quarta-feira, 4 de novembro de 2026

A Lenta Desagregação de Um Projeto de Poder

 


O FIM DE UM CICLO

(ou Por que a esquerda não entende o país)

Silvio Persivo

Nem uma derrota esmagadora, como a do último domingo (04), faz os esquerdistas infantis enxergarem o óbvio. Eles repetem chavões como papagaios, sem raciocinar. Não compreendem que foram eles mesmos que criaram o bolsonarismo- por não entenderem as transformações do mundo-e insistem em reduzir esse fenômeno à figura individual de Jair Bolsonaro. É de Gramsci o conceito de hegemonia, que explica como uma visão de mundo se transforma em projeto político, cultural e institucional. Hegemonia não se conquista apenas tomando o poder: constrói-se gerando consensos, ocupando espaços e tornando um projeto majoritário dentro da sociedade. Esta é a chave para interpretar a trajetória recente da política brasileira. O lulismo construiu um projeto hegemônico que, a partir de 2002, com a eleição de Lula, chegou ao poder justamente por criar esses consensos- e se solidificou com a reeleição de Lula e a eleição de Dilma Rousseff. Por meio da promessa de políticas sociais, seu discurso conquistou universidades, imprensa, professores, intelectuais e outros segmentos organizados da sociedade.

Mas o projeto tinha um ponto frágil e decisivo: não se faz desenvolvimento sem iniciativa privada nem apenas pelo consumo. É preciso segurança jurídica e apoio ao empreendedorismo para gerar crescimento real. O lulismo escolheu outro caminho: ofereceu crédito para turbinar o consumo para uma população sem  educação financeira. E a população "meteu os pés pelas mãos": recorde de endividamento, com 82% das famílias brasileiras endividadas e 30% com contas atrasadas. Não por acaso, já em 2013 vieram os sinais de esgotamento, com enormes manifestações públicas. Desde então, o PT vem perdendo progressivamente sua hegemonia, com imensa dificuldade de reconstruir um discurso capaz de unir a sociedade novamente.

Enquanto isso, o mundo também se transformava as mídias sociais mudaram a forma de organizar o debate público; a interiorização econômica criou e fortaleceu o agronegócio e desemprego e o aumento dos informais destruiu as classes tradicionais. Estas mudanças geraram uma crise de hegemonia que o lulismo não entendeu- e, ao tentar submeter os insurgentes pela força, abriu justamente o espaço para o bolsonarismo emergir. A partir de 2015, o movimento popular que levou ao impeachment de Dilma reuniu, de forma difusa, sentimentos que não encontravam acolhimento político a falta de representação de muitos segmentos, o individualismo, o empreendedorismo e conservadorismo nos costumes. Esse conjunto de elementos ganhou com Bolsonaro um slogan unificador-"Deus, Pátria e Família"-e elegeu diversos nomes afins ao bolsonarismo, sem subordinação direta a um único líder. Juntos, federalizaram uma identidade nacional de caráter conservador, empreendedor e antipetista que gerou uma nova hegemonia.  Lula, recuperado por interesses empresariais, com sua imagem e capacidade política, conseguiu em 2022 evitar que o PT fosse enterrado no Brasil. Mas em 2026 só consegue reduzir os danos- principalmente porque também tem um discurso antigo contra liberdade,  mídia sociais e cartões de crédito e, desde 2018, quando conseguem,  as transformações sociais e eleitorais em curso vêm sendo contidas pela força, não pelo diálogo. O essencial que a esquerda não entende: as eleições de 2026 não são apenas uma disputa entre candidatos, mas o desdobramento de uma transformação hegemônica que continua em curso. A eleição do dia 25 de outubro não encerra esse processo ganhando Flávio Bolsonaro ou não. Pois o lulopetismo vai usar todas as armas para se manter. Porém, o que ocorreu no último domingo- a saída de cena de praticamente todos os nomes relevantes que defendiam o lulopetismo- não deixa dúvidas sobre o futuro. É o sintoma do nascimento de uma nova hegemonia, de uma mudança nas próprias bases sobre as quais o poder político brasileiro se constrói. Esta mudança está apenas no começo. É o novo afastando o velho do cenário.

 

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