Entre a luz e as sombras, habitamos o
agora a caminho do infinito
by Samuel Saraiva
A fotografia revela
apenas uma estação vazia, envolta em luz e sombra, onde a arquitetura metálica
se impõe como uma grande abóbada silenciosa. É a geometria do vazio que se
oferece ao olhar: linhas que não apenas sustentam o espaço, mas parecem guardar
a memória do tempo. Ali, tudo existe antes da forma e depois do tempo, como se
o instante tivesse aprendido a respirar.
Ao centro, uma figura
humana avança. Caminha sem nome, sem rosto, quase dissolvida na claridade. É
alguém - e são todos. Um corpo em trânsito, símbolo de uma travessia sem nome,
seguindo o caminho antes do caminho. Não atravessa apenas uma plataforma, mas
um estado de existência. A solidão ali não pesa; ela se revela, discreta, como
a solidão compartilhada de todos os que passam.
A luz que desce pela
cobertura rasga o espaço e desenha sombras longas no chão. Há um contraste que
não fere, apenas sugere. Como se o tempo, cansado de correr, tivesse decidido
pausar. Quando o tempo respira, o lugar deixa de ser passagem e se transforma
em intervalo -uma pausa entre mundos, o espaço invisível onde algo se desloca
sem anunciar-se.
Os trilhos paralelos
permanecem vazios. Não há trem, não há ruído -apenas a promessa. São linhas de
espera, de deslocamento contido, de futuro suspenso. O lugar onde nada parte e,
ainda assim, tudo está prestes a acontecer. Entre partidas e o infinito,
compreendemos que partir nem sempre é mover-se; às vezes é apenas aceitar o
silêncio.
Há, contudo, lapsos.
Brechas no tecido do real. Momentos em que a solidão parece ceder e algo-não
visível, não definido- caminha ao nosso lado. Presenças que se aproximam por
desígnios que não controlamos ou por escolhas feitas sem plena consciência.
Permanecem por um tempo incerto, cumprindo uma função que raramente
compreendemos enquanto acontece.
Essas energias
desconhecidas não chegam para permanecer. Aproximam-se e se afastam, tocando
brevemente o percurso antes de retomarem sua própria órbita. A aproximação e o
distanciamento fazem parte da dinâmica da jornada, num universo onde nada é
estático e onde os vínculos, por mais intensos que pareçam, são frágeis e
transitórios-ainda que relutemos em admitir. São como tênues centelhas de luz,
que mal permitem iluminar a consciência de nossa insignificância diante do
universo infinito. É nesse desencontro entre a fluidez do existir e o desejo
humano de permanência que o apego nasce. E quando ignora a consciência da
efemeridade, deixa de ser laço e passa a ferir a alma.
Seguimos, então. Entre a
luz e o antes.
Seguimos. Ainda.
Da luz ao agora,
caminhamos rumo ao eterno, entre tempestades e calmarias.
Quase imperceptíveis,
como ecos que atravessam a leitura.
Nada se impõe; tudo
sussurro.
- A leitura da realidade
deve ser orientada pela honestidade intelectual e pela consciência dos limites
da razão humana. Em sua perspectiva micro, ela é sempre parcial e própria do
sujeito, não dos demais, e não garante, por si só, uma visão macro ou uma interpretação
profunda do real. Tal postura exige vigilância crítica contra reducionismos
dogmáticos, inclusive aqueles expressos sob a forma de realismo ou positivismo
absolutos, bem como o enfrentamento dos impulsos instintivos não educados da
natureza humana. Essa atitude não denota fraqueza epistemológica, mas expressa
humildade reflexiva e maturidade ética diante da complexidade do real.
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