IA VAI ROUBAR SEU EMPREGO? O QUE OS DADOS MOSTRAM SOBRE O MERCADO DE TRABALHO ATÉ 2030
Virgilio Marques dos Santos (*) |
Fundador de startup de educação reúne evidências sobre o futuro do trabalho para mostrar onde estão os riscos — e também as oportunidades |
O Fórum Econômico Mundial projeta que o mercado de trabalho global termine 2030 com 78 milhões de vagas a mais do que hoje: serão 170 milhões de postos criados e 92 milhões extintos. O dado contraria o discurso de desemprego em massa que costuma dominar as discussões sobre inteligência artificial. Para Virgilio Marques dos Santos, sócio-fundador da FM2S, startup de educação sediada no Parque Científico e Tecnológico da Unicamp, e PhD pela Unicamp, o principal desafio está na velocidade com que as competências exigidas pelo mercado evoluem. O levantamento ouviu mais de mil empregadores, que representam cerca de 14 milhões de trabalhadores em 22 setores e 55 economias, e estima que 22% dos empregos atuais passem por algum tipo de transformação até 2030. A partir desses dados e de outros estudos sobre o futuro do trabalho, Santos destaca cinco pontos que considera essenciais para interpretar o cenário. 1. Mais vagas do que perdas Embora a inteligência artificial seja frequentemente associada à eliminação de postos de trabalho, as projeções indicam um movimento mais amplo de transformação do mercado. "A conta tem dois lados, e o debate costuma mostrar só um. O emprego cresce. O que muda é a composição dele, e é aí que as decisões de carreira passam a fazer diferença", afirma Santos. 2. O desafio das competências O impacto mais profundo da transformação projetada para os próximos anos recai sobre as habilidades exigidas pelas empresas. Segundo o estudo, 39% das competências atuais devem passar por mudanças até 2030. "Fui atrás da série histórica e encontrei um detalhe pouco comentado. Esse percentual era de 57% em 2020 e caiu para 44% em 2023. Hoje está em 39%. A mudança continua intensa, mas perdeu velocidade, em parte porque metade dos trabalhadores já passou por algum processo de requalificação. Quem permanece preso às competências antigas tende a perder espaço", observa o especialista. 3. Cargos que encolhem são específicos A lista das ocupações em queda mostra que a transformação já alcança diferentes áreas da economia. Além de funções administrativas e operacionais, profissões criativas começam a aparecer entre as mais impactadas pela IA. "Caixa, bilheteiro, assistente administrativo, secretária executiva, escriturário de banco, digitador e funcionário dos Correios já apareciam entre os cargos em queda. Desta vez, o que mais chamou minha atenção foi a entrada do designer gráfico. Isso mostra que a transformação também alcança atividades criativas e reforça a importância de desenvolver novas habilidades para acompanhar esse mercado em constante mudança", avalia. 4. Os setores que crescem O mercado também cresce em ritmos diferentes, dependendo do indicador analisado. As carreiras ligadas à inteligência artificial, big data, engenharia de fintech e desenvolvimento de software lideram o crescimento percentual. Em volume absoluto de vagas, porém, saúde, educação, assistência social, construção, vendas e trabalho rural concentram a maior demanda prevista. "São duas leituras diferentes sobre o mercado. Uma mostra as profissões que crescem mais rapidamente em termos proporcionais; a outra revela onde estarão as maiores oportunidades de emprego. Observar apenas uma delas leva a conclusões incompletas", explica. 5. O que as empresas procuram Pensamento analítico lidera a lista de competências mais valorizadas pelas empresas, seguido por resiliência, flexibilidade e liderança. Para Santos, acompanhar essa evolução é mais estratégico do que tentar prever quais profissões deixarão de existir. "Quando a planilha eletrônica chegou, o contador deixou de gastar tempo fazendo contas e passou a dedicar mais energia à análise. Toda grande mudança tecnológica reorganiza o trabalho. A pergunta que vale fazer deixou de ser se a inteligência artificial vai acabar com o emprego e passou a ser quais competências cada profissional precisa desenvolver para continuar relevante. Quem acompanha essa transformação toma decisões de carreira com muito mais clareza; quem espera a profissão mudar para só depois agir costuma correr atrás do prejuízo", conclui. (*) é PhD em Engenharia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Master Black Belt em Lean Seis Sigma e sócio-fundador da FM2S Educação e Consultoria. |
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