O novo xadrez fiscal: por
que a Reforma Tributária muda as regras do jogo?
Ana Paula Maciel (*)
Durante
décadas, o Brasil jogou um jogo tributário cujas regras eram, na melhor das
hipóteses, confusas. Guerra fiscal entre estados, cumulatividade de impostos e
um emaranhado de legislações que desafiava até os enxadristas mais experientes.
Com a aprovação da Reforma Tributária e o avanço das regulamentações da Lei
Complementar, o tabuleiro foi virado. As peças mudaram, o objetivo foi
redefinido e, agora, as empresas precisam aprender a jogar o "novo xadrez
fiscal".
Engana-se
quem acredita que a simplificação prometida pelo IVA Dual (IBS e CBS) significa
facilidade imediata. Pelo contrário: acabamos de entrar na fase mais crítica da
partida, que é o período de transição. Entre 2026 e 2033, as empresas viverão
uma realidade de "dupla personalidade fiscal", tendo que apurar os
tributos do sistema antigo (PIS, COFINS, ICMS, ISS) enquanto implementam e
testam o novo modelo.
O
primeiro grande desafio deste novo jogo é a mudança de paradigma da origem para
o destino. Historicamente, a tributação ocorria onde o produto era fabricado ou
o serviço prestado. Agora, o imposto é devido onde o consumo acontece. Isso
derruba a lógica de incentivos fiscais que sustentou o planejamento estratégico
de indústrias por anos. A pergunta que o CEO deve fazer ao seu time fiscal não
é mais "onde a fábrica deve ficar para pagar menos imposto?", mas sim
"como minha logística e precificação serão impactadas ao vender para o
estado X ou Y?". A inteligência fiscal deixa de ser um acessório de
compliance e torna-se vital para a formação de preço e margem de lucro.
Outro
ponto de atenção que exige movimentos precisos é a tecnologia. A Reforma
Tributária brasileira nasce digital. O conceito de split payment,
que prevê o recolhimento do imposto no momento da liquidação financeira da
transação, é revolucionário, mas impõe questões quanto ao fluxo de caixa. Se
antes as empresas tinham prazos para recolher tributos, financiando-se com esse
dinheiro no curto prazo, agora o Fisco retém sua parte em tempo real.
Neste
cenário, a tecnologia fiscal não é mais sobre preencher guias, mas sobre
conectividade e validação instantânea de regras. Quem ainda opera com sistemas
legados ou processos manuais corre o risco de travar sua operação comercial.
Qualquer erro no cadastro de um produto ou na classificação de um serviço não
resultará apenas em uma multa futura, mas no bloqueio imediato da operação ou
na retenção indevida de valores.
Além
disso, temos a questão da não cumulatividade plena. A promessa de que
"tudo gera crédito" é música para os ouvidos empresariais, mas a
operacionalização disso exige um controle rigoroso. A empresa precisará
garantir que seus fornecedores estejam regulares para que o crédito seja
validado. Isso transforma a gestão de terceiros em uma peça-chave do tabuleiro.
Um fornecedor inadimplente com o fisco pode se tornar um "peão" que
impede a vitória na partida.
Portanto,
o novo xadrez fiscal exige antecipação. Não basta esperar a obrigatoriedade
bater à porta. As empresas precisam, agora, rodar simulações de impacto,
revisar contratos de longo prazo, adaptar seus ERPs e, acima de tudo, aculturar
seus times. O contador deixa de ser um "apurador de impostos" para se
tornar um estrategista de dados.
A
Reforma Tributária é, sem dúvida, um avanço necessário para a competitividade
do Brasil no longo prazo. Mas, no curto e médio prazo, ela vai separar o
mercado entre aqueles que entenderam as novas regras e aqueles que insistiram
em jogar damas em um tabuleiro de xadrez. A simplificação virá, mas antes dela,
teremos a complexidade da adaptação. E neste jogo, vence quem tiver a melhor
tecnologia e a visão mais clara do tabuleiro.
(*)
é diretora de conteúdo tributário da Vertex.
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