sábado, 10 de janeiro de 2026

A leitura do real deve ser orientada pela honestidade intelectual

 


Entre a luz e as sombras, habitamos o agora a caminho do infinito

by Samuel Saraiva

A fotografia revela apenas uma estação vazia, envolta em luz e sombra, onde a arquitetura metálica se impõe como uma grande abóbada silenciosa. É a geometria do vazio que se oferece ao olhar: linhas que não apenas sustentam o espaço, mas parecem guardar a memória do tempo. Ali, tudo existe antes da forma e depois do tempo, como se o instante tivesse aprendido a respirar.

Ao centro, uma figura humana avança. Caminha sem nome, sem rosto, quase dissolvida na claridade. É alguém - e são todos. Um corpo em trânsito, símbolo de uma travessia sem nome, seguindo o caminho antes do caminho. Não atravessa apenas uma plataforma, mas um estado de existência. A solidão ali não pesa; ela se revela, discreta, como a solidão compartilhada de todos os que passam.

A luz que desce pela cobertura rasga o espaço e desenha sombras longas no chão. Há um contraste que não fere, apenas sugere. Como se o tempo, cansado de correr, tivesse decidido pausar. Quando o tempo respira, o lugar deixa de ser passagem e se transforma em intervalo -uma pausa entre mundos, o espaço invisível onde algo se desloca sem anunciar-se.

Os trilhos paralelos permanecem vazios. Não há trem, não há ruído -apenas a promessa. São linhas de espera, de deslocamento contido, de futuro suspenso. O lugar onde nada parte e, ainda assim, tudo está prestes a acontecer. Entre partidas e o infinito, compreendemos que partir nem sempre é mover-se; às vezes é apenas aceitar o silêncio.

Há, contudo, lapsos. Brechas no tecido do real. Momentos em que a solidão parece ceder e algo-não visível, não definido- caminha ao nosso lado. Presenças que se aproximam por desígnios que não controlamos ou por escolhas feitas sem plena consciência. Permanecem por um tempo incerto, cumprindo uma função que raramente compreendemos enquanto acontece.

Essas energias desconhecidas não chegam para permanecer. Aproximam-se e se afastam, tocando brevemente o percurso antes de retomarem sua própria órbita. A aproximação e o distanciamento fazem parte da dinâmica da jornada, num universo onde nada é estático e onde os vínculos, por mais intensos que pareçam, são frágeis e transitórios-ainda que relutemos em admitir. São como tênues centelhas de luz, que mal permitem iluminar a consciência de nossa insignificância diante do universo infinito. É nesse desencontro entre a fluidez do existir e o desejo humano de permanência que o apego nasce. E quando ignora a consciência da efemeridade, deixa de ser laço e passa a ferir a alma.

Seguimos, então. Entre a luz e o antes.

Seguimos. Ainda.

Da luz ao agora, caminhamos rumo ao eterno, entre tempestades e calmarias.

Quase imperceptíveis, como ecos que atravessam a leitura.

Nada se impõe; tudo sussurro.

- A leitura da realidade deve ser orientada pela honestidade intelectual e pela consciência dos limites da razão humana. Em sua perspectiva micro, ela é sempre parcial e própria do sujeito, não dos demais, e não garante, por si só, uma visão macro ou uma interpretação profunda do real. Tal postura exige vigilância crítica contra reducionismos dogmáticos, inclusive aqueles expressos sob a forma de realismo ou positivismo absolutos, bem como o enfrentamento dos impulsos instintivos não educados da natureza humana. Essa atitude não denota fraqueza epistemológica, mas expressa humildade reflexiva e maturidade ética diante da complexidade do real.

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