O FIM DE UM CICLO
(ou
Por que a esquerda não entende o país)
Silvio Persivo
Nem uma derrota
esmagadora, como a do último domingo (04), faz os esquerdistas infantis
enxergarem o óbvio. Eles repetem chavões como papagaios, sem raciocinar. Não
compreendem que foram eles mesmos que criaram o bolsonarismo- por não
entenderem as transformações do mundo-e insistem em reduzir esse fenômeno à
figura individual de Jair Bolsonaro. É de Gramsci o conceito de
hegemonia, que explica como uma visão de mundo se transforma em projeto
político, cultural e institucional. Hegemonia não se conquista apenas tomando o
poder: constrói-se gerando consensos, ocupando espaços e tornando um projeto
majoritário dentro da sociedade. Esta é a chave para interpretar a trajetória
recente da política brasileira. O lulismo construiu um projeto hegemônico que,
a partir de 2002, com a eleição de Lula, chegou ao poder justamente por criar
esses consensos- e se solidificou com a reeleição de Lula e a eleição de Dilma
Rousseff. Por meio da promessa de políticas sociais, seu discurso conquistou universidades,
imprensa, professores, intelectuais e outros segmentos organizados da
sociedade.
Mas o projeto tinha um
ponto frágil e decisivo: não se faz desenvolvimento sem iniciativa privada
nem apenas pelo consumo. É preciso segurança jurídica e apoio ao
empreendedorismo para gerar crescimento real. O lulismo escolheu outro caminho:
ofereceu crédito para turbinar o consumo para uma população sem educação financeira. E a população "meteu
os pés pelas mãos": recorde de endividamento, com 82% das famílias
brasileiras endividadas e 30% com contas atrasadas. Não por acaso,
já em 2013 vieram os sinais de esgotamento, com enormes manifestações públicas.
Desde então, o PT vem perdendo progressivamente sua hegemonia, com imensa
dificuldade de reconstruir um discurso capaz de unir a sociedade novamente.
Enquanto isso, o mundo
também se transformava as mídias sociais mudaram a forma de organizar o
debate público; a interiorização econômica criou e fortaleceu o
agronegócio e desemprego e o aumento dos informais destruiu as classes
tradicionais. Estas mudanças geraram uma crise de hegemonia que o
lulismo não entendeu- e, ao tentar submeter os insurgentes pela força, abriu
justamente o espaço para o bolsonarismo emergir. A partir de 2015, o movimento
popular que levou ao impeachment de Dilma reuniu, de forma difusa, sentimentos
que não encontravam acolhimento político a falta de representação de muitos
segmentos, o individualismo, o empreendedorismo e conservadorismo nos costumes.
Esse conjunto de elementos ganhou com Bolsonaro um slogan unificador-"Deus,
Pátria e Família"-e elegeu diversos nomes afins ao bolsonarismo, sem
subordinação direta a um único líder. Juntos, federalizaram uma identidade
nacional de caráter conservador, empreendedor e antipetista que gerou uma nova
hegemonia. Lula, recuperado por interesses
empresariais, com sua imagem e capacidade política, conseguiu em 2022 evitar
que o PT fosse enterrado no Brasil. Mas em 2026 só consegue reduzir os
danos- principalmente porque também tem um discurso antigo contra
liberdade, mídia sociais e cartões de
crédito e, desde 2018, quando conseguem, as transformações sociais e eleitorais em
curso vêm sendo contidas pela força, não pelo diálogo. O essencial que a
esquerda não entende: as eleições de 2026 não são apenas uma disputa entre
candidatos, mas o desdobramento de uma transformação hegemônica que
continua em curso. A eleição do dia 25 de outubro não encerra esse processo
ganhando Flávio Bolsonaro ou não. Pois o lulopetismo vai usar todas as armas
para se manter. Porém, o que ocorreu no último domingo- a saída de cena de
praticamente todos os nomes relevantes que defendiam o lulopetismo- não deixa
dúvidas sobre o futuro. É o sintoma do nascimento de uma nova hegemonia,
de uma mudança nas próprias bases sobre as quais o poder político brasileiro se
constrói. Esta mudança está apenas no começo. É o novo afastando o velho do
cenário.

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