segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

O Impacto da IA no Futuro Corporativo

 


O futuro corporativo impulsionado pela IA em 2026

por Rodrigo Costa, CTO & Head de Digital Business da Kron Digital


A Inteligência Artificial entra em um período de maturidade e passa a ocupar posição central nas estratégias corporativas, substituindo iniciativas experimentais por aplicações concretas que reorganizam operações, aprimoram a tomada de decisões e reconfiguram a dinâmica competitiva entre empresas. O foco deixa de estar restrito à automação de tarefas e avança para o uso inteligente de dados, criando ambientes de aprendizado contínuo e maior precisão nas decisões de negócio.

A consolidação desse novo ciclo aparece em análises de mercado que indicam uma adoção acelerada da tecnologia. Projeções da Gartner estimam que mais de 80% das organizações utilizarão IA de maneira estruturada até 2026, número muito superior aos cerca de 5% registrados em 2023. No mesmo período, aproximadamente 80% dos softwares comerciais incluirão recursos generativos. Estudos da McKinsey mostram que empresas que integram IA em múltiplas frentes de operação percebem aumentos de produtividade entre 20% e 30%, o que reforça a relevância estratégica.


Expansão da IA generativa


O avanço da IA generativa amplia o alcance da inovação tecnológica e facilita o desenvolvimento de soluções internas. Plataformas no-code e low-code criam oportunidades para que empresas de diferentes portes implementem soluções com maior agilidade e menor dependência de equipes especializadas. Levantamento da IDC aponta que 53% das organizações brasileiras já adotam essa abordagem como prioridade estratégica.

Essa ampliação pode ser observada também na evolução do uso corporativo. A pesquisa conduzida pela McKinsey revela que a aplicação consistente da IA generativa praticamente dobrou em menos de um ano, com dois terços das empresas utilizando a tecnologia de maneira regular em áreas operacionais e de suporte. Esse ritmo evidencia um movimento contínuo de integração tecnológica e não mais iniciativas isoladas.


Agentes autônomos em evolução


O crescimento dos agentes autônomos de IA inaugura uma nova dinâmica nas relações de consumo e transação digital. Estimativas da Gartner indicam que três bilhões de dispositivos conectados já atuam como compradores em ecossistemas B2B, com previsão de alcançar oito bilhões até 2030.

Essa dinâmica altera a forma como empresas se relacionam com clientes e fornecedores e reduz gradualmente a dependência de buscas tradicionais, que devem recuar aproximadamente 25% até 2026. As organizações que estruturarem sistemas capazes de negociar, comparar e executar transações de maneira autônoma poderão ocupar posições competitivas mais sólidas.


Transformação em setores essenciais


Os efeitos da IA tornam-se cada vez mais evidentes em segmentos estratégicos da economia e já influenciam a forma como produtos e serviços são concebidos. Na área da saúde, sistemas inteligentes passam a apoiar diagnósticos por imagem e decisões clínicas de maneira integrada ao fluxo de trabalho médico, contribuindo para maior precisão e agilidade. Essa evolução acompanha o crescimento de um mercado que pode ultrapassar US$ 187 bilhões até 2030, impulsionado pela combinação entre análise avançada de dados, automação e suporte assistivo aos profissionais.

A educação também avança para um modelo orientado por hiperpersonalização. Plataformas adaptativas permitem construir jornadas de aprendizagem ajustadas às necessidades e ao ritmo de cada estudante, com ganhos de eficiência que podem chegar a 50% segundo estudos da McKinsey. O papel dos educadores passa a ser mais estratégico, concentrado em acompanhamento, orientação e desenvolvimento de habilidades humanas, enquanto a tecnologia assume parte das tarefas repetitivas e analíticas.

O agronegócio segue trajetória semelhante com o uso crescente de sensores conectados, imagens de satélite e algoritmos preditivos aplicados ao monitoramento de safras, análise de solo e gestão de recursos. A combinação de dados e automação oferece suporte a decisões mais precisas, reduz desperdícios e fortalece práticas sustentáveis, consolidando o setor como laboratório ativo para inovação tecnológica e produtividade em escala.


Estruturas de governança como suporte de confiança


A ampliação do uso corporativo da IA coloca a governança no centro das decisões estratégicas. Transparência, explicabilidade e proteção de dados tornam-se elementos prioritários, especialmente diante do aumento do volume de informações sensíveis e do potencial impacto de decisões automatizadas. Estruturas de governança robustas ajudam a prevenir modelos tendenciosos, garantir controle sobre os resultados gerados e preservar a integridade das operações digitais.

O avanço da regulamentação brasileira aponta para a necessidade de práticas capazes de garantir responsabilidade e supervisão humana contínua. A construção de confiança com clientes, investidores e colaboradores depende de mecanismos claros de auditoria e monitoramento, assegurando que a autonomia tecnológica esteja alinhada aos valores corporativos e aos parâmetros éticos de mercado. Nesse cenário, a governança deixa de ser componente adicional e passa a orientar a adoção segura e sustentável da IA no ambiente empresarial.


Sustentabilidade como critério tecnológico


O crescimento do uso de tecnologias intensivas em dados e processamento amplia a preocupação com o impacto ambiental. A modernização dos data centers, aliada a novos métodos de processamento mais eficiente, permite equilibrar desempenho e responsabilidade ambiental, especialmente diante da crescente discussão sobre consumo energético e emissões geradas por modelos avançados de IA. Nesse contexto, soluções projetadas para eficiência energética ganham espaço nos critérios de seleção tecnológica.

O uso de dados sintéticos, apontado pela Gartner como alternativa relevante para reduzir a necessidade de grandes bases de dados reais, reforça esse movimento ao viabilizar experimentação e desenvolvimento de modelos com menor demanda de infraestrutura. Sustentabilidade e inovação deixam de ocupar esferas separadas e passam a definir decisões estratégicas, acompanhando o avanço das práticas de ESG nas avaliações de investimentos tecnológicos.


Direcionamento estratégico para 2026


A evolução da inteligência artificial no ambiente corporativo sinaliza uma fase em que o diferencial competitivo não estará restrito ao acesso à tecnologia, mas à capacidade de incorporá-la de forma estratégica e consistente ao longo dos processos de negócio. O avanço para modelos mais autônomos exige que as empresas desenvolvam estruturas internas capazes de acompanhar o ritmo das inovações, com governança sólida, integração sistêmica e adaptação contínua. O futuro da tecnologia nas organizações dependerá de ecossistemas preparados para aprender e se transformar de maneira permanente.

Essa trajetória envolve a formação de competências que permitam converter potencial tecnológico em valor real. Iniciativas de educação tecnológica, programas estruturados de qualificação e ambientes corporativos que favoreçam colaboração entre profissionais e sistemas inteligentes constituem bases essenciais para sustentação desse movimento. O horizonte aponta para um cenário em que a integração progressiva entre pessoas e IA se torna determinante para a construção de resultados consistentes e para a consolidação de uma cultura orientada à inovação de longo prazo.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Talvez sirva para você, ao menos, refletir

 


O poder de começar pequeno

Por Marcelo do Rego (*)

Há dias que marcam a vida. Para mim, esse dia foi 24 de dezembro de 2018. Enquanto o mundo vibrava com o brilho do Natal, eu encarava o espelho interno que evitara por anos. A pergunta que rondava minha mente era direta, quase crua: que pai gostaria ser para meus gêmeos, Joaquim e Samuel, estando mergulhado na responsabilização do externo, em ressentimentos e nos fantasmas dos traumas do passado?

Sabia que não podia continuar sendo o mesmo homem que colecionava promessas vazias, aquelas que começam com “segunda-feira eu mudo” e terminam no mesmo abismo de sempre. Precisava fazer algo, qualquer coisa. E a verdade é que, quando tudo parece demais, o simples se torna o único caminho possível.

Foi então que as perguntas, as ferramentas silenciosas da consciência, começaram a cutucar meus medos. Pensei comigo, o que eu posso fazer, com o que eu tenho aqui, agora? A resposta não veio em forma de um plano grandioso. Olhando para a mesa de jantar, tomei uma decisão que parecia simples, mas na realidade, lá na frente, mudaria tudo: eu deixaria de tomar o refrigerante que mais gostava por 30 dias.

Parece pouco? Para alguns, talvez. Para mim, era como mover uma montanha. Não pelo refrigerante em si, mas pelo que ele representava: costume automático, afeto infantil, fuga rápida, anestesia. Nos dias seguintes, comecei a perceber que me sentia menos inchado e mais disposto. Surpreendentemente, mexendo em um hábito, outros começaram a se rearrumar.

Foi aí que entendi o padrão. E padrões, quando reconhecidos, deixam de ser prisão e viram mapa. Comecei pequeno, mudando um hábito. Depois, abandonei o açúcar como um todo, passei a tomar banhos gelados pra despertar o corpo, a ler mais pela manhã, a meditar, a escrever em um diário... Um fio puxa o outro, até que percebi que estava tecendo uma vida nova.

Enquanto eu mudava, o mundo ao redor reagia, com algumas pessoas apoiando, outras debochando, outras tentando me puxar de volta para o “normal” que sempre me fez mal. A verdade é que crescer incomoda quem está parado. Também descobri algo profundo: somos feitos dos ambientes que escolhemos. Ande com quem busca saúde, e logo você estará cuidando do seu bem-estar. Caminhe com quem se destrói, e a queda vira rotina.

E assim, passo a passo, hábito a hábito, comecei a reencontrar o pai que meus filhos merecem, o homem que eu queria ser, a vida que eu ainda podia construir. Hoje, olho para trás e vejo que não foi a ausência de um refrigerante que mudou meu destino. Foi a coragem de começar pequeno. Foi a lucidez de assumir que só poderia mudar com o que eu tenho, aqui, agora. Foi a escolha de abandonar a versão cinza de mim mesmo para dar chance a algo mais vivo, mais inteiro, mais presente.

No fim, percebi que toda grande transformação, aquela que resgata, que fortalece, que devolve o brilho, nasce de um gesto quase imperceptível. E talvez outras pessoas estejam agora exatamente no ponto onde eu estive naquele Natal. Para elas, ou para você que me lê agora, faço a pergunta que mudou a minha vida: qual decisão simples você pode tomar agora e que lá na frente pode mudar tudo?

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(*)  é pai de gêmeos, maratonista, empreendedor e palestrante, autor de “Do Tarja Preta à São Silvestre