sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Os Super-Humanos vem aí?

 


A ciência já provou que consegue criar super-humanos. A pergunta é até onde podemos ir?

Por Dr. Guilherme Storch (*)

Durante uma visita à Novartis, na Suíça, tive a oportunidade de conhecer de perto o desenvolvimento de terapias gênicas. Saí de lá pensando em uma questão que ultrapassa o tratamento de doenças. O que acontecerá quando conseguirmos modificar características humanas de maneira cada vez mais direcionada?

A expressão “super-humanos” ainda pertence ao campo das hipóteses. A ciência não demonstrou que consegue criar pessoas com capacidades superiores de forma ampla e previsível. O que já existe, e vem mudando a medicina, é a possibilidade de editar genes para tratar determinadas condições. Estamos começando a intervir em mecanismos que antes só conseguíamos observar.

A edição genética já chegou aos pacientes

Em dezembro de 2023, os Estados Unidos aprovaram o Casgevy, primeiro tratamento autorizado pela FDA a utilizar a tecnologia CRISPR, inicialmente indicado para determinados pacientes com anemia falciforme. 

O procedimento envolve a retirada de células-tronco do sangue do próprio paciente. Em laboratório, elas passam por uma edição genética destinada a aumentar a produção de hemoglobina fetal, que ajuda a impedir a deformação das hemácias. Depois de uma preparação da medula óssea, o material modificado é devolvido ao organismo.

A intervenção não altera todos os genes da pessoa. Ela atua sobre células específicas e busca tratar uma doença que pode provocar crises de dor, lesões em órgãos e outras complicações. O processo também envolve riscos e acompanhamento médico. Não é uma aplicação simples, muito menos um recurso destinado ao aprimoramento de pessoas saudáveis.

Ainda assim, representa uma mudança na maneira de tratar determinadas condições genéticas. Em vez de atuar exclusivamente sobre suas consequências, a medicina passa a modificar um mecanismo causador da doença.

Quando a alteração passa para os filhos

Existe uma diferença entre editar células de um paciente e realizar modificações que possam ser transmitidas às próximas gerações. As terapias somáticas, como a utilizada no tratamento da anemia falciforme, não têm como objetivo alterar óvulos ou espermatozoides. Seus efeitos genéticos não são herdados pelos filhos. A situação muda quando a intervenção ocorre em embriões destinados à reprodução ou em células da linhagem germinativa.

Em 2018, o anúncio do nascimento de bebês com DNA editado na China provocou reação internacional. O pesquisador responsável havia utilizado CRISPR em embriões para alterar um gene relacionado à suscetibilidade ao HIV.

O experimento levantou questões sobre segurança, consentimento, efeitos imprevistos e consequências para pessoas que ainda não haviam nascido. A Organização Mundial da Saúde passou a desenvolver recomendações para a governança da edição do genoma humano, distinguindo as aplicações somáticas das modificações hereditárias. 

Esse episódio mostrou que a capacidade técnica de realizar uma intervenção não resolve, por si só, a questão de quando e em quais condições ela deve ser utilizada.

Tratar uma doença é diferente de aprimorar uma característica

Se conseguimos modificar uma célula para combater uma enfermidade, é natural que surja outra pergunta. Poderíamos utilizar ferramentas semelhantes para alterar força muscular, resistência física ou determinadas capacidades cognitivas? Essa discussão pertence ao campo do aprimoramento humano, conhecido como human enhancement.

O problema é que essas características não dependem, em geral, de um único gene. Elas resultam em interações entre inúmeras variantes genéticas, ambiente, desenvolvimento e experiências individuais.

Não existe hoje um procedimento comprovado que permita editar alguns genes e produzir, de maneira previsível e segura, uma pessoa com inteligência ou desempenho físico superiores.

Também precisamos distinguir essa discussão dos escores de risco poligênico. Essas ferramentas combinam informações sobre variantes genéticas para estimar a predisposição a determinadas doenças. Elas trabalham com probabilidades e não determinam o futuro de uma pessoa.

Conhecer uma predisposição pode ajudar na pesquisa e, em situações específicas, orientar decisões preventivas. Não significa que já saibamos modificar todos os fatores genéticos envolvidos.

É justamente por isso que vejo a prevenção como uma das aplicações que merecem atenção. Se conseguimos identificar riscos antes do aparecimento de uma doença, temos a possibilidade de acompanhar o paciente, investigar alterações e adotar medidas de cuidado. Em alguns casos, a genética poderá fazer parte dessa estratégia. Em outros, o conhecimento disponível ainda não permitirá uma intervenção direcionada.

A edição do genoma está demonstrando que determinadas características biológicas podem ser modificadas para tratar enfermidades. O passo seguinte não é necessariamente criar pessoas mais fortes, inteligentes ou resistentes. É compreender quais intervenções realmente oferecem benefícios, quais riscos podem produzir e quem terá acesso a elas. A medicina terá de lidar com essas escolhas à medida que as tecnologias avançarem.

E deixo uma pergunta para reflexão. Se fosse possível editar um gene para evitar uma doença antes que ela aparecesse, você faria isso?

(*)  é  médico referência em Medicina Regenerativa.

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