços tecnológicos, mudanças no comportamento do consumidor e a busca por eficiência operacional. As empresas brasileiras estão cada vez mais adotando essa tecnologia para melhorar a interação com os clientes e otimizar processos internos. O número de chatbots no Brasil deve ultrapassar 1 milhão em 2025, com os setores de varejo, bancos e saúde liderando a adoção da nova tecnologia.

Estima-se que, em 2024, quase 7 bilhões de mensagens foram trocadas entre consumidores e ferramentas de chatbots em 2024. Esses assistentes digitais, que antes eram limitados a respostas pré-programadas e interações básicas, tiveram uma rápida evolução com a integração da Inteligência Artificial e Programação de Linguagem Natural (PLN), e redefiniram a maneira como as empresas interagem com seus clientes, oferecendo suporte 24/7, personalização avançada e uma experiência de usuário mais fluida e intuitiva. Neste sentido, há quatro tendências principais que considero estarem moldando o futuro dos chatbots que, além de transformarem a experiência do cliente, também serão primordiais para as empresas se manterem competitivas no mercado digital em rápida evolução. 

Interações cada vez mais humanas

Uma das tendências mais significativas é o desenvolvimento de interações cada vez mais humanas. Avanços nos modelos de processamento de linguagem natural e aprendizado de máquina estão permitindo que os chatbots compreendam o contexto, as nuances e as emoções nas conversas dos usuários com maior precisão. 

Isso permite diálogos mais naturais e envolventes, nos quais os bots podem adaptar suas respostas com base no estado emocional do usuário. Ou seja, se um usuário estiver frustrado ou confuso, o assistente pode ajustar seu tom e abordagem para oferecer suporte mais empático e eficaz, impactando diretamente na experiência do cliente.

Mais consciência contextual para a máquina

Digamos que você esteja comprando um laptop online. Um chatbot aparece, não apenas para ajudar você com informações genéricas: o sistema reconhece que você está navegando por uma determinada categoria de produtos, tarde da noite, provavelmente da sua casa. O bot, então, recupera o seu histórico de navegação da semana passada – quando procurava por laptops para jogos – e pergunta se você ainda tem interesse ou precisa de recomendações para outro tipo de equipamento.

Este cenário exemplifica o futuro da consciência contextual em soluções aprimoradas de chatbots, em que o agente virtual entende não apenas a consulta imediata, mas também todo o contexto (dispositivo, hora, interações anteriores), elaborando respostas que parecem incrivelmente personalizadas. Essa profundidade de compreensão vai transformar o atendimento ao cliente de uma mera troca de informações para um diálogo significativo e rico em contexto.

Personalização aprimorada

A personalização é outra tendência bastante importante, e que deve continuar a ser desenvolvida com a melhoria dos modelos de IA. Algoritmos de aprendizado profundo vão continuar revolucionando a maneira como os chatbots personalizam as interações com os usuários, analisando grandes quantidades de dados para oferecer experiências personalizadas, recomendações de produtos e suporte proativo. Por exemplo, um chatbot de varejo pode sugerir produtos com base nas compras anteriores e no histórico de navegação de um cliente. Essa capacidade de antecipar as necessidades dos usuários e oferecer soluções antes mesmo de serem solicitadas não só melhora a eficácia do suporte, mas também aumenta a satisfação e a fidelidade do cliente.

Experiência do cliente omnichannel

O futuro promete uma experiência omnichannel integrada e sem interrupções, graças a interfaces de conversação e bots com tecnologia de IA, eliminando as barreiras entre diversos canais de comunicação. 

Imagine iniciar uma consulta por meio de um chatbot no site de uma empresa e, sem resolução, ter que sair. Mais tarde, você se lembra de fazer o acompanhamento enquanto navega pelas redes sociais e, ao enviar uma mensagem, o chatbot continua exatamente de onde você parou, sem necessidade de repetição. 

Essa fluidez aprimora a experiência do cliente, garantindo que a ajuda esteja disponível e informada de forma consistente em todas as plataformas, tornando as interações mais suaves e eficientes.

Em conclusão, à medida que a tecnologia de chatbots continua a evoluir, a combinação de consciência contextual, personalização aprimorada e uma experiência omnichannel integrada promete revolucionar o atendimento ao cliente. Os assistentes virtuais se tornarão mais intuitivos e capazes de oferecer suporte de forma proativa, atendendo às necessidades dos usuários de maneira mais eficiente e empática. Essa transformação não apenas vai melhorar a satisfação do cliente, mas também fortalece a lealdade à marca, criando interações significativas e duradouras.

Ilustração: Vidency. 

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Um quadro sombrio da educação e do futuro

 


O Brasil caminha para um futuro sombrio com a falta de investimento em educação

Fernando Gabas (*)

A educação, um dos pilares essenciais para o desenvolvimento de qualquer nação, enfrenta uma crise alarmante no Brasil. Entre 2015 e 2021, segundo o estudo "Education at a Glance 2024", o setor registrou uma queda de 2,5% nos investimentos, enquanto os países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) experimentaram um crescimento médio de 2,1% ao ano. Essa disparidade gera consequências devastadoras, perpetuando um ciclo vicioso de desigualdade, baixa produtividade, pobreza e subdesenvolvimento.

Diante desse panorama, é fundamental promover debates sobre os impactos dessa situação e explorar soluções viáveis para reverter esse cenário preocupante. A curto prazo, os problemas comprometem a qualidade do ensino, a infraestrutura das instituições e a formação dos professores. Sem investimentos adequados, as escolas enfrentam enormes dificuldades para manter equipamentos, atualizar materiais didáticos e proporcionar um ambiente de aprendizagem adequado.

Já a longo prazo, os efeitos são ainda mais graves. Um país com uma população mal preparada para os desafios do futuro tem menos chances de prosperar no cenário global. Além disso, uma base educacional deficiente afeta setores estratégicos como ciência, tecnologia e indústria, reduzindo o potencial de inovação e a capacidade de gerar riqueza.

Caminhos para minimizar os impactos
Educadores e especialistas concordam que, para mitigar os efeitos dessa carência, é fundamental  aumentar os investimentos e garantir a eficiência dos gastos. Somente por meio de políticas públicas ousadas que promovam qualidade e equidade no acesso à educação será possível preparar o Brasil para os desafios futuros e fomentar um crescimento econômico sustentável. 

Nesse contexto, a integração de tecnologias digitais no ensino não é apenas uma tendência, mas uma necessidade urgente. Ferramentas tecnológicas podem transformar a maneira como os alunos aprendem, oferecendo recursos diversificados e personalizando a experiência de aprendizado, especialmente em um momento em que a educação remota e híbrida se tornou uma realidade.

Um estudo recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) evidencia a preocupante disparidade no acesso à tecnologia educacional entre diferentes regiões e níveis de ensino no Brasil. Por exemplo, enquanto 85% das escolas particulares possuem acesso à internet de alta velocidade, apenas 52,7% das escolas da rede municipal desfrutam desse recurso. Essa diferença não apenas limita as oportunidades de aprendizado, mas também perpetua a desigualdade educacional. 

Para que a tecnologia se torne uma aliada efetiva no ensino, portanto, é fundamental garantir que todos os estudantes tenham acesso a essas ferramentas. Sem essa democratização, corremos o risco de ampliar ainda mais a distância entre os que têm e os que não têm acesso à educação de qualidade.

Diante desse contexto, é inegável que o país precisa reavaliar suas prioridades. A desatenção com a educação não é apenas uma falha de investimento, mas uma traição ao futuro. Enquanto as nações que investem no sistema colhem os frutos do desenvolvimento, o Brasil se arrisca a perpetuar um ciclo de desigualdade e subdesenvolvimento. E a indiferença em relação ao aprendizado das novas gerações é uma escolha perigosa que pode custar caro, não só para os estudantes de hoje, mas para toda a sociedade.

Portanto, a pergunta que fica é: até quando o governo brasileiro continuará ignorando a urgência de uma educação de qualidade? Se não formos capazes de nos unir em torno dessa causa, corremos o risco de ver nosso país se tornar uma sombra de seu verdadeiro potencial. É hora de transformar nossa indiferença em ação. A educação deve ser prioridade; caso contrário, estaremos condenados a um futuro sombrio, sem as ferramentas necessárias para enfrentar os desafios do século XXI.

(* ) É administrador e fundador da Academia Soul, maior especialista em tecnologia para educação, competências socioemocionais e habilidades para a vida do Brasil.

 

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Impactos e Desafios do PERSE



Reintrodução do Perse: impactos e desafios para o setor de eventos

Por Vinicius Lunardi Nader (*)

A recuperação econômica pós-pandemia é um desafio global que exige ações coordenadas entre governos, empresas e a sociedade. No Brasil, o setor de eventos - um dos mais afetados pela crise sanitária - desempenha um papel vital na economia e na cultura do país. Dito isso, a reintrodução do Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse), agora sob novas regras estabelecidas pela Lei 14.859/2024, é uma medida essencial para o estímulo do segmento no momento presente. 

O setor de eventos foi um dos primeiros a interromper as atividades. De acordo com a Associação Brasileira de Empresas de Eventos (Abeoc Brasil), feiras e eventos corporativos - que fazem parte dos segmentos representados pela entidade - contribuíram com 4,75% do PIB em 2019, além de gerarem 13 milhões de empregos. Já durante o período pandêmico, só em 2021, o setor deixou de faturar pelo menos R$ 140 bilhões, segundo a Associação Brasileira dos Promotores de Eventos (Abrape). 

Contribuições

O Perse tem um papel crucial na mitigação dos impactos econômicos pós pandemia considerando a área de eventos, pois oferece incentivos fiscais significativos - mas também limitados. A Lei 14.859/2024 estendeu o programa até 31 de dezembro de 2025 com um porém: a restrição de R$ 15 bilhões em incentivos fiscais.

Isso significa que o programa será encerrado quando esse montante for atingido, exigindo atenção das empresas para garantir que se beneficiem enquanto possível. Acima de tudo, é preciso se reinventar e desenvolver projetos condizentes com a nova realidade do mercado. 

Novidades e impactos práticos

Uma das principais mudanças introduzidas pela reintegração é a diferenciação nos benefícios fiscais conforme o regime tributário das corporações. Negócios tributados pelo lucro presumido têm alíquota zero para PIS, COFINS, IRPJ e CSLL até o fim do programa, enquanto aquelas no lucro real ou arbitrado têm isenções limitadas.

Além disso, o Perse agora exige que as empresas estejam regularizadas no Cadastro dos Prestadores de Serviços Turísticos (Cadastur) para se qualificarem aos benefícios fiscais. A regularização até 18 de março de 2022, ou adquirida entre essa data e 30 de maio de 2023, é obrigatória. 

Oportunidade que exige desafio

Essa exigência de regularização no Cadastur apresenta um novo desafio para as empresas, que agora devem cumprir uma série de requisitos dentro de um prazo específico, causando limitações no acesso. Esse, será disponibilizado apenas para algumas organizações. 

Por mais que seja uma barreira inicial, as mudanças simbolizam a oportunidade de melhora na formalização e qualidade dos serviços oferecidos no setor. O desafio pode levar a vantagens para os consumidores e para o mercado, a longo prazo. 

Perse, portanto, representa um passo significativo na direção da recuperação da área de eventos e, por extensão, da economia brasileira. É essencial que os negócios estejam informados para se adaptar às novas regras, e fortalecer o diálogo entre o setor privado e o governo se torna decisivo para aprimorar políticas de incentivo fiscal. O movimento, se garantida uma boa preparação por parte das empresas, há de promover um ambiente de negócios mais saudável e competitivo.

(*) É Sócio da ZNA e Advogado, especialista em Direito Tributário, Financeiro e Econômico pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

 

 


quinta-feira, 26 de setembro de 2024

Restaurantes enfrentam problemas de operacionalidade

 


Rotatividade de restaurantes: queda em 2024 exige novas ações do setor

Por Fernando Blower  (*)

A indústria de restaurantes, no Brasil, enfrenta um cenário desafiador em 2024. Com ligeira redução na taxa de rotatividade, passando de 77,6% no final de 2023 para 74,3% no primeiro semestre deste ano, o setor continua a lidar com obstáculos. A queda, embora positiva, não elimina o turnover que ainda é mais do que o dobro da média no ramo de serviços, que se manteve em 35%. Esses números, fornecidos pela Associação Nacional de Restaurantes (ANR) e pela consultoria Future Tank, em análise baseada nos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED) e da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), do Ministério do Trabalho e Emprego, revelam uma situação que exige atenção redobrada dos empresários. 

Rotatividade 

A alta rotatividade em restaurantes é, na maioria das vezes, atribuída à falta de qualificação da mão de obra e à baixa produtividade dos trabalhadores, problemas que afetam principalmente os jovens, que representam uma parcela significativa dos empregados no segmento. Além disso, a recente queda na taxa de desemprego, que recuou de 7,4% no quarto trimestre de 2023 para 6,9% no segundo trimestre de 2024, intensificou o turnover em diversos setores, incluindo o de serviços. 

 

Com a economia brasileira em recuperação e mais oportunidades de emprego surgindo, os profissionais, especialmente os mais novos, têm buscado posições que ofereçam melhores condições de trabalho e remuneração mais atraente. Esse movimento tem impactado de forma desigual as diferentes regiões do país. Estados como Santa Catarina, que registrou a menor taxa de desemprego do Brasil no segundo trimestre de 2024 (3,2%), também apresentou uma das maiores taxas de rotatividade em restaurantes, atingindo 95,3%. Outros estados com baixas taxas de desemprego, como Mato Grosso do Sul (93,7%), Paraná (93,3%) e Mato Grosso (92,3%), seguem a mesma tendência. 

Por outro lado, estados com taxas de desemprego mais elevadas registraram índices de rotatividade significativamente menores. O Rio Grande do Norte, por exemplo, teve a menor taxa no ramo de restaurantes (49,8%), seguido por Piauí (52,1%) e Pernambuco (52,3%), sendo este último o estado com a maior taxa de desemprego do país, atingindo 11,5%. 

Desafios 

A disparidade regional reforça a necessidade urgente dos restaurantes em adotar novas estratégias para reter talentos, especialmente em estados onde a taxa de desemprego é baixa. Nesses locais, os empregadores enfrentam desafios como o aumento das despesas com folha salarial e a necessidade de investir em tecnologia para compensar a falta de mão de obra. 

Diante disso, em um ambiente de plena ocupação, a escassez de mão de obra tende a favorecer tanto os trabalhadores qualificados quanto os menos qualificados, exigindo uma adaptação rápida por parte das empresas. Portanto, é imprescindível que os empresários do segmento estejam atentos às mudanças no mercado de trabalho e adotem estratégias eficazes para manter suas equipes. Isso envolve práticas que vão além da remuneração direta, como aprimorar as condições de trabalho, oferecer benefícios atrativos e criar um ambiente que favoreça o desenvolvimento profissional. Tais medidas não apenas auxiliam na retenção de colaboradores, mas também contribuem para a formação de times mais qualificados e comprometidos, capazes de sustentar o crescimento do setor no longo prazo. 

Por fim, com uma abordagem proativa e focada no desenvolvimento contínuo, é possível transformar o desafio da rotatividade em uma oportunidade para fortalecer o ramo de restaurantes como um todo. 

(*) É diretor-executivo da ANR, instituição que tem por objetivo promover o setor de foodservice e defender e representar os interesses dos associados. E-mail: anr@nbpress.com.br.  

Ilustração: Panrotas.