domingo, 30 de agosto de 2026

Razões que explicam a ascensão da cooperação

 

 


PARCERIAS SEM FRONTEIRAS: POR QUE A COMPETIÇÃO DEU LUGAR À COOPERAÇÃO

Eduardo Shimizu (*)

Há uma cena que, há alguns anos, pareceria improvável para qualquer pessoa que acompanhasse de perto o mercado de tecnologia: representantes de duas das maiores empresas do setor, historicamente posicionadas em lados opostos de quase todo debate, dividindo o mesmo palco, anunciando uma parceria estratégica. Não como adversários que firmaram uma trégua diplomática, mas como organizações que identificaram, genuinamente, que crescer juntas era mais inteligente do que crescer separadas. Esse momento aconteceu (e não foram poucas vezes). E ele diz muito sobre o novo tempo em que vivemos.

Por décadas, o imaginário do setor de tecnologia foi construído sobre a lógica da guerra. Empresas competiam por fatia de mercado, por talentos, por padrões técnicos e por influência sobre clientes. Nesse contexto, uma grande empresa americana de software era, para boa parte do ecossistema de código aberto, o símbolo da resistência a tudo que o modelo colaborativo representava. A rivalidade não era apenas comercial, era quase ideológica. O que mudou? Em uma palavra: a Nuvem.  O surgimento e a consolidação das grandes plataformas de Computação em Nuvem redesenhou completamente o tabuleiro. De repente, empresas que antes disputavam cada centímetro do mesmo território passaram a atuar em camadas distintas e complementares de uma infraestrutura muito maior. A pergunta deixou de ser “quem vence essa batalha?” e passou a ser “como podemos, juntos, atender a um mercado que nenhum de nós consegue alcançar sozinho?” Esse deslocamento não foi apenas estratégico. Foi, antes de tudo, uma mudança de mentalidade. Organizações que aprenderam a enxergar o ecossistema como um campo de soma zero precisaram, muitas vezes de forma acelerada e dolorosa, reaprender que a colaboração bem estruturada cria mercados maiores do que qualquer competição isolada conseguiria.

O paradoxo concorrente- parceiro

Mas a transformação mais interessante não acontece apenas entre gigantes. Ela se revela com toda a sua complexidade dentro dos próprios ecossistemas de parceiros. Imagine a seguinte situação: um banco de médio porte abre uma concorrência para modernizar sua infraestrutura de nuvem híbrida, com um componente crítico de conformidade regulatória - algo que exige experiência prévia com o Banco Central e certificações específicas do setor financeiro. A Revendedora A, que historicamente atua com manufatura e chão de fábrica, é convidada a participar porque já tem relacionamento comercial com o banco em outra frente. O problema: ela nunca implementou nada no setor financeiro e sabe que, sozinha, dificilmente venceria uma avaliação técnica rigorosa. Em vez de recusar o projeto ou entregar uma proposta frágil, a Revendedora A liga para a Revendedora B, sua concorrente direta em outras licitações, e propõe uma subcontratação, resultado: B assume a arquitetura técnica e a conformidade regulatória, enquanto A mantém a relação comercial com o cliente e a gestão do projeto. O cliente recebe uma solução robusta. B fatura por um projeto ao qual não teria acesso direto. E A preserva e, principalmente, fortalece sua reputação junto ao banco.

Não por altruísmo. Por inteligência de negócio. Porque entregar ao cliente a melhor solução possível, mesmo que isso signifique trazer para dentro do projeto alguém que, em outra licitação, seria seu concorrente, é o que constrói reputação, gera recorrência e sustenta o crescimento no longo prazo.Essa lógica, que pode parecer contraintuitiva à primeira vista, é exatamente o que define os ecossistemas mais maduros e resilientes do mercado atual. A especialização deixa de ser uma barreira e passa a ser o ativo que circula, gerando valor para todos os envolvidos.

O que torna uma parceria possível de verdade

Há, no entanto, uma condição que raramente é enunciada com clareza nas conversas sobre parcerias: elas só funcionam sobre bases comuns e confiáveis.  Quando dois parceiros decidem colaborar, o que está em jogo não é apenas a boa vontade das lideranças ou a complementaridade dos portfólios. É a capacidade de trabalhar sobre os mesmos padrões técnicos, de entender o que o outro entrega, de garantir ao cliente final que a solução integrada é coerente, auditável e sustentável.

É aqui que a discussão sobre abertura: de padrões, de código, de arquiteturas deixa de ser uma questão filosófica e se torna um imperativo prático. Um ambiente construído sobre tecnologias proprietárias e fechadas cria, inevitavelmente, feudos: parceiros que só conseguem colaborar dentro dos limites impostos por um terceiro, dependentes de um roadmap que não controlam e sujeitos a mudanças de regras que podem, da noite para o dia, invalidar anos de investimento. Já um ecossistema construído sobre padrões abertos cria, ao contrário, um campo neutro. Um terreno comum onde a confiança não precisa ser assumida às cegas, porque pode ser verificada. Um espaço no qual a colaboração não depende de permissão, porque os pilares técnicos são compartilhados por todos.

O ambiente que permite parcerias florescerem

Reconhecer tudo isso, porém, não é suficiente. Parcerias não surgem espontaneamente: elas precisam de um ambiente que as torne possíveis, que as incentive e que as proteja quando os inevitáveis atritos aparecem. As empresas e lideranças que estão conseguindo prosperar nesse novo cenário são exatamente aquelas que aprenderam a fazer essa distinção: o concorrente de hoje pode ser o parceiro de amanhã, e o parceiro em um segmento pode vir ser, em outra frente, o rival em outro momento. O que define o sucesso não é a rigidez dessa categorização, mas a inteligência para navegar entre elas. Em outras palavras, a pergunta que fica, para quem está construindo sua estratégia de negócios agora, não é mais “com quem devo competir?” Mas sim: “com quem devo construir?”

A resposta exige abandonar a ilusão de que o crescimento isolado é sustentável num mercado tão complexo e interconectado quanto o atual. Exige, também, a humildade de reconhecer que nenhuma organização, por maior que seja, dispõe de todas as especialidades que o cliente vai precisar ao longo do tempo. O que as parcerias mais bem-sucedidas têm em comum não é a ausência de tensão entre os envolvidos, mas sim, a capacidade de transformar essa tensão em algo produtivo: num acordo claro sobre onde cada um agrega mais valor, numa divisão de trabalho que respeita a competência de cada parte e, no final, numa entrega que nenhum dos dois conseguiria fazer sozinho. Afinal, esse é o novo significado de competitividade. Não se trata de ter a capacidade de vencer todos os adversários, mas sim de encontrar a sabedoria de saber quais batalhas travar e quais conflitos podem se transformar em parcerias duradouras.

(*) é diretor do Ecossistema de Parceiros para o Brasil da Red Hat.

Nenhum comentário:

Postar um comentário