O SILÊNCIO, O MEDO, A RAZÃO, A SOLIDÃO E O ABISMO
A VERDADE EM TEMPOS DE RUÍDO
A LUCIDEZ COMO COMPANHIA
NÃO ESTAMOS SÓS — APENAS DESENCONTRADOS
A DIGNIDADE DO REAL
QUANDO A CONSCIÊNCIA AINDA ILUMINA
PENSAR ANTES DO CAOS
CONCLUSÃO
A VERDADE EM TEMPOS DE RUÍDO
A LUCIDEZ COMO COMPANHIA
NÃO ESTAMOS SÓS — APENAS DESENCONTRADOS
A DIGNIDADE DO REAL
QUANDO A CONSCIÊNCIA AINDA ILUMINA
PENSAR ANTES DO CAOS
CONCLUSÃO
Entre a luz e as sombras, habitamos o
agora a caminho do infinito
by Samuel Saraiva
A fotografia revela
apenas uma estação vazia, envolta em luz e sombra, onde a arquitetura metálica
se impõe como uma grande abóbada silenciosa. É a geometria do vazio que se
oferece ao olhar: linhas que não apenas sustentam o espaço, mas parecem guardar
a memória do tempo. Ali, tudo existe antes da forma e depois do tempo, como se
o instante tivesse aprendido a respirar.
Ao centro, uma figura
humana avança. Caminha sem nome, sem rosto, quase dissolvida na claridade. É
alguém - e são todos. Um corpo em trânsito, símbolo de uma travessia sem nome,
seguindo o caminho antes do caminho. Não atravessa apenas uma plataforma, mas
um estado de existência. A solidão ali não pesa; ela se revela, discreta, como
a solidão compartilhada de todos os que passam.
A luz que desce pela
cobertura rasga o espaço e desenha sombras longas no chão. Há um contraste que
não fere, apenas sugere. Como se o tempo, cansado de correr, tivesse decidido
pausar. Quando o tempo respira, o lugar deixa de ser passagem e se transforma
em intervalo -uma pausa entre mundos, o espaço invisível onde algo se desloca
sem anunciar-se.
Os trilhos paralelos
permanecem vazios. Não há trem, não há ruído -apenas a promessa. São linhas de
espera, de deslocamento contido, de futuro suspenso. O lugar onde nada parte e,
ainda assim, tudo está prestes a acontecer. Entre partidas e o infinito,
compreendemos que partir nem sempre é mover-se; às vezes é apenas aceitar o
silêncio.
Há, contudo, lapsos.
Brechas no tecido do real. Momentos em que a solidão parece ceder e algo-não
visível, não definido- caminha ao nosso lado. Presenças que se aproximam por
desígnios que não controlamos ou por escolhas feitas sem plena consciência.
Permanecem por um tempo incerto, cumprindo uma função que raramente
compreendemos enquanto acontece.
Essas energias
desconhecidas não chegam para permanecer. Aproximam-se e se afastam, tocando
brevemente o percurso antes de retomarem sua própria órbita. A aproximação e o
distanciamento fazem parte da dinâmica da jornada, num universo onde nada é
estático e onde os vínculos, por mais intensos que pareçam, são frágeis e
transitórios-ainda que relutemos em admitir. São como tênues centelhas de luz,
que mal permitem iluminar a consciência de nossa insignificância diante do
universo infinito. É nesse desencontro entre a fluidez do existir e o desejo
humano de permanência que o apego nasce. E quando ignora a consciência da
efemeridade, deixa de ser laço e passa a ferir a alma.
Seguimos, então. Entre a
luz e o antes.
Seguimos. Ainda.
Da luz ao agora,
caminhamos rumo ao eterno, entre tempestades e calmarias.
Quase imperceptíveis,
como ecos que atravessam a leitura.
Nada se impõe; tudo
sussurro.
- A leitura da realidade
deve ser orientada pela honestidade intelectual e pela consciência dos limites
da razão humana. Em sua perspectiva micro, ela é sempre parcial e própria do
sujeito, não dos demais, e não garante, por si só, uma visão macro ou uma interpretação
profunda do real. Tal postura exige vigilância crítica contra reducionismos
dogmáticos, inclusive aqueles expressos sob a forma de realismo ou positivismo
absolutos, bem como o enfrentamento dos impulsos instintivos não educados da
natureza humana. Essa atitude não denota fraqueza epistemológica, mas expressa
humildade reflexiva e maturidade ética diante da complexidade do real.
2026 não será um ano de crescimento real, mas de adiamento
Por Marcos Gouvêa de Souza (*)
2026
deverá ser um ano de normalidade econômica com algum crescimento e mais um
ciclo de postergação com foco prioritário na próxima eleição. Será, na prática,
mais um ano de adiamento de decisões, de ajustes e de responsabilidades. As previsões mostram um crescimento inferior
ao do ano anterior – apesar de todos os estímulos já anunciados e implantados.
Alguns indicadores irão sustentar essa narrativa mas, por trás dela, o país
aprofunda desequilíbrios, posterga ajustes e transfere custos para os próximos
ciclos.
Em
anos pré-eleitorais, a economia costuma contar histórias melhores do que
aquelas que os fundamentos conseguem sustentar. Indicadores escolhidos
melhoram, a atividade se mantém em movimento e o discurso da evolução ganha
tração. Mas, por trás dessa visão mais favorável, acumulam-se tensões que não
desaparecem e apenas são adiadas.
Este
ano tende a ser marcado por um baixo crescimento econômico e, ainda assim,
artificialmente sustentado. A combinação de estímulos fiscais, expansão do
crédito direcionado, políticas de renda, programas de auxílio e investimentos
públicos com forte viés eleitoral devem manter a atividade em funcionamento,
ainda que com baixo crescimento nominal, ou mesmo desempenho real negativo,
quando deflacionados nos segmentos de varejo e consumo, como aconteceu em 2025.
Os
dados recentes de desempenho do final do ano envolvendo shoppings centers,
foodservice e varejo das lojas físicas apontam que a maioria dos segmentos de
comércio, quando deflacionados pela inflação média das categorias envolvidas,
mostra desempenho real negativo com exceção do setor de e-commerce e de algumas
poucas categorias, o que deve se repetir em 2026.
Mudança
estrutural no consumo e no varejo
Trata-se
de uma economia “bombada” por estímulos artificiais de toda ordem, capaz de
preservar indicadores no curto prazo, mas que aprofunda as desigualdades,
amplia a insegurança econômica e social e posterga ajustes estruturais
inevitáveis. O resultado é um crescimento instável e artificial apesar de um
momento global altamente favorável ao país por conta de todas as questões que
envolvem seus diferenciais na produção de alimentos, energia e recursos
minerais estratégicos.
Esse
cenário implica numa reconfiguração estrutural do consumo e do varejo. De um
lado, cresce de forma consistente a participação do varejo de valor, aquele do
mais por menos, impulsionado por consumidores mais sensíveis a preço e prazo de
pagamento, mais endividados e com menor margem de erro no orçamento doméstico.
De outro, o segmento de luxo se mantém, e tende a ampliar seu ritmo de
crescimento, sustentado por rendas menos dependentes do ciclo econômico e
elevadas remunerações ligadas a aplicações financeiras e por uma demanda
estruturalmente mais resiliente.
Nunca
convivemos com um consumo tão pressionado na base e tão eufórico no topo.
Ao
mesmo tempo, avança a participação dos serviços e soluções associados a
produtos como saúde, manutenção, cuidados pessoais, assinaturas, financiamento,
seguros e outras modalidades. O consumidor compra menos itens, mais baratos,
mas exige mais funcionalidade, conveniência e parcelamento dos pagamentos ao
longo do tempo, mesmo que com taxas de juros das mais altas no mundo.
Observa-se
também um aumento da participação direta da indústria de bens de consumo no
varejo, seja por canais próprios, marketplaces e modelos híbridos, mas sempre
com maior envolvimento na relação direta com o consumidor final. Esse movimento
intensifica a disputa por margem, dados e fidelidade, elevando de forma
estrutural a pressão competitiva sobre o varejo tradicional.
Paralelamente
continua a crescer a destinação de renda para apostas online (bets),
aprofundando a desconexão entre aumento da massa salarial e consumo produtivo.
Esse fenômeno contribui para o avanço do endividamento das famílias e para
níveis elevados de inadimplência com impactos diretos sobre a qualidade, a
previsibilidade e a sustentabilidade do consumo. As bets deixaram de ser um
desvio marginal e passaram a competir diretamente com categorias essenciais do
consumo.
Pressão
competitiva exponenciada
O
resultado desse conjunto de forças é um ambiente de competição mais intensa e
rentabilidade pressionada na maior parte do varejo e dos serviços, com exceção
do segmento de luxo e de algumas categorias que preservam maior poder de
precificação, diferenciação e fidelização.
No final, 2026 se apresentará menos como um ano de consolidação e mais
como um tempo de adiamento. A aparente
normalidade econômica mascara fragilidades que tendem a emergir no ciclo
seguinte, quando os estímulos perderem força e a necessidade de correção se
tornar inevitável.
Nesse
contexto, é fundamental a integração das lideranças empresariais dos setores de
varejo, consumo e serviços pessoais. Ela deixa de ser desejável para se tornar
imperativa, para muito além de questões político-partidárias. Em um ambiente no
qual os três Poderes da República mostram-se de forma majoritária mais
comprometidos com o curto prazo, com agendas próprias e interesses imediatos e,
cada vez mais afastados da construção de um Projeto de Nação de longo prazo,
cabe ao setor produtivo assumir um papel mais ativo e responsável.
Se
os setores privado e produtivo não ocuparem o espaço do longo prazo, ele será
ocupado pelo improviso e pela visão estreita da próxima eleição. E o custo,
como sempre, será transferido para a Nação. Pela capilaridade, capacidade de
geração de emprego e renda, proximidade diária com o consumidor e peso
econômico, esses setores deveriam se integrar, se posicionar e atuar de forma
coordenada para construir alternativas ao que hoje parece inevitável. Isso pode ser feito por meio de agendas
comuns e integradas, inovação colaborativa, autorregulação, educação do
consumidor ou propostas concretas para o debate público. O quadro futuro não
pode estar dado. Ele pode ser moldado pela capacidade coletiva de agir com
visão de longo prazo, senso de urgência e compromisso real com a Nação.
Mais
do que a reflexão, é preciso ação.
(*)
é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem.
Quando o poder perde os
limites, a democracia adoece
Por Alessandro
Soares (*)
A
sociedade brasileira acompanha, com crescente perplexidade, os desdobramentos
do caso envolvendo o Banco Master, episódio que, a cada nova revelação, expõe
uma preocupante confusão entre interesses privados e instituições que deveriam
atuar exclusivamente em defesa do interesse público.
O
ponto de partida foi a divulgação de um contrato de assessoria jurídica firmado
entre o banco e o escritório de advocacia da esposa de um ministro do Supremo
Tribunal Federal (STF). Em um primeiro momento, alguns poderiam relativizar o
fato, alegando que relações profissionais dessa natureza fazem parte da
dinâmica do mercado.
O
espanto, porém, surge com os valores envolvidos. Segundo informações
divulgadas, o contrato previa pagamentos mensais de aproximadamente R$ 3,5
milhões, podendo alcançar cerca de R$ 120 milhões ao final, cifras consideradas
muito acima dos padrões praticados no setor, conforme apontam especialistas.
A
situação se agrava quando se torna público que um processo envolvendo o Banco
Master passou a tramitar no STF sob segredo de justiça. Trata-se de um caso de
evidente interesse público, uma vez que envolve suspeitas de fraude e possíveis
impactos diretos sobre a sociedade. O sigilo, nesse contexto, levanta
questionamentos legítimos sobre transparência e accountability.
Há
ainda relatos de que a decisão pelo segredo de justiça teria ocorrido após um
encontro informal entre um ministro e advogados do banco, em um voo fretado
para acompanhar a final de um campeonato. Episódios como esse, no mínimo,
comprometem a confiança da população na imparcialidade das instituições e
reforçam a sensação de distanciamento entre o poder e os cidadãos comuns.
Mais
recentemente, novas informações divulgadas pela imprensa indicam reuniões de
outro ministro com o objetivo de interceder para evitar a decretação da
falência do banco - justamente no período em que o escritório de sua esposa
mantinha um contrato milionário com a instituição financeira.
Não
falo aqui apenas como representante dos professores paulistas. Falo como
cidadão que se indigna ao ver princípios constitucionais básicos - como
moralidade, impessoalidade e transparência - sendo colocados em xeque por
aqueles que deveriam ser seus maiores guardiões.
A
pergunta que se impõe é simples e incômoda: se os envolvidos não ocupassem
cargos de poder, a postura das instituições seria a mesma? Ou veríamos, como
tantas vezes ocorre, medidas imediatas e severas, como bloqueio de bens,
apreensão de passaportes e decisões sumárias?
Quando
o poder não encontra limites, ele embriaga. E quem se embriaga com o poder,
raramente aceita abdicar dele…
Enquanto
isso, o país assiste a uma sucessão de escândalos que, muitas vezes, funcionam
como cortinas de fumaça, desviando a atenção de outros problemas igualmente
graves, como os que atingem aposentados e pensionistas lesados em fraudes
contra o INSS.
Não
se trata de atacar a democracia, mas de defendê-la. Defender a democracia
significa exigir responsabilidade, transparência e respeito às instituições.
Significa afirmar, sem ambiguidades, que ninguém está acima da lei.
Sem uma Justiça verdadeiramente independente, não há democracia plena. Sem limites ao poder, não há Constituição que resista.
(*)
é pedagogo, advogado e Diretor-Geral Administrativo do Centro do Professorado
Paulista (CPP).
por Rodrigo Costa, CTO & Head de Digital Business da Kron Digital A Inteligência Artificial entra em um período de maturidade e passa a ocupar posição central nas estratégias corporativas, substituindo iniciativas experimentais por aplicações concretas que reorganizam operações, aprimoram a tomada de decisões e reconfiguram a dinâmica competitiva entre empresas. O foco deixa de estar restrito à automação de tarefas e avança para o uso inteligente de dados, criando ambientes de aprendizado contínuo e maior precisão nas decisões de negócio. A consolidação desse novo ciclo aparece em análises de mercado que indicam uma adoção acelerada da tecnologia. Projeções da Gartner estimam que mais de 80% das organizações utilizarão IA de maneira estruturada até 2026, número muito superior aos cerca de 5% registrados em 2023. No mesmo período, aproximadamente 80% dos softwares comerciais incluirão recursos generativos. Estudos da McKinsey mostram que empresas que integram IA em múltiplas frentes de operação percebem aumentos de produtividade entre 20% e 30%, o que reforça a relevância estratégica. Expansão da IA generativa O avanço da IA generativa amplia o alcance da inovação tecnológica e facilita o desenvolvimento de soluções internas. Plataformas no-code e low-code criam oportunidades para que empresas de diferentes portes implementem soluções com maior agilidade e menor dependência de equipes especializadas. Levantamento da IDC aponta que 53% das organizações brasileiras já adotam essa abordagem como prioridade estratégica. Essa ampliação pode ser observada também na evolução do uso corporativo. A pesquisa conduzida pela McKinsey revela que a aplicação consistente da IA generativa praticamente dobrou em menos de um ano, com dois terços das empresas utilizando a tecnologia de maneira regular em áreas operacionais e de suporte. Esse ritmo evidencia um movimento contínuo de integração tecnológica e não mais iniciativas isoladas. Agentes autônomos em evolução O crescimento dos agentes autônomos de IA inaugura uma nova dinâmica nas relações de consumo e transação digital. Estimativas da Gartner indicam que três bilhões de dispositivos conectados já atuam como compradores em ecossistemas B2B, com previsão de alcançar oito bilhões até 2030. Essa dinâmica altera a forma como empresas se relacionam com clientes e fornecedores e reduz gradualmente a dependência de buscas tradicionais, que devem recuar aproximadamente 25% até 2026. As organizações que estruturarem sistemas capazes de negociar, comparar e executar transações de maneira autônoma poderão ocupar posições competitivas mais sólidas. Transformação em setores essenciais Os efeitos da IA tornam-se cada vez mais evidentes em segmentos estratégicos da economia e já influenciam a forma como produtos e serviços são concebidos. Na área da saúde, sistemas inteligentes passam a apoiar diagnósticos por imagem e decisões clínicas de maneira integrada ao fluxo de trabalho médico, contribuindo para maior precisão e agilidade. Essa evolução acompanha o crescimento de um mercado que pode ultrapassar US$ 187 bilhões até 2030, impulsionado pela combinação entre análise avançada de dados, automação e suporte assistivo aos profissionais. A educação também avança para um modelo orientado por hiperpersonalização. Plataformas adaptativas permitem construir jornadas de aprendizagem ajustadas às necessidades e ao ritmo de cada estudante, com ganhos de eficiência que podem chegar a 50% segundo estudos da McKinsey. O papel dos educadores passa a ser mais estratégico, concentrado em acompanhamento, orientação e desenvolvimento de habilidades humanas, enquanto a tecnologia assume parte das tarefas repetitivas e analíticas. O agronegócio segue trajetória semelhante com o uso crescente de sensores conectados, imagens de satélite e algoritmos preditivos aplicados ao monitoramento de safras, análise de solo e gestão de recursos. A combinação de dados e automação oferece suporte a decisões mais precisas, reduz desperdícios e fortalece práticas sustentáveis, consolidando o setor como laboratório ativo para inovação tecnológica e produtividade em escala. Estruturas de governança como suporte de confiança A ampliação do uso corporativo da IA coloca a governança no centro das decisões estratégicas. Transparência, explicabilidade e proteção de dados tornam-se elementos prioritários, especialmente diante do aumento do volume de informações sensíveis e do potencial impacto de decisões automatizadas. Estruturas de governança robustas ajudam a prevenir modelos tendenciosos, garantir controle sobre os resultados gerados e preservar a integridade das operações digitais. O avanço da regulamentação brasileira aponta para a necessidade de práticas capazes de garantir responsabilidade e supervisão humana contínua. A construção de confiança com clientes, investidores e colaboradores depende de mecanismos claros de auditoria e monitoramento, assegurando que a autonomia tecnológica esteja alinhada aos valores corporativos e aos parâmetros éticos de mercado. Nesse cenário, a governança deixa de ser componente adicional e passa a orientar a adoção segura e sustentável da IA no ambiente empresarial. Sustentabilidade como critério tecnológico O crescimento do uso de tecnologias intensivas em dados e processamento amplia a preocupação com o impacto ambiental. A modernização dos data centers, aliada a novos métodos de processamento mais eficiente, permite equilibrar desempenho e responsabilidade ambiental, especialmente diante da crescente discussão sobre consumo energético e emissões geradas por modelos avançados de IA. Nesse contexto, soluções projetadas para eficiência energética ganham espaço nos critérios de seleção tecnológica. O uso de dados sintéticos, apontado pela Gartner como alternativa relevante para reduzir a necessidade de grandes bases de dados reais, reforça esse movimento ao viabilizar experimentação e desenvolvimento de modelos com menor demanda de infraestrutura. Sustentabilidade e inovação deixam de ocupar esferas separadas e passam a definir decisões estratégicas, acompanhando o avanço das práticas de ESG nas avaliações de investimentos tecnológicos. Direcionamento estratégico para 2026 A evolução da inteligência artificial no ambiente corporativo sinaliza uma fase em que o diferencial competitivo não estará restrito ao acesso à tecnologia, mas à capacidade de incorporá-la de forma estratégica e consistente ao longo dos processos de negócio. O avanço para modelos mais autônomos exige que as empresas desenvolvam estruturas internas capazes de acompanhar o ritmo das inovações, com governança sólida, integração sistêmica e adaptação contínua. O futuro da tecnologia nas organizações dependerá de ecossistemas preparados para aprender e se transformar de maneira permanente. Essa trajetória envolve a formação de competências que permitam converter potencial tecnológico em valor real. Iniciativas de educação tecnológica, programas estruturados de qualificação e ambientes corporativos que favoreçam colaboração entre profissionais e sistemas inteligentes constituem bases essenciais para sustentação desse movimento. O horizonte aponta para um cenário em que a integração progressiva entre pessoas e IA se torna determinante para a construção de resultados consistentes e para a consolidação de uma cultura orientada à inovação de longo prazo. |
Por Marcelo do Rego (*)
Há dias que marcam a vida. Para mim, esse dia foi 24 de dezembro de 2018. Enquanto o mundo vibrava com o brilho do Natal, eu encarava o espelho interno que evitara por anos. A pergunta que rondava minha mente era direta, quase crua: que pai gostaria ser para meus gêmeos, Joaquim e Samuel, estando mergulhado na responsabilização do externo, em ressentimentos e nos fantasmas dos traumas do passado?
Sabia que não podia continuar sendo o mesmo homem que colecionava promessas vazias, aquelas que começam com “segunda-feira eu mudo” e terminam no mesmo abismo de sempre. Precisava fazer algo, qualquer coisa. E a verdade é que, quando tudo parece demais, o simples se torna o único caminho possível.
Foi então que as perguntas, as ferramentas silenciosas da consciência, começaram a cutucar meus medos. Pensei comigo, o que eu posso fazer, com o que eu tenho aqui, agora? A resposta não veio em forma de um plano grandioso. Olhando para a mesa de jantar, tomei uma decisão que parecia simples, mas na realidade, lá na frente, mudaria tudo: eu deixaria de tomar o refrigerante que mais gostava por 30 dias.
Parece pouco? Para alguns, talvez. Para mim, era como mover uma montanha. Não pelo refrigerante em si, mas pelo que ele representava: costume automático, afeto infantil, fuga rápida, anestesia. Nos dias seguintes, comecei a perceber que me sentia menos inchado e mais disposto. Surpreendentemente, mexendo em um hábito, outros começaram a se rearrumar.
Foi aí que entendi o padrão. E padrões, quando reconhecidos, deixam de ser prisão e viram mapa. Comecei pequeno, mudando um hábito. Depois, abandonei o açúcar como um todo, passei a tomar banhos gelados pra despertar o corpo, a ler mais pela manhã, a meditar, a escrever em um diário... Um fio puxa o outro, até que percebi que estava tecendo uma vida nova.
Enquanto eu mudava, o mundo ao redor reagia, com algumas pessoas apoiando, outras debochando, outras tentando me puxar de volta para o “normal” que sempre me fez mal. A verdade é que crescer incomoda quem está parado. Também descobri algo profundo: somos feitos dos ambientes que escolhemos. Ande com quem busca saúde, e logo você estará cuidando do seu bem-estar. Caminhe com quem se destrói, e a queda vira rotina.
E assim, passo a passo, hábito a hábito, comecei a reencontrar o pai que meus filhos merecem, o homem que eu queria ser, a vida que eu ainda podia construir. Hoje, olho para trás e vejo que não foi a ausência de um refrigerante que mudou meu destino. Foi a coragem de começar pequeno. Foi a lucidez de assumir que só poderia mudar com o que eu tenho, aqui, agora. Foi a escolha de abandonar a versão cinza de mim mesmo para dar chance a algo mais vivo, mais inteiro, mais presente.
No fim, percebi que toda grande transformação, aquela que resgata, que fortalece, que devolve o brilho, nasce de um gesto quase imperceptível. E talvez outras pessoas estejam agora exatamente no ponto onde eu estive naquele Natal. Para elas, ou para você que me lê agora, faço a pergunta que mudou a minha vida: qual decisão simples você pode tomar agora e que lá na frente pode mudar tudo?
---
(*) é pai de gêmeos, maratonista, empreendedor e palestrante, autor de “Do Tarja Preta à São Silvestre”
Quando a aula vira uma
"conversa"
Sergio Felipe
Moraes (*)
Muitos dos comentários
sobre educação no meio digital, feitos por diversos especialistas, abordam
direta ou indiretamente a “aula”. Ela está no centro do debate educacional,
mesmo que não seja citada ou problematizada.
Em virtude das recentes
transformações do mundo, talvez não faria sentido “dar aula” ou defender esse
conceito. Tecnicamente, videoaulas já podem reproduzir o modelo de “aula
palestra”, podendo ser assistidas infinitas vezes pelos alunos. Nesse sentido, programas
que utilizam a inteligência artificial generativa na educação tentam reproduzir
o modelo da “aula expositivo-dialogada”, baseado em perguntas problematizadoras
e nas “perguntas de compreensão” mobilizadas pela docência em aulas
presenciais. O modelo da “aprendizagem ativa”, em muitos casos, transforma a
aula em um jogo de perguntas e respostas – um quiz.
O que parece estar
obsoleto não é a aula, mas o conceito de aula e os modelos que tentam
reproduzi-la na atualidade, seja na versão convencional ou na oriunda do mundo
digital. Primeiramente, a linguagem não é um espelho que reflete
automaticamente o sentido das coisas existentes neste mundo. Algo pode ser dito
e não necessariamente compreendido, ou pode ser entendido de outro modo.
Outro problema é que a
pergunta e o questionamento do estudante funcionam como intromissão nas formas
de conduzir as aulas, restringindo o espaço para expansão do pensamento e das
formas de ser. E o aspecto fundamental é o desafio de saber lidar com interesses
e desinteresses dos alunos pela educação escolar, especialmente quando se
leciona para a juventude.
O conceito de “aula como
conversa” surge em resposta a esses desafios, sendo compreendido como “espaço
para debates” que “produz entendimentos por meio da comunicação”. Ela é aberta
a perguntas e a conjecturas do outro, a afetar e ser afetado. O entendimento
funciona como resposta ao espaço de abertura ao contraditório, à busca por
“algo a mais” que dependa do outro para existir.
Metodologicamente, a
ideia é planejar como sensibilizar e despertar a curiosidade do outro para
aprender algo que inicialmente não desejava, mas que pela reelaboração do
conhecimento feita, passa a interessá-lo e afetá-lo. Incentivar os educandos a
perguntarem o que sabem e o que não sabem para ler, escrever e desenvolver o
pensamento crítico de forma integrada. E defender a necessidade de avaliar a
aprendizagem conforme as professoras alfabetizadoras, que utilizam a “prática
guiada” como parte do processo avaliativo.
(* ) é doutorando
e mestre em Ensino de História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro,
além de especialista em Educação Tecnológica (Cefet-RJ). É autor do livro
"Aula como conversa”.