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Por
Rodrigo Dib
(*)
A
Índia deu um passo relevante no debate global sobre trabalho e educação.
No
Orçamento 2026–2027, o país não abandonou a criação de empregos, mas
reposicionou o eixo da política pública: passou a tratar empregabilidade-e
não apenas vagas criadas- como critério estruturante do planejamento
nacional.
O
movimento está registrado de forma objetiva no Discurso Oficial do
Orçamento apresentado pelo Ministério das Finanças indiano, que propõe a
criação de um “Education to Employment and Enterprise Standing Committee”,
um comitê permanente de alto nível para conectar educação, qualificação,
mercado de trabalho, tecnologia e crescimento econômico, com atenção
explícita ao impacto da inteligência artificial sobre o emprego e as
habilidades futuras (Union Budget 2026–27, Índia).
Esse
ponto é central: a mudança não nasce isoladamente nos ministérios
setoriais, mas no coração do Estado, via orçamento, que na Índia funciona
como instrumento de coordenação interministerial. Quando o orçamento define
o eixo, os ministérios se alinham.
A
escala da decisão indiana
A
Índia está discutindo empregabilidade em um país com uma das maiores redes
educacionais do planeta. Segundo dados oficiais do governo indiano (UDISE+
/ Press Information Bureau):
● ≈
248 milhões de estudantes na educação básica,
● ≈
1,47 milhão de escolas,
● ≈
9,8 milhões de professores.
No
ensino superior, o All India Survey on Higher Education (AISHE) registra ≈
43,3 milhões de estudantes matriculados.
No
mercado de trabalho, a Periodic Labour Force Survey (PLFS) indica:
● taxa
geral de desemprego de 3,2% (15 anos ou mais),
● desemprego
jovem (15–29 anos) de cerca de 10,2%.
Esses
números ajudam a entender a urgência: mesmo com crescimento econômico e
baixo desemprego agregado, a transição entre estudar e trabalhar segue
sendo um gargalo estrutural para milhões de jovens. A resposta indiana foi
tratar essa transição como infraestrutura nacional.
O
que o Brasil faz - e onde está a diferença
O
Brasil também opera em grande escala, mas com lógica fragmentada.
No
Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) 2026, o Ministério da Educação
deve concentrar cerca de R$ 233,4 bilhões, fortemente direcionados à
educação básica e à complementação da União ao Fundeb. A prioridade é
acesso, matrícula e permanência escolar. Já
a política de trabalho se ancora no Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT).
Para 2026, o CODEFAT aprovou um orçamento de R$ 130,4 bilhões, dos quais:
● R$
64,4 bilhões destinam-se ao Seguro-Desemprego,
● R$
33,7 bilhões ao Abono Salarial.
Ou
seja, trata-se de um fundo robusto, mas majoritariamente orientado à
proteção de renda após o desemprego, e não à reorganização estrutural da
transição educação–trabalho.
Os
dados recentes do IBGE (PNAD Contínua) mostram avanços importantes:
● taxa
média anual de desocupação de 5,6% em 2025,
● 103
milhões de pessoas ocupadas, recorde histórico.
Ainda
assim, o sistema brasileiro não possui um eixo único de governança que
conecte orçamento, educação, qualificação, tecnologia e demanda produtiva
de forma contínua. Cada área cumpre seu papel, mas a ponte entre elas
depende de programas pontuais, articulações locais ou iniciativas de curto
prazo.
Comitê
que conecta versus responsabilidades dispersas
Na
Índia, o comitê criado no orçamento tem atribuições claras, como:
● mapear
lacunas de habilidades por setor,
● antecipar
impactos da IA sobre empregos,
● propor
ajustes curriculares,
● estruturar
sistemas de “matching” entre formação, vagas e trabalhadores,
● tornar
visível o trabalho informal para facilitar mobilidade e proteção.
No
Brasil, não existe hoje uma instância com esse mandato transversal,
ancorada no orçamento e com poder de coordenação sistêmica. A
empregabilidade aparece como objetivo desejável, mas não como métrica
central que organiza o Estado.
O
que está em jogo
A
diferença entre os modelos não é ideológica, mas institucional.
A
Índia tenta reduzir uma fricção histórica: o tempo e o custo entre aprender
e gerar valor no trabalho. O risco desse caminho é conhecido- transformar
formação em trilho excessivamente guiado, com perda de autonomia. Mas o
país escolheu enfrentar o problema no centro do governo.
O
Brasil corre o risco oposto: manter bons programas, bons orçamentos e
indicadores agregados positivos, enquanto milhões de jovens continuam
perdidos na transição entre escola e trabalho, pagando o preço da
desarticulação institucional.
A
pergunta que a Índia colocou no coração do orçamento - e que o Brasil ainda
trata de forma lateral - é simples e incômoda:
Estamos
formando pessoas capazes de sustentar uma carreira ao longo da vida, ou
apenas administrando etapas desconectadas do sistema?
Enquanto
essa pergunta não virar eixo de Estado, seguiremos avançando -mas com
desperdício de talento, tempo e potencial humano.
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