segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Outro artigo de Samuel Saraiva

 

O SILÊNCIO, O MEDO, A RAZÃO, A SOLIDÃO E O ABISMO

Há momentos em que o mundo não grita — apenas insiste, ou cala.
Insiste com seu rumor constante, com a velocidade das certezas, com o brilho dos gestos vazios. E, ainda assim, por dentro, tudo parece quieto. Não um silêncio pacífico, mas um silêncio de ausência: como se a humanidade tivesse aprendido a falar sem se escutar.
Talvez seja porque, no fundo, todos sentimos o mesmo: a vida começa como um alvorecer — amplo, inocente, cheio de promessas — e caminha, sem exceção, para seu infalível crepúsculo. Entre esses dois extremos, atravessamos o tempo tentando dar sentido ao que passa, tentando sustentar aquilo que não deveria se perder: presença, verdade, dignidade e esperança.
Somos muitos. Mas nem sempre nos encontramos ou estamos juntos.
A solidão contemporânea não é falta de gente; é falta de presença.
É estar cercado de vozes e continuar sem testemunha. É oferecer a própria verdade e vê-la devolvida como se fosse incômodo, ou desinteressante. É ser profundo num tempo em que quase tudo foi projetado para flutuar.
E então percebemos, com certa tristeza lúcida: há abundância de palavras e escassez de convicção. Há retórica de amor por todos os lados — frases bonitas, ensinamentos tocantes — mas poucas mãos dispostas a sustentar o peso do que se diz. O mundo aprendeu a decorar luz sem acender o próprio coração.

A VERDADE EM TEMPOS DE RUÍDO

O ruído, a diversão fulgaz não é apenas barulho: é distração organizada.
É um modo sofisticado de impedir que o essencial nos alcance. É a política da superficialidade o culto do rápido, o vício do aparentemente belo. O ruído ocupa o espaço onde a consciência deveria respirar.
E assim, a verdade vai sendo empurrada para um canto — não por ser falsa, mas por ser incômoda. Porque a verdade exige postura, exige renúncia, exige escolhas. E escolhas, hoje, parecem custar mais do que as pessoas estão dispostas a pagar, ou podem pagar.
O falso, ao contrário, é generoso: ele abraça sem cobrar. Ele consola sem responsabilidade. Ele seduz sem consequência.
E é por isso que prospera.

A LUCIDEZ COMO COMPANHIA

Há quem ache que a lucidez é peso.
Mas, na verdade, a lucidez é abrigo. Ela não nos livra do mundo — ela nos impede de sermos engolidos por ele.
Discernimento é liberdade: é ele que nos solta dos dogmas que abraçamos por simpatia e nos tira da mesmice que impede nossa evolução interior, num mundo ainda cheio de mentes aprisionadas e confusas por ilusões pouco razoáveis.
Em certos dias, a introspecção deixa de ser recolhimento e se torna resistência. Não uma fuga, mas um gesto de dignidade: o esforço silencioso de permanecer inteiro. Porque viver, às vezes, é apenas isso — manter a própria consciência acordada quando tudo ao redor parece anestesiado.
E nesse ponto uma constatação ganha força: a lucidez também é uma forma de companhia. Ela nos prova que ainda há humanidade onde existe reflexão, e ainda há caminho onde existe verdade. Mesmo que ninguém aplauda. Mesmo que ninguém note.
Não escrevo em busca de aplausos, que se limitam a caricia de uma vaidade tola — acariciando o ego empobrecido no ilusório palco dos sentidos. Escrevo por outra razão: porque talvez alguém leia e não se sinta só. Talvez alguém reconheça, por trás das palavras, a mesma inquietação: a sensação de que a consciência, em vez de evoluir, tem regredido sob o peso do brilho, do luxo moral e do espetáculo.

NÃO ESTAMOS SÓS — APENAS DESENCONTRADOS

Talvez a frase mais verdadeira seja também a mais simples: não estamos realmente sós — apenas desencontrados.
Desencontrados no tempo, na pressa, no excesso de ruído. Desencontrados porque a vida virou um corredor e nós esquecemos de olhar nos olhos.
E ainda assim… isso não precisa ser sentença. Pode ser impulso.
Pode nos lembrar que ainda há pontes possíveis, convergências inteligentes, encontros que preservem a honestidade do pensamento e a lógica da impressão genuína — sem drama, sem teatro, sem covardia, sem traição, apenas com a autoridade serena de uma manifestação sensata.
A solidão não é prova de abandono: às vezes é apenas o intervalo que a vida cria antes do reencontro com aquilo que faz sentido.

A DIGNIDADE DO REAL

Há um tipo de beleza que ilude — e há uma beleza que sustenta e fascina.
A primeira brilha; a segunda permanece. A primeira seduz; a segunda transforma. A primeira precisa de plateia; a segunda não precisa nem de aplauso, nem de aprovação.
A dignidade do real está nessa beleza silenciosa: a que não se vende, a que não se exibe, a que não grita para existir alimentando vaidades insustentáveis.
E é justamente por isso que ela se tornou rara.
O glamour é um anestésico. Ele dá a sensação de que estamos vivendo intensamente, quando na verdade estamos apenas evitando o vazio. A aparência é uma máscara sofisticada: ela nos faz parecer inteiros, mas cobra o preço da profundidade e pode ferir a alma.
O real, ao contrário, exige coragem.
E toda coragem verdadeira tem algo de espiritual — não no sentido religioso, mas no sentido humano: a firmeza de sustentar e valorizar aquilo que não se compra.

QUANDO A CONSCIÊNCIA AINDA ILUMINA

A humanidade caminha, muitas vezes, como quem atravessa uma ponte frágil sobre um abismo.
De um lado, a razão; do outro, a loucura. E entre ambas, a linha tênue onde tropeçamos — às vezes por ignorância, às vezes por vaidade, às vezes por conveniência.
O mais assustador não é o abismo em si. É a inversão de valores que nos faz chamar de virtude aquilo que é fuga; de liberdade aquilo que é vício; de autenticidade aquilo que é brutalidade; de liberdade aquilo que aprisiona; de felicidade aquilo que é distração.
E então somos cobertos por um manto esfarrapado de nojo e de vergonha — uma vergonha que tenta se esconder, mas falha diante da luz interior. Porque a consciência, mesmo enfraquecida, ainda ilumina. E quando ela ilumina, dói. E quando dói, é porque ainda existe.
A dor moral é uma prova de que ainda há algo vivo, sensibilidade.
E enquanto houver algo vivo, há possibilidade.

PENSAR ANTES DO CAOS

Não temos como conter a marcha insana dos que conduzem a “civilização” ao caos. Ela avança como uma correnteza.
Mas talvez possamos compreendê-la, e assim sofrer menos com aquilo que impacta e não está sob nosso controle.
Muitas tragédias não são surpresas. São previsões ignoradas.
A ausência de profundidade não se paga de imediato — ela cobra juros no futuro.
O erro recorrente é pensar apenas depois de decidir precipitadamente pelo caos.
Quando a inteligência foi feita para inverter essa ordem: pensar antes, e evitar o dano, próprios e a outros, que a lucidez permite evitar.
Porque a vida não exige que sejamos perfeitos — exige apenas que sejamos honestos o suficiente para aprender com as lições que se repetem, antes que seja tarde.

CONCLUSÃO

No fim, talvez o sentido não esteja em vencer o mundo, nem em convencer multidões. Talvez esteja em atravessar a existência sem abandonar o essencial: a verdade, a sensatez, a responsabilidade, a delicadeza que não precisa de plateia para existir.
Não estamos sós.
Estamos apenas desencontrados.
E essa constatação, longe de nos paralisar, pode — ao contrário — fortalecer em nós o desejo e a razão de seguir adiante com dignidade: do alvorecer ao crepúsculo, até o desfecho inevitável da existência física, que não é um fim absoluto, mas o limiar de uma existência espiritual que prossegue na medida da elevação que conquistamos neste plano — revelada, com clareza, pelas ações, boas ou más, dignas ou indignas, que escolhemos praticar.
Porque, quando tudo passa, resta aquilo que nunca deveria ter sido negociável: o valor de manter a consciência acesa.
Na inquietação da solidão, sob o assobio dos ventos gélidos que açoitam as noites invernais, acontece o diálogo interior — e nele se revela uma certeza silenciosa: em breve a primavera chegará luminosa, para fazer florescer a própria alma, num renascimento existencial.
Talvez a vida só nos peça isso: reconhecer a coragem intacta que ainda nos habita e, com ela, continuar — livres — na direção do destino que nos aguarda.

sábado, 10 de janeiro de 2026

A leitura do real deve ser orientada pela honestidade intelectual

 


Entre a luz e as sombras, habitamos o agora a caminho do infinito

by Samuel Saraiva

A fotografia revela apenas uma estação vazia, envolta em luz e sombra, onde a arquitetura metálica se impõe como uma grande abóbada silenciosa. É a geometria do vazio que se oferece ao olhar: linhas que não apenas sustentam o espaço, mas parecem guardar a memória do tempo. Ali, tudo existe antes da forma e depois do tempo, como se o instante tivesse aprendido a respirar.

Ao centro, uma figura humana avança. Caminha sem nome, sem rosto, quase dissolvida na claridade. É alguém - e são todos. Um corpo em trânsito, símbolo de uma travessia sem nome, seguindo o caminho antes do caminho. Não atravessa apenas uma plataforma, mas um estado de existência. A solidão ali não pesa; ela se revela, discreta, como a solidão compartilhada de todos os que passam.

A luz que desce pela cobertura rasga o espaço e desenha sombras longas no chão. Há um contraste que não fere, apenas sugere. Como se o tempo, cansado de correr, tivesse decidido pausar. Quando o tempo respira, o lugar deixa de ser passagem e se transforma em intervalo -uma pausa entre mundos, o espaço invisível onde algo se desloca sem anunciar-se.

Os trilhos paralelos permanecem vazios. Não há trem, não há ruído -apenas a promessa. São linhas de espera, de deslocamento contido, de futuro suspenso. O lugar onde nada parte e, ainda assim, tudo está prestes a acontecer. Entre partidas e o infinito, compreendemos que partir nem sempre é mover-se; às vezes é apenas aceitar o silêncio.

Há, contudo, lapsos. Brechas no tecido do real. Momentos em que a solidão parece ceder e algo-não visível, não definido- caminha ao nosso lado. Presenças que se aproximam por desígnios que não controlamos ou por escolhas feitas sem plena consciência. Permanecem por um tempo incerto, cumprindo uma função que raramente compreendemos enquanto acontece.

Essas energias desconhecidas não chegam para permanecer. Aproximam-se e se afastam, tocando brevemente o percurso antes de retomarem sua própria órbita. A aproximação e o distanciamento fazem parte da dinâmica da jornada, num universo onde nada é estático e onde os vínculos, por mais intensos que pareçam, são frágeis e transitórios-ainda que relutemos em admitir. São como tênues centelhas de luz, que mal permitem iluminar a consciência de nossa insignificância diante do universo infinito. É nesse desencontro entre a fluidez do existir e o desejo humano de permanência que o apego nasce. E quando ignora a consciência da efemeridade, deixa de ser laço e passa a ferir a alma.

Seguimos, então. Entre a luz e o antes.

Seguimos. Ainda.

Da luz ao agora, caminhamos rumo ao eterno, entre tempestades e calmarias.

Quase imperceptíveis, como ecos que atravessam a leitura.

Nada se impõe; tudo sussurro.

- A leitura da realidade deve ser orientada pela honestidade intelectual e pela consciência dos limites da razão humana. Em sua perspectiva micro, ela é sempre parcial e própria do sujeito, não dos demais, e não garante, por si só, uma visão macro ou uma interpretação profunda do real. Tal postura exige vigilância crítica contra reducionismos dogmáticos, inclusive aqueles expressos sob a forma de realismo ou positivismo absolutos, bem como o enfrentamento dos impulsos instintivos não educados da natureza humana. Essa atitude não denota fraqueza epistemológica, mas expressa humildade reflexiva e maturidade ética diante da complexidade do real.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

2026: UM ANO DE ADIAMENTO

 


2026 não será um ano de crescimento real, mas de adiamento

Por Marcos Gouvêa de Souza (*)

2026 deverá ser um ano de normalidade econômica com algum crescimento e mais um ciclo de postergação com foco prioritário na próxima eleição. Será, na prática, mais um ano de adiamento de decisões, de ajustes e de responsabilidades.  As previsões mostram um crescimento inferior ao do ano anterior – apesar de todos os estímulos já anunciados e implantados. Alguns indicadores irão sustentar essa narrativa mas, por trás dela, o país aprofunda desequilíbrios, posterga ajustes e transfere custos para os próximos ciclos.

Em anos pré-eleitorais, a economia costuma contar histórias melhores do que aquelas que os fundamentos conseguem sustentar. Indicadores escolhidos melhoram, a atividade se mantém em movimento e o discurso da evolução ganha tração. Mas, por trás dessa visão mais favorável, acumulam-se tensões que não desaparecem e apenas são adiadas.

Este ano tende a ser marcado por um baixo crescimento econômico e, ainda assim, artificialmente sustentado. A combinação de estímulos fiscais, expansão do crédito direcionado, políticas de renda, programas de auxílio e investimentos públicos com forte viés eleitoral devem manter a atividade em funcionamento, ainda que com baixo crescimento nominal, ou mesmo desempenho real negativo, quando deflacionados nos segmentos de varejo e consumo, como aconteceu em 2025.

Os dados recentes de desempenho do final do ano envolvendo shoppings centers, foodservice e varejo das lojas físicas apontam que a maioria dos segmentos de comércio, quando deflacionados pela inflação média das categorias envolvidas, mostra desempenho real negativo com exceção do setor de e-commerce e de algumas poucas categorias, o que deve se repetir em 2026.

 

Mudança estrutural no consumo e no varejo

 

Trata-se de uma economia “bombada” por estímulos artificiais de toda ordem, capaz de preservar indicadores no curto prazo, mas que aprofunda as desigualdades, amplia a insegurança econômica e social e posterga ajustes estruturais inevitáveis. O resultado é um crescimento instável e artificial apesar de um momento global altamente favorável ao país por conta de todas as questões que envolvem seus diferenciais na produção de alimentos, energia e recursos minerais estratégicos.

 

Esse cenário implica numa reconfiguração estrutural do consumo e do varejo. De um lado, cresce de forma consistente a participação do varejo de valor, aquele do mais por menos, impulsionado por consumidores mais sensíveis a preço e prazo de pagamento, mais endividados e com menor margem de erro no orçamento doméstico. De outro, o segmento de luxo se mantém, e tende a ampliar seu ritmo de crescimento, sustentado por rendas menos dependentes do ciclo econômico e elevadas remunerações ligadas a aplicações financeiras e por uma demanda estruturalmente mais resiliente.

Nunca convivemos com um consumo tão pressionado na base e tão eufórico no topo.

Ao mesmo tempo, avança a participação dos serviços e soluções associados a produtos como saúde, manutenção, cuidados pessoais, assinaturas, financiamento, seguros e outras modalidades. O consumidor compra menos itens, mais baratos, mas exige mais funcionalidade, conveniência e parcelamento dos pagamentos ao longo do tempo, mesmo que com taxas de juros das mais altas no mundo.

Observa-se também um aumento da participação direta da indústria de bens de consumo no varejo, seja por canais próprios, marketplaces e modelos híbridos, mas sempre com maior envolvimento na relação direta com o consumidor final. Esse movimento intensifica a disputa por margem, dados e fidelidade, elevando de forma estrutural a pressão competitiva sobre o varejo tradicional.

Paralelamente continua a crescer a destinação de renda para apostas online (bets), aprofundando a desconexão entre aumento da massa salarial e consumo produtivo. Esse fenômeno contribui para o avanço do endividamento das famílias e para níveis elevados de inadimplência com impactos diretos sobre a qualidade, a previsibilidade e a sustentabilidade do consumo. As bets deixaram de ser um desvio marginal e passaram a competir diretamente com categorias essenciais do consumo.

 

Pressão competitiva exponenciada

 

O resultado desse conjunto de forças é um ambiente de competição mais intensa e rentabilidade pressionada na maior parte do varejo e dos serviços, com exceção do segmento de luxo e de algumas categorias que preservam maior poder de precificação, diferenciação e fidelização.  No final, 2026 se apresentará menos como um ano de consolidação e mais como um tempo de adiamento.  A aparente normalidade econômica mascara fragilidades que tendem a emergir no ciclo seguinte, quando os estímulos perderem força e a necessidade de correção se tornar inevitável.

 

Nesse contexto, é fundamental a integração das lideranças empresariais dos setores de varejo, consumo e serviços pessoais. Ela deixa de ser desejável para se tornar imperativa, para muito além de questões político-partidárias. Em um ambiente no qual os três Poderes da República mostram-se de forma majoritária mais comprometidos com o curto prazo, com agendas próprias e interesses imediatos e, cada vez mais afastados da construção de um Projeto de Nação de longo prazo, cabe ao setor produtivo assumir um papel mais ativo e responsável.

Se os setores privado e produtivo não ocuparem o espaço do longo prazo, ele será ocupado pelo improviso e pela visão estreita da próxima eleição. E o custo, como sempre, será transferido para a Nação. Pela capilaridade, capacidade de geração de emprego e renda, proximidade diária com o consumidor e peso econômico, esses setores deveriam se integrar, se posicionar e atuar de forma coordenada para construir alternativas ao que hoje parece inevitável.  Isso pode ser feito por meio de agendas comuns e integradas, inovação colaborativa, autorregulação, educação do consumidor ou propostas concretas para o debate público. O quadro futuro não pode estar dado. Ele pode ser moldado pela capacidade coletiva de agir com visão de longo prazo, senso de urgência e compromisso real com a Nação.

Mais do que a reflexão, é preciso ação.

(*) é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem.

 

 

 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

É Indispensável para a democracia ter limites para o poder e respeito à Constituição

 


Quando o poder perde os limites, a democracia adoece

Por Alessandro Soares (*)

A sociedade brasileira acompanha, com crescente perplexidade, os desdobramentos do caso envolvendo o Banco Master, episódio que, a cada nova revelação, expõe uma preocupante confusão entre interesses privados e instituições que deveriam atuar exclusivamente em defesa do interesse público.

O ponto de partida foi a divulgação de um contrato de assessoria jurídica firmado entre o banco e o escritório de advocacia da esposa de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Em um primeiro momento, alguns poderiam relativizar o fato, alegando que relações profissionais dessa natureza fazem parte da dinâmica do mercado.

O espanto, porém, surge com os valores envolvidos. Segundo informações divulgadas, o contrato previa pagamentos mensais de aproximadamente R$ 3,5 milhões, podendo alcançar cerca de R$ 120 milhões ao final, cifras consideradas muito acima dos padrões praticados no setor, conforme apontam especialistas.

A situação se agrava quando se torna público que um processo envolvendo o Banco Master passou a tramitar no STF sob segredo de justiça. Trata-se de um caso de evidente interesse público, uma vez que envolve suspeitas de fraude e possíveis impactos diretos sobre a sociedade. O sigilo, nesse contexto, levanta questionamentos legítimos sobre transparência e accountability.

Há ainda relatos de que a decisão pelo segredo de justiça teria ocorrido após um encontro informal entre um ministro e advogados do banco, em um voo fretado para acompanhar a final de um campeonato. Episódios como esse, no mínimo, comprometem a confiança da população na imparcialidade das instituições e reforçam a sensação de distanciamento entre o poder e os cidadãos comuns.

Mais recentemente, novas informações divulgadas pela imprensa indicam reuniões de outro ministro com o objetivo de interceder para evitar a decretação da falência do banco - justamente no período em que o escritório de sua esposa mantinha um contrato milionário com a instituição financeira.

Não falo aqui apenas como representante dos professores paulistas. Falo como cidadão que se indigna ao ver princípios constitucionais básicos - como moralidade, impessoalidade e transparência - sendo colocados em xeque por aqueles que deveriam ser seus maiores guardiões.

A pergunta que se impõe é simples e incômoda: se os envolvidos não ocupassem cargos de poder, a postura das instituições seria a mesma? Ou veríamos, como tantas vezes ocorre, medidas imediatas e severas, como bloqueio de bens, apreensão de passaportes e decisões sumárias?

Quando o poder não encontra limites, ele embriaga. E quem se embriaga com o poder, raramente aceita abdicar dele…

Enquanto isso, o país assiste a uma sucessão de escândalos que, muitas vezes, funcionam como cortinas de fumaça, desviando a atenção de outros problemas igualmente graves, como os que atingem aposentados e pensionistas lesados em fraudes contra o INSS.

Não se trata de atacar a democracia, mas de defendê-la. Defender a democracia significa exigir responsabilidade, transparência e respeito às instituições. Significa afirmar, sem ambiguidades, que ninguém está acima da lei.

Sem uma Justiça verdadeiramente independente, não há democracia plena. Sem limites ao poder, não há Constituição que resista.

(*) é pedagogo, advogado e Diretor-Geral Administrativo do Centro do Professorado Paulista (CPP).


segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

O Impacto da IA no Futuro Corporativo

 


O futuro corporativo impulsionado pela IA em 2026

por Rodrigo Costa, CTO & Head de Digital Business da Kron Digital


A Inteligência Artificial entra em um período de maturidade e passa a ocupar posição central nas estratégias corporativas, substituindo iniciativas experimentais por aplicações concretas que reorganizam operações, aprimoram a tomada de decisões e reconfiguram a dinâmica competitiva entre empresas. O foco deixa de estar restrito à automação de tarefas e avança para o uso inteligente de dados, criando ambientes de aprendizado contínuo e maior precisão nas decisões de negócio.

A consolidação desse novo ciclo aparece em análises de mercado que indicam uma adoção acelerada da tecnologia. Projeções da Gartner estimam que mais de 80% das organizações utilizarão IA de maneira estruturada até 2026, número muito superior aos cerca de 5% registrados em 2023. No mesmo período, aproximadamente 80% dos softwares comerciais incluirão recursos generativos. Estudos da McKinsey mostram que empresas que integram IA em múltiplas frentes de operação percebem aumentos de produtividade entre 20% e 30%, o que reforça a relevância estratégica.


Expansão da IA generativa


O avanço da IA generativa amplia o alcance da inovação tecnológica e facilita o desenvolvimento de soluções internas. Plataformas no-code e low-code criam oportunidades para que empresas de diferentes portes implementem soluções com maior agilidade e menor dependência de equipes especializadas. Levantamento da IDC aponta que 53% das organizações brasileiras já adotam essa abordagem como prioridade estratégica.

Essa ampliação pode ser observada também na evolução do uso corporativo. A pesquisa conduzida pela McKinsey revela que a aplicação consistente da IA generativa praticamente dobrou em menos de um ano, com dois terços das empresas utilizando a tecnologia de maneira regular em áreas operacionais e de suporte. Esse ritmo evidencia um movimento contínuo de integração tecnológica e não mais iniciativas isoladas.


Agentes autônomos em evolução


O crescimento dos agentes autônomos de IA inaugura uma nova dinâmica nas relações de consumo e transação digital. Estimativas da Gartner indicam que três bilhões de dispositivos conectados já atuam como compradores em ecossistemas B2B, com previsão de alcançar oito bilhões até 2030.

Essa dinâmica altera a forma como empresas se relacionam com clientes e fornecedores e reduz gradualmente a dependência de buscas tradicionais, que devem recuar aproximadamente 25% até 2026. As organizações que estruturarem sistemas capazes de negociar, comparar e executar transações de maneira autônoma poderão ocupar posições competitivas mais sólidas.


Transformação em setores essenciais


Os efeitos da IA tornam-se cada vez mais evidentes em segmentos estratégicos da economia e já influenciam a forma como produtos e serviços são concebidos. Na área da saúde, sistemas inteligentes passam a apoiar diagnósticos por imagem e decisões clínicas de maneira integrada ao fluxo de trabalho médico, contribuindo para maior precisão e agilidade. Essa evolução acompanha o crescimento de um mercado que pode ultrapassar US$ 187 bilhões até 2030, impulsionado pela combinação entre análise avançada de dados, automação e suporte assistivo aos profissionais.

A educação também avança para um modelo orientado por hiperpersonalização. Plataformas adaptativas permitem construir jornadas de aprendizagem ajustadas às necessidades e ao ritmo de cada estudante, com ganhos de eficiência que podem chegar a 50% segundo estudos da McKinsey. O papel dos educadores passa a ser mais estratégico, concentrado em acompanhamento, orientação e desenvolvimento de habilidades humanas, enquanto a tecnologia assume parte das tarefas repetitivas e analíticas.

O agronegócio segue trajetória semelhante com o uso crescente de sensores conectados, imagens de satélite e algoritmos preditivos aplicados ao monitoramento de safras, análise de solo e gestão de recursos. A combinação de dados e automação oferece suporte a decisões mais precisas, reduz desperdícios e fortalece práticas sustentáveis, consolidando o setor como laboratório ativo para inovação tecnológica e produtividade em escala.


Estruturas de governança como suporte de confiança


A ampliação do uso corporativo da IA coloca a governança no centro das decisões estratégicas. Transparência, explicabilidade e proteção de dados tornam-se elementos prioritários, especialmente diante do aumento do volume de informações sensíveis e do potencial impacto de decisões automatizadas. Estruturas de governança robustas ajudam a prevenir modelos tendenciosos, garantir controle sobre os resultados gerados e preservar a integridade das operações digitais.

O avanço da regulamentação brasileira aponta para a necessidade de práticas capazes de garantir responsabilidade e supervisão humana contínua. A construção de confiança com clientes, investidores e colaboradores depende de mecanismos claros de auditoria e monitoramento, assegurando que a autonomia tecnológica esteja alinhada aos valores corporativos e aos parâmetros éticos de mercado. Nesse cenário, a governança deixa de ser componente adicional e passa a orientar a adoção segura e sustentável da IA no ambiente empresarial.


Sustentabilidade como critério tecnológico


O crescimento do uso de tecnologias intensivas em dados e processamento amplia a preocupação com o impacto ambiental. A modernização dos data centers, aliada a novos métodos de processamento mais eficiente, permite equilibrar desempenho e responsabilidade ambiental, especialmente diante da crescente discussão sobre consumo energético e emissões geradas por modelos avançados de IA. Nesse contexto, soluções projetadas para eficiência energética ganham espaço nos critérios de seleção tecnológica.

O uso de dados sintéticos, apontado pela Gartner como alternativa relevante para reduzir a necessidade de grandes bases de dados reais, reforça esse movimento ao viabilizar experimentação e desenvolvimento de modelos com menor demanda de infraestrutura. Sustentabilidade e inovação deixam de ocupar esferas separadas e passam a definir decisões estratégicas, acompanhando o avanço das práticas de ESG nas avaliações de investimentos tecnológicos.


Direcionamento estratégico para 2026


A evolução da inteligência artificial no ambiente corporativo sinaliza uma fase em que o diferencial competitivo não estará restrito ao acesso à tecnologia, mas à capacidade de incorporá-la de forma estratégica e consistente ao longo dos processos de negócio. O avanço para modelos mais autônomos exige que as empresas desenvolvam estruturas internas capazes de acompanhar o ritmo das inovações, com governança sólida, integração sistêmica e adaptação contínua. O futuro da tecnologia nas organizações dependerá de ecossistemas preparados para aprender e se transformar de maneira permanente.

Essa trajetória envolve a formação de competências que permitam converter potencial tecnológico em valor real. Iniciativas de educação tecnológica, programas estruturados de qualificação e ambientes corporativos que favoreçam colaboração entre profissionais e sistemas inteligentes constituem bases essenciais para sustentação desse movimento. O horizonte aponta para um cenário em que a integração progressiva entre pessoas e IA se torna determinante para a construção de resultados consistentes e para a consolidação de uma cultura orientada à inovação de longo prazo.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Talvez sirva para você, ao menos, refletir

 


O poder de começar pequeno

Por Marcelo do Rego (*)

Há dias que marcam a vida. Para mim, esse dia foi 24 de dezembro de 2018. Enquanto o mundo vibrava com o brilho do Natal, eu encarava o espelho interno que evitara por anos. A pergunta que rondava minha mente era direta, quase crua: que pai gostaria ser para meus gêmeos, Joaquim e Samuel, estando mergulhado na responsabilização do externo, em ressentimentos e nos fantasmas dos traumas do passado?

Sabia que não podia continuar sendo o mesmo homem que colecionava promessas vazias, aquelas que começam com “segunda-feira eu mudo” e terminam no mesmo abismo de sempre. Precisava fazer algo, qualquer coisa. E a verdade é que, quando tudo parece demais, o simples se torna o único caminho possível.

Foi então que as perguntas, as ferramentas silenciosas da consciência, começaram a cutucar meus medos. Pensei comigo, o que eu posso fazer, com o que eu tenho aqui, agora? A resposta não veio em forma de um plano grandioso. Olhando para a mesa de jantar, tomei uma decisão que parecia simples, mas na realidade, lá na frente, mudaria tudo: eu deixaria de tomar o refrigerante que mais gostava por 30 dias.

Parece pouco? Para alguns, talvez. Para mim, era como mover uma montanha. Não pelo refrigerante em si, mas pelo que ele representava: costume automático, afeto infantil, fuga rápida, anestesia. Nos dias seguintes, comecei a perceber que me sentia menos inchado e mais disposto. Surpreendentemente, mexendo em um hábito, outros começaram a se rearrumar.

Foi aí que entendi o padrão. E padrões, quando reconhecidos, deixam de ser prisão e viram mapa. Comecei pequeno, mudando um hábito. Depois, abandonei o açúcar como um todo, passei a tomar banhos gelados pra despertar o corpo, a ler mais pela manhã, a meditar, a escrever em um diário... Um fio puxa o outro, até que percebi que estava tecendo uma vida nova.

Enquanto eu mudava, o mundo ao redor reagia, com algumas pessoas apoiando, outras debochando, outras tentando me puxar de volta para o “normal” que sempre me fez mal. A verdade é que crescer incomoda quem está parado. Também descobri algo profundo: somos feitos dos ambientes que escolhemos. Ande com quem busca saúde, e logo você estará cuidando do seu bem-estar. Caminhe com quem se destrói, e a queda vira rotina.

E assim, passo a passo, hábito a hábito, comecei a reencontrar o pai que meus filhos merecem, o homem que eu queria ser, a vida que eu ainda podia construir. Hoje, olho para trás e vejo que não foi a ausência de um refrigerante que mudou meu destino. Foi a coragem de começar pequeno. Foi a lucidez de assumir que só poderia mudar com o que eu tenho, aqui, agora. Foi a escolha de abandonar a versão cinza de mim mesmo para dar chance a algo mais vivo, mais inteiro, mais presente.

No fim, percebi que toda grande transformação, aquela que resgata, que fortalece, que devolve o brilho, nasce de um gesto quase imperceptível. E talvez outras pessoas estejam agora exatamente no ponto onde eu estive naquele Natal. Para elas, ou para você que me lê agora, faço a pergunta que mudou a minha vida: qual decisão simples você pode tomar agora e que lá na frente pode mudar tudo?

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(*)  é pai de gêmeos, maratonista, empreendedor e palestrante, autor de “Do Tarja Preta à São Silvestre

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Um artigo sobre o papel da aula




Quando a aula vira uma "conversa"

Sergio Felipe Moraes  (*)

Muitos dos comentários sobre educação no meio digital, feitos por diversos especialistas, abordam direta ou indiretamente a “aula”. Ela está no centro do debate educacional, mesmo que não seja citada ou problematizada. 

Em virtude das recentes transformações do mundo, talvez não faria sentido “dar aula” ou defender esse conceito. Tecnicamente, videoaulas já podem reproduzir o modelo de “aula palestra”, podendo ser assistidas infinitas vezes pelos alunos. Nesse sentido, programas que utilizam a inteligência artificial generativa na educação tentam reproduzir o modelo da “aula expositivo-dialogada”, baseado em perguntas problematizadoras e nas “perguntas de compreensão” mobilizadas pela docência em aulas presenciais. O modelo da “aprendizagem ativa”, em muitos casos, transforma a aula em um jogo de perguntas e respostas – um quiz. 

O que parece estar obsoleto não é a aula, mas o conceito de aula e os modelos que tentam reproduzi-la na atualidade, seja na versão convencional ou na oriunda do mundo digital. Primeiramente, a linguagem não é um espelho que reflete automaticamente o sentido das coisas existentes neste mundo. Algo pode ser dito e não necessariamente compreendido, ou pode ser entendido de outro modo. 

Outro problema é que a pergunta e o questionamento do estudante funcionam como intromissão nas formas de conduzir as aulas, restringindo o espaço para expansão do pensamento e das formas de ser. E o aspecto fundamental é o desafio de saber lidar com interesses e desinteresses dos alunos pela educação escolar, especialmente quando se leciona para a juventude. 

O conceito de “aula como conversa” surge em resposta a esses desafios, sendo compreendido como “espaço para debates” que “produz entendimentos por meio da comunicação”. Ela é aberta a perguntas e a conjecturas do outro, a afetar e ser afetado. O entendimento funciona como resposta ao espaço de abertura ao contraditório, à busca por “algo a mais” que dependa do outro para existir.  

Metodologicamente, a ideia é planejar como sensibilizar e despertar a curiosidade do outro para aprender algo que inicialmente não desejava, mas que pela reelaboração do conhecimento feita, passa a interessá-lo e afetá-lo. Incentivar os educandos a perguntarem o que sabem e o que não sabem para ler, escrever e desenvolver o pensamento crítico de forma integrada. E defender a necessidade de avaliar a aprendizagem conforme as professoras alfabetizadoras, que utilizam a “prática guiada” como parte do processo avaliativo. 

(* ) é doutorando e mestre em Ensino de História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, além de especialista em Educação Tecnológica (Cefet-RJ). É autor do livro "Aula como conversa”.