VOCÊ NÃO PERCEBEU, MAS A
LÓGICA DAS APOSTAS JÁ ORGANIZA SUA VIDA DIGITAL
Por Sofia
Marshallowitz (*)
Pare
de tratar o debate sobre apostas digitais como um problema isolado de cassinos
online. O que está em curso não é apenas a popularização das bets, mas a
expansão de uma lógica de recompensa variável para quase todas as experiências
digitais. Estudar, consumir, investir, trabalhar e até se relacionar passaram a
operar sob mecanismos que estimulam repetição, expectativa e retorno imediato.
Eu tendo a achar que ainda usamos a palavra “gamificação” com certa inocência,
como se estivéssemos falando apenas de pontos, medalhas e rankings. Mas o
ambiente digital atual já ultrapassou essa fase. O que vemos agora é uma
arquitetura comportamental orientada por algoritmos capazes de aprender quais
estímulos mantêm cada usuário conectado por mais tempo.
Isso
não significa que toda gamificação seja nociva. Ignorar seus benefícios seria
simplificar um fenômeno muito mais complexo. Plataformas educacionais
conseguiram aumentar engajamento e disciplina justamente porque transformaram
progresso em algo visível, contínuo e recompensador. O Duolingo informou em seu
balanço de 2025 ter ultrapassado 50 milhões de usuários ativos diários e mais
de US$ 1 bilhão em bookings no ano, impulsionado por mecanismos como metas,
streaks e recompensas progressivas. O problema começa quando essa lógica deixa
de servir à construção de hábitos positivos e passa a funcionar como ferramenta
de retenção comportamental. Quando notificações, quase-vitórias e recompensas
imprevisíveis deixam de incentivar aprendizado ou constância e passam a ser
calibradas para estimular repetição emocional e permanência contínua nas
plataformas.
A
escala disso ajuda a explicar por que o tema merece ser tratado como questão
estrutural. Segundo o IBGE, o Brasil chegou a 74,9 milhões de domicílios com
internet em 2024, o equivalente a 93,6% das residências do país. No mesmo
período, 167,5 milhões de brasileiros possuíam celular para uso pessoal. Nesse
ambiente, cada clique produz dados capazes de alimentar modelos de
personalização extremamente precisos. Um estudo publicado na revista PLOS
Digital Health (originalmente disponível como pré-print no arXiv)
mostrou que modelos de linguagem conseguem detectar padrões linguísticos
associados a problem gambling em textos de fóruns (chegando a cerca de 0,95 em
métricas de classificação em alguns experimentos). Se sistemas já
conseguem identificar vulnerabilidade comportamental com esse grau de
assertividade, parece ingênuo imaginar que grandes plataformas não usem
mecanismos semelhantes para otimizar retenção e recorrência.
Os
números ligados ao mercado de apostas ajudam a revelar o tamanho financeiro
desse modelo. Segundo estudo técnico do Banco Central, as transferências
mensais via Pix para empresas de apostas online variaram entre R$ 18 bilhões e
R$ 21 bilhões entre janeiro e agosto de 2024. O BC estimou ainda que cerca de
24 milhões de brasileiros fizeram ao menos uma transferência para plataformas
do setor. Eu acho que esses dados revelam algo maior do que apenas o
crescimento das bets. Revelam a força econômica de sistemas desenhados para
estimular repetição emocional e permanência contínua. E essa lógica já
atravessa fintechs, redes sociais, plataformas de consumo e aplicativos de
produtividade.
Muita
gente responde a esse debate dizendo que usuários continuam livres para
escolher. Formalmente, é verdade. Mas liberdade individual se torna um conceito
insuficiente quando plataformas operam com assimetria massiva de informação e
capacidade algorítmica de previsão comportamental. Segundo a Organização
Mundial da Saúde, 1,2% da população adulta mundial vive com transtorno de jogo.
Não estamos falando apenas de impulsividade humana. Estamos falando de
ambientes digitais desenhados para aumentar permanência, frequência e
intensidade de interação.
Precisamos
abandonar a pergunta simplista sobre o que é ou não aposta. Essa fronteira
ficou estreita demais para explicar o funcionamento da economia digital
contemporânea. A discussão relevante agora é entender quais comportamentos as
plataformas estão treinando, quais dados utilizam para fazer isso e quais
limites éticos devem existir nesse processo. Sistemas digitais deixaram de
apenas responder ao comportamento humano e passaram a moldá-lo de forma ativa.
(*) é cientista
de dados, pesquisadora
Ilustração: Upnify CRM.
Nenhum comentário:
Postar um comentário