O QUE ELES SABIAM E O QUE
EU SEI
Silvio Persivo
Sei que vivemos no país
do sobrenatural, mas, às vezes, no Brasil, o sobrenatural consegue ser mais
sobrenatural que ele mesmo. Sou economista, profissão que nos obriga a pensar
em dinheiro e a seguir o dinheiro para observar a tendência das coisas. Procuro
pensar racionalmente o que significa, na prática, usar o passado para antever
as tendências do futuro.
Considerando que vivemos
num país em que 84% das famílias estão endividadas, em que as contas públicas
não têm controle, em que as taxas de juros estão entre as mais altas do mundo e
em que a inflação faz a dona de casa constatar, a cada semana, que o carrinho
do supermercado traz cada vez menos pelo mesmo valor, era natural, como ensina
a própria história política, que, com a alta desaprovação do governo, a eleição
fosse vencida pela oposição. As pesquisas disponíveis apontavam nessa direção,
assim como a vitória da oposição no primeiro turno e, principalmente, o
Polymart, site de mercado preditivo de apostas no qual se aposta sobre quem
vencerá a eleição. Por meses, ele mostrava índices acima de 70% e 80% para a
vitória da oposição. O Brasil, porém,
não é para principiantes, já advertia o nosso grande maestro Antonio Carlos
Jobim. Depois das 17h do domingo da eleição, após uma paralisação de duas horas
na contagem da apuração, o que aconteceu? O Polymart, inesperadamente, deu uma
guinada espetacular e passou a apontar a vitória do governo! Para se apostar
tanto dinheiro na reversão de uma posição consolidada, é preciso saber algo que
o cidadão comum não sabe (nem eu, diga-se de passagem). Quando vi a mudança,
não tive dúvidas de que a eleição havia mudado de rumo, embora, no dia
anterior, os relatórios das pesquisas tivessem apontado que isso seria,
probabilisticamente, improvável. Quem apostou alto na reviravolta sabia das
coisas e ou, sem dúvida, faz parte da elite nacional.
Não brigo com a
realidade. Mas sei que tudo tem um custo, pois não há almoço grátis. A
segunda-feira começou com a fatura: circuit breaker na bolsa e dólar nas
alturas. Virão tempos bem mais difíceis para os brasileiros, e todos pagarão a
conta. Nem todos, é claro, mas a população em geral e muitos dos que hoje
comemoram. As contas públicas não podem fugir da realidade, e dinheiro não
nasce em árvores. Com o déficit público aumentando, até os economistas que
defendem o governo terão de constatar que os juros não cairão e que será
preciso elevar impostos e arrecadar mais. Somado a isso, com a aprovação, sem
ganho de produtividade, do fim da escala 6x1 e a farta distribuição de benesses
no segundo turno, a inflação tende a subir e, não será improvável, que o
governo passe a descumprir seus compromissos.
Os problemas de caixa já começam a acenar com suas mãozinhas
devastadoras. E 2007 está bem aí, com sinais evidentes de tempos muito mais
difíceis. Muitos terão que matar um leão por dia e não será suficiente. Não
posso ser responsável pelo que não controlo, mas posso escolher como reajo a
isso. Amor fati.



