quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Amor Fati

 


O QUE ELES SABIAM E O QUE EU SEI

Silvio Persivo 

Sei que vivemos no país do sobrenatural, mas, às vezes, no Brasil, o sobrenatural consegue ser mais sobrenatural que ele mesmo. Sou economista, profissão que nos obriga a pensar em dinheiro e a seguir o dinheiro para observar a tendência das coisas. Procuro pensar racionalmente o que significa, na prática, usar o passado para antever as tendências do futuro.

Considerando que vivemos num país em que 84% das famílias estão endividadas, em que as contas públicas não têm controle, em que as taxas de juros estão entre as mais altas do mundo e em que a inflação faz a dona de casa constatar, a cada semana, que o carrinho do supermercado traz cada vez menos pelo mesmo valor, era natural, como ensina a própria história política, que, com a alta desaprovação do governo, a eleição fosse vencida pela oposição. As pesquisas disponíveis apontavam nessa direção, assim como a vitória da oposição no primeiro turno e, principalmente, o Polymart, site de mercado preditivo de apostas no qual se aposta sobre quem vencerá a eleição. Por meses, ele mostrava índices acima de 70% e 80% para a vitória da oposição.  O Brasil, porém, não é para principiantes, já advertia o nosso grande maestro Antonio Carlos Jobim. Depois das 17h do domingo da eleição, após uma paralisação de duas horas na contagem da apuração, o que aconteceu? O Polymart, inesperadamente, deu uma guinada espetacular e passou a apontar a vitória do governo! Para se apostar tanto dinheiro na reversão de uma posição consolidada, é preciso saber algo que o cidadão comum não sabe (nem eu, diga-se de passagem). Quando vi a mudança, não tive dúvidas de que a eleição havia mudado de rumo, embora, no dia anterior, os relatórios das pesquisas tivessem apontado que isso seria, probabilisticamente, improvável. Quem apostou alto na reviravolta sabia das coisas e ou, sem dúvida, faz parte da elite nacional.

Não brigo com a realidade. Mas sei que tudo tem um custo, pois não há almoço grátis. A segunda-feira começou com a fatura: circuit breaker na bolsa e dólar nas alturas. Virão tempos bem mais difíceis para os brasileiros, e todos pagarão a conta. Nem todos, é claro, mas a população em geral e muitos dos que hoje comemoram. As contas públicas não podem fugir da realidade, e dinheiro não nasce em árvores. Com o déficit público aumentando, até os economistas que defendem o governo terão de constatar que os juros não cairão e que será preciso elevar impostos e arrecadar mais. Somado a isso, com a aprovação, sem ganho de produtividade, do fim da escala 6x1 e a farta distribuição de benesses no segundo turno, a inflação tende a subir e, não será improvável, que o governo passe a descumprir seus compromissos.  Os problemas de caixa já começam a acenar com suas mãozinhas devastadoras. E 2007 está bem aí, com sinais evidentes de tempos muito mais difíceis. Muitos terão que matar um leão por dia e não será suficiente. Não posso ser responsável pelo que não controlo, mas posso escolher como reajo a isso. Amor fati.

A França é um alerta

 


O ALERTA DA FRANÇA: CONTAS DESCONTROLADA SÃO O CAMINHO CERTEIRO DO ATRASO

Silvio Persivo

Os protestos na França começaram com a insatisfação dos estudantes em relação às escolas. Mas esse foi apenas o gatilho visível. O que realmente espalhou a revolta foi algo maior: a frustração generalizada com o custo de vida.

No fundo, o que está em jogo é o futuro econômico do país.

As contas públicas estão em caos

A situação das finanças públicas da França está pior do que a do Brasil. Para ser exato, está um caos. Vejam os números:

  • Dívida pública: € 3,6 trilhões, cerca de 120% do PIB- o dobro do limite de referência das regras fiscais da zona do euro.
  • Déficit orçamentário deste ano: 5,4% do PIB, quase o dobro do teto permitido.

E os mercados já perceberam isso. Os juros dos títulos do governo francês subiram para níveis não vistos desde a crise financeira de 2008. Na prática, ficou muito mais caro para Paris financiar sua dívida gigante.

Sem controle das contas públicas, dificilmente a situação melhora- e fica quase impossível pensar em crescimento econômico. Uma saída seria apostar na inovação. O problema é que a França resiste a mudanças.

Não há sinais do dinamismo tecnológico que um dia marcou o país. Assim como a vizinha Alemanha, a França não conseguiu se manter na vanguarda de tecnologias como a inteligência artificial. Sua empresa de IA mais conhecida, a Mistral, está muito atrás das concorrentes americanas e chinesas nos rankings mundiais.

O remédio amargo

Para mudar esse quadro, seria preciso engolir um remédio que os franceses parecem relutantes em aceitar:

1.     Reformas profundas nos impostos e no mercado de trabalho, para atrair investimentos.

2.     Cortes nos gastos públicos, para abrir espaço fiscal e investir em inovação.

A agitação atual mostra que a realidade da França está começando a ficar clara. A pergunta é: por quanto tempo os franceses continuarão resistindo às mudanças necessárias?

Nem uma virada à direita resolve

As eleições-com a possibilidade de Marine Le Pen ou um sucessor de seu partido, o Reunião Nacional, chegar ao poder- não afastam o risco de mais turbulência política no curto prazo.

Quando o caos fiscal chega a esse nível, não há como fugir: seja com o governo atual, seja com um novo liderado pela direita nacionalista, o ambiente fiscal implacável será o mesmo. Diante do peso da dívida, qualquer governo seria obrigado a conter gastos ou fazer outros ajustes dolorosos. A incapacidade de lidar com o déficit pode piorar ainda mais a situação - algo que a Grécia descobriu ao eleger o partido de extrema-esquerda Syriza, em 2015.

A lição da Grécia (e as diferenças da França)

A Grécia serve para lembrar que a recuperação é possível. Mas ela só veio depois de anos de austeridade, reestruturação e reformas, até o país reconquistar grande parte da confiança dos investidores perdida na década de 2010.

A França, porém, está numa situação diferente:

  • Sua economia é muito maior que a da Grécia.
  • Sua importância para a União Europeia é muito maior.

Uma futura presidente Le Pen poderia responder à crise conduzindo a França para fora do euro - ou até da União Europeia. Mesmo no cenário mais otimista, as consequências para o resto do continente seriam desastrosas.

O recado para o Brasil

A França é um bom alerta para o Brasil mudar de rumo na eleição do próximo dia 25 -o que parece muito provável. E ainda bem.

O descontrole das contas públicas é o caminho certo para o atraso econômico.

Uma Janela, Talvez...

 


O FUTURO QUE NÃO HOUVE E O BRASIL POSSÍVEL

Silvio Persivo 

No século passado- e digo isso com humildade e reconhecimento dos erros- fui um dos que acreditaram ser possível criar um mundo melhor, quase um paraíso na Terra. A bandeira da esquerda, em especial durante o regime militar e diante da rigidez dos costumes, parecia nos convocar à revolução. Éramos jovens e acreditávamos em mudanças rápidas, na nossa capacidade de endireitar o mundo. Eram sonhos juvenis, que a realidade tratou de enterrar. O socialismo, que se apresentava como solução, logo se revelou uma decepção-algo que os mais ingênuos não conseguiram, ou não quiseram, enxergar. Muitos ainda permanecem presos à mentalidade dos diretórios acadêmicos, repetindo velhos chavões sobre esquerda e direita e um marxismo vulgar, já ultrapassado.

Naquele tempo, havia verdadeiros intelectuais, como Stefan Zweig: um pensador intenso, europeu apaixonado pelo Brasil que, ao acreditar no potencial do nosso país, ajudou a consagrar a expressão “País do Futuro”. Zweig via na nossa diversidade, criatividade e alegria uma possibilidade- uma rota de fuga da loucura que se espalhava pelo mundo. Ele, assim como meu ex-professor Darcy Ribeiro, talvez não tenha conseguido enxergar plenamente o nosso lado sombrio, tão presente no “jeitinho” e na disposição de desrespeitar regras sem remorso. Talvez Zweig tenha percebido isto no fim da vida. Não sabemos ao certo quanto pesou esta desilusão em sua decisão de tirar a própria vida. Alguns idealistas têm dificuldade em suportar um mundo que não corresponde aos seus ideais.  Há, porém, quem reaja de outra maneira: manipulado por adoradores do poder e do dinheiro e sem disposição para o debate, prefere chamar de “nazistas”, “extrema direita”, “burros” ou “gado” aqueles que pensam diferente.

Neste século, infelizmente, o Brasil enveredou pelo caminho dos oportunistas e dos populistas, muitas vezes sem o preparo intelectual necessário- sobretudo em economia. Adotou um modelo de desenvolvimento conduzido pelo Estado e apoiado no consumo, que hoje representa mais de 60% do Produto Interno Bruto (PIB), com forte recurso ao crédito. Mas desenvolvimento duradouro exige mais do que consumo: requer crescimento da produção, formação de poupança, controle dos gastos públicos e segurança jurídica. São condições que, a meu ver, faltaram ao Brasil ao longo de cerca de 22 anos de governos petistas-e não ignoro que Michel Temer foi vice-presidente de Dilma Rousseff; por isto, não considero seu governo completamente apartado desse período.

Não há futuro sólido quando se negligenciam duas bases fundamentais: educação e investimento. Com a formação bruta de capital em 16,8% do PIB em 2025, crescimento médio de 2,4% ao longo de 24 anos e um investimento abaixo dos 17% registrados em 2022, quando Bolsonaro deixou o governo, corremos o risco de repetir o conhecido ciclo do “voo de galinha”. Ainda assim, Lula quer mais quatro anos para insistir na mesma fórmula, que já se mostrou esgotada, e repetir, mais de uma década depois, os erros do governo Dilma Rousseff.  No século passado, ao menos havia a esperança que Zweig nos oferecia- uma esperança da qual o Brasil se afastou, ou que talvez nunca tenha alcançado de fato. A juventude de hoje, porém, merece um sinal de esperança e a promessa de um futuro melhor. Isto não será possível sem MUDANÇA. A eleição do dia 25 parece nos oferecer uma alternativa para o Brasil mudar de rumo. Quem sabe, a partir de um governo diferente, possamos construir um projeto de país e recuperar a capacidade de sonhar com um amanhã melhor.

A Lenta Desagregação de Um Projeto de Poder

 


O FIM DE UM CICLO

(ou Por que a esquerda não entende o país)

Silvio Persivo

Nem uma derrota esmagadora, como a do último domingo (04), faz os esquerdistas infantis enxergarem o óbvio. Eles repetem chavões como papagaios, sem raciocinar. Não compreendem que foram eles mesmos que criaram o bolsonarismo- por não entenderem as transformações do mundo-e insistem em reduzir esse fenômeno à figura individual de Jair Bolsonaro. É de Gramsci o conceito de hegemonia, que explica como uma visão de mundo se transforma em projeto político, cultural e institucional. Hegemonia não se conquista apenas tomando o poder: constrói-se gerando consensos, ocupando espaços e tornando um projeto majoritário dentro da sociedade. Esta é a chave para interpretar a trajetória recente da política brasileira. O lulismo construiu um projeto hegemônico que, a partir de 2002, com a eleição de Lula, chegou ao poder justamente por criar esses consensos- e se solidificou com a reeleição de Lula e a eleição de Dilma Rousseff. Por meio da promessa de políticas sociais, seu discurso conquistou universidades, imprensa, professores, intelectuais e outros segmentos organizados da sociedade.

Mas o projeto tinha um ponto frágil e decisivo: não se faz desenvolvimento sem iniciativa privada nem apenas pelo consumo. É preciso segurança jurídica e apoio ao empreendedorismo para gerar crescimento real. O lulismo escolheu outro caminho: ofereceu crédito para turbinar o consumo para uma população sem  educação financeira. E a população "meteu os pés pelas mãos": recorde de endividamento, com 82% das famílias brasileiras endividadas e 30% com contas atrasadas. Não por acaso, já em 2013 vieram os sinais de esgotamento, com enormes manifestações públicas. Desde então, o PT vem perdendo progressivamente sua hegemonia, com imensa dificuldade de reconstruir um discurso capaz de unir a sociedade novamente.

Enquanto isso, o mundo também se transformava as mídias sociais mudaram a forma de organizar o debate público; a interiorização econômica criou e fortaleceu o agronegócio e desemprego e o aumento dos informais destruiu as classes tradicionais. Estas mudanças geraram uma crise de hegemonia que o lulismo não entendeu- e, ao tentar submeter os insurgentes pela força, abriu justamente o espaço para o bolsonarismo emergir. A partir de 2015, o movimento popular que levou ao impeachment de Dilma reuniu, de forma difusa, sentimentos que não encontravam acolhimento político a falta de representação de muitos segmentos, o individualismo, o empreendedorismo e conservadorismo nos costumes. Esse conjunto de elementos ganhou com Bolsonaro um slogan unificador-"Deus, Pátria e Família"-e elegeu diversos nomes afins ao bolsonarismo, sem subordinação direta a um único líder. Juntos, federalizaram uma identidade nacional de caráter conservador, empreendedor e antipetista que gerou uma nova hegemonia.  Lula, recuperado por interesses empresariais, com sua imagem e capacidade política, conseguiu em 2022 evitar que o PT fosse enterrado no Brasil. Mas em 2026 só consegue reduzir os danos- principalmente porque também tem um discurso antigo contra liberdade,  mídia sociais e cartões de crédito e, desde 2018, quando conseguem,  as transformações sociais e eleitorais em curso vêm sendo contidas pela força, não pelo diálogo. O essencial que a esquerda não entende: as eleições de 2026 não são apenas uma disputa entre candidatos, mas o desdobramento de uma transformação hegemônica que continua em curso. A eleição do dia 25 de outubro não encerra esse processo ganhando Flávio Bolsonaro ou não. Pois o lulopetismo vai usar todas as armas para se manter. Porém, o que ocorreu no último domingo- a saída de cena de praticamente todos os nomes relevantes que defendiam o lulopetismo- não deixa dúvidas sobre o futuro. É o sintoma do nascimento de uma nova hegemonia, de uma mudança nas próprias bases sobre as quais o poder político brasileiro se constrói. Esta mudança está apenas no começo. É o novo afastando o velho do cenário.