sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

A Razão Humana é um ativo da competição



Por que a razão humana segue sendo o principal ativo competitivo

Dados do Banco Mundial mostram que pela primeira vez na história mais pessoas têm mais de 60 anos do que menos de 15 em diversas partes do mundo, incluindo o Brasil. Essa mudança demográfica altera profundamente a composição da força de trabalho, elevando o valor de habilidades que só humanos possuem.

Paralelamente, a inteligência artificial (IA) deixou de ser um conceito distante. Desde o lançamento do ChatGPT, há mais de dois anos, ferramentas de IA têm transformado como empresas criam produtos, interagem com clientes e tomam decisões estratégicas. Um estudo de pesquisadores da Yale University e do The Brookings Institution concluiu que, embora exista temor de substituição massiva de trabalhadores, a automação ainda não corroeu significativamente a demanda por trabalho cognitivo em toda a economia.

 

Então, como conectar essas duas grandes forças, longevidade da população e adoção acelerada de IA, ao futuro do trabalho?


A IA é extraordinária em automatizar tarefas repetitivas e gerar eficiência em escala. Porém, seu valor é amplificado quando aplicada em parceria com pessoas que pensam criticamente, traduzem problemas complexos em soluções e constroem conexões humanas autênticas, algo que algoritmos, por mais avançados, ainda não replicam.


Segundo o Deloitte Global Human Capital Trends, as organizações de maior desempenho estão investindo em capacidade de adaptação humana, pensamento crítico e habilidades sociais justamente para integrar equipes híbridas de humanos e IA.


Isso significa que o diferencial competitivo não é quem tem mais tecnologia, mas quem consegue extrair significado dela aplicando discernimento, experiência e visão estratégica.


O envelhecimento populacional não é um problema, é uma oportunidade estratégica. Trabalhadores mais experientes trazem melhor capacidade de julgamento, visão sistêmica, gestão de complexidade e inteligência relacional. Essas habilidades são críticas em um mundo no qual a IA já está assumindo tarefas operacionais.


Além disso, pessoas mais velhas, com bagagem profissional consolidada, são menos propensas a ser substituídas por ferramentas automatizadas porque trabalham em níveis de abstração mais altos, envolvendo nuances de contexto que a tecnologia ainda não domina.


O mercado já está sinalizando quais papéis serão mais valorizados: especialistas que criam diretrizes éticas e de uso responsável de IA, líderes que alinham tecnologia a propósito organizacional, facilitadores que traduzem dados em decisões humanas, designers que desenham experiências colaborativas entre humanos e máquinas e curadores de conhecimento que mantêm a inteligência atualizada e contextualizada.


Esses perfis, identificados em estudos de tendências de futuro do trabalho, não trocam pensamento por automação, eles elevam a automação à inteligência estratégica.


A equação humana + IA é a que cria valor sustentável. A principal tendência para os próximos anos não é a IA substituindo pessoas, nem um retorno ao trabalho exclusivamente humano. É a colaboração entre ambos, a IA acelera a execução, e os humanos comandam significado.


Empresas que perceberem essa dupla lógica, tecnológica e humana, estarão não apenas mais competitivas, mas mais resilientes frente às mudanças demográficas e de mercado. Em um mundo que muda rápido, a pergunta que líderes e profissionais devem fazer não é “O que a inteligência artificial vai fazer por mim?”, mas “Como eu uso a inteligência artificial para expandir aquilo que só eu posso oferecer: pensamento crítico, criatividade e julgamento ético?”


Essa é a pergunta que determina quem prosperará no futuro do trabalho.

 

Paulo Zahr é fundador da OdontoCompany, empreendedor e especialista em franquias.  

sábado, 31 de janeiro de 2026

Os problemas da Reforma Tributária: Complicação e Insegurança Jurídica




Reforma Tributária: transição sem simplificação e com insegurança jurídica

Silvania Tognetti (*)

Todos somos a favor da Reforma Tributária com a simplificação, a neutralidade e a redução de distorções do sistema fiscal brasileiro que ela trará. Mas não se pode ignorar que estes benefícios ainda estão distantes e o que temos, por ora, é um rastro de insegurança gerando preocupações e riscos para as empresas.

A transição é a parte mais delicada da Reforma Tributária. Dependendo de como acontecer poderá impedir que os benefícios cheguem para muitas empresas porque elas não sobreviverão até lá. Então, vamos todos ajudar para que a transição ocorra da melhor forma e atentar-se aos pontos críticos é uma maneira de colaboração.

No âmbito da CBS, como todos os recursos são pagos à União, não há maiores disputas, mas o IBS traz seus desafios que precisarão estar no radar do Comitê Gestor.

A definição do local do consumo nas operações de bens e serviços é um dos pontos preocupantes. Em uma economia cada vez mais digital, descentralizada e baseada em serviços, identificar onde o consumo efetivamente ocorre é tarefa complexa, sujeita a interpretações divergentes e impactará na arrecadação dos entes públicos. Como serão estabelecidas alíquotas próprias pelos Estados e Municípios, isto ainda pode trazer sombras do fantasma da guerra fiscal. Ninguém vai querer perder e, antes da racionalidade do sistema, virá, certamente o interesse da arrecadação.

Alguns somente perceberam agora que teremos a convivência dos dois sistemas tributários, o atual e o novo, durante uma longa transição. Na venda de uma mercadoria, por exemplo, haverá um tributo calculado por dentro do preço (ICMS) e outro por fora (IBS) e, também, teremos algumas obrigações acessórias duplicadas. E um dos impactos será a apropriação de créditos na aquisição de mercadorias nos dois impostos, porque as regras de apropriação são distintas. O produto A, por exemplo, dá direito a crédito com o destaque na nota fiscal para o ICMS, mas somente poderá ser reconhecido o crédito para IBS em momento posterior. Outro produto dá direito a crédito no IBS, mas não no ICMS.

Os profissionais que atuam na formação de preço das empresas e os que apuram os tributos precisarão conversar bastante para não acontecerem erros, bitributação ou conflitos de interpretação. O sistema tributário ficará mais simples, mas isto depois de ficar bem complicado durante a transição que se arrastará por alguns anos.

E se a apropriação de créditos gera dúvidas, muito mais preocupação geram os créditos acumulados. O temor de que esses valores se tornem de difícil recuperação afeta decisões de investimento e planejamento financeiro. Será assunto prioritário nas equipes de planejamento fiscal das empresas que buscarão a redução dos saldos acumulados para reduzir incertezas de recuperação no futuro.

A governança do Comitê Gestor do IBS também levanta questionamentos relevantes. A centralização de decisões em um órgão nacional desafia o pacto federativo e pode gerar conflitos sobre autonomia dos entes subnacionais, especialmente se critérios técnicos forem contaminados por disputas políticas. E vai começar justamente em ano de eleição...

Além disso, setores intensivos em contratos de longo prazo envolvendo entes públicos - como infraestrutura, concessões e parcerias público-privadas- já vislumbram riscos de desequilíbrio econômico-financeiro. E não será diferente nos contratos de fornecimento de longo prazo privados. A alteração estrutural da carga tributária pode desencadear uma onda de pedidos de reequilíbrio e judicialização.

A sociedade brasileira está navegando em um oceano novo, mas pode ser atingida por uma tempestade de leis, decretos e normas administrativas instáveis, contraditórias ou excessivamente complexas. As águas não serão calmas nos próximos anos, o país corre o risco de substituir um contencioso tributário por outro, apenas com novos nomes. É preciso atenção.

(*) é especializada em Direito Tributário e sócia do Tognetti Advocacia.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O papel da leitura no Ensino Superior

 


O PAPEL DO ENSINO SUPERIOR NA FORMAÇÃO DOS LEITORES

Erik Adami (*)

Falar sobre leitura no Brasil exige um olhar atento para os desafios, mas, sobretudo, para as oportunidades concretas de transformação. No ensino superior, universidades ocupam uma posição estratégica: são ambientes em que a leitura deixa de ser apenas um hábito cultural e passa a ser uma ferramenta central de aprendizagem, formação profissional e produção de conhecimento.

A rotina universitária propõe uma imersão constante na leitura. Livros técnicos, obras de referência, artigos científicos, pesquisas e conteúdos complementares fazem parte do dia a dia dos estudantes, especialmente em cursos com alta densidade teórica. Essa dinâmica cria um contexto favorável para o fortalecimento da leitura e formação de excelência.

Cursos como medicina, direito, psicologia e engenharias, são exemplos de formações que demandam leitura ao longo de toda a graduação, pois além do conteúdo pré-estabelecido, há necessidade de aprofundamento e atualização constante. Nesse cenário, a leitura deixa de ser um complemento e passa a ser um pilar fundamental.

Quando bem orientada e acompanhada de perto pelas instituições, a experiência de leitura contribui não apenas para o desempenho acadêmico, mas para a formação de profissionais mais críticos, autônomos e preparados para um mercado em constante transformação. 

Nesse contexto, o digital se consolida como um importante aliado. Bibliotecas digitais ampliam o acesso ao acervo, oferecem títulos atualizados e permitem que estudantes e docentes integrem a leitura de forma mais fluida à rotina acadêmica. Ao reduzir barreiras logísticas, de atualização e concentrar diferentes obras em um único ambiente, as plataformas favorecem o contato frequente com o livro e apoiam estratégias institucionais de incentivo à leitura.

Investir em acesso, curadoria de conteúdo, integração com o currículo e apoio ao estudante é um caminho consistente para ampliar o impacto da leitura no ensino superior. Trata-se de uma estratégia que qualifica a formação acadêmica e contribui, de forma duradoura, para a construção de uma relação mais sólida entre conhecimento, educação e sociedade.

(*) é diretor comercial da Minha Biblioteca (MB), ecossistema de aprendizagem que combina tecnologia, inovação, consultoria especializada, biblioteca digital e um acervo com mais de 15 mil ebooks relevantes para a formação acadêmica e continua.

Ilustração: Universidade do Porto. 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Outro artigo de Samuel Saraiva

 

O SILÊNCIO, O MEDO, A RAZÃO, A SOLIDÃO E O ABISMO

Há momentos em que o mundo não grita — apenas insiste, ou cala.
Insiste com seu rumor constante, com a velocidade das certezas, com o brilho dos gestos vazios. E, ainda assim, por dentro, tudo parece quieto. Não um silêncio pacífico, mas um silêncio de ausência: como se a humanidade tivesse aprendido a falar sem se escutar.
Talvez seja porque, no fundo, todos sentimos o mesmo: a vida começa como um alvorecer — amplo, inocente, cheio de promessas — e caminha, sem exceção, para seu infalível crepúsculo. Entre esses dois extremos, atravessamos o tempo tentando dar sentido ao que passa, tentando sustentar aquilo que não deveria se perder: presença, verdade, dignidade e esperança.
Somos muitos. Mas nem sempre nos encontramos ou estamos juntos.
A solidão contemporânea não é falta de gente; é falta de presença.
É estar cercado de vozes e continuar sem testemunha. É oferecer a própria verdade e vê-la devolvida como se fosse incômodo, ou desinteressante. É ser profundo num tempo em que quase tudo foi projetado para flutuar.
E então percebemos, com certa tristeza lúcida: há abundância de palavras e escassez de convicção. Há retórica de amor por todos os lados — frases bonitas, ensinamentos tocantes — mas poucas mãos dispostas a sustentar o peso do que se diz. O mundo aprendeu a decorar luz sem acender o próprio coração.

A VERDADE EM TEMPOS DE RUÍDO

O ruído, a diversão fulgaz não é apenas barulho: é distração organizada.
É um modo sofisticado de impedir que o essencial nos alcance. É a política da superficialidade o culto do rápido, o vício do aparentemente belo. O ruído ocupa o espaço onde a consciência deveria respirar.
E assim, a verdade vai sendo empurrada para um canto — não por ser falsa, mas por ser incômoda. Porque a verdade exige postura, exige renúncia, exige escolhas. E escolhas, hoje, parecem custar mais do que as pessoas estão dispostas a pagar, ou podem pagar.
O falso, ao contrário, é generoso: ele abraça sem cobrar. Ele consola sem responsabilidade. Ele seduz sem consequência.
E é por isso que prospera.

A LUCIDEZ COMO COMPANHIA

Há quem ache que a lucidez é peso.
Mas, na verdade, a lucidez é abrigo. Ela não nos livra do mundo — ela nos impede de sermos engolidos por ele.
Discernimento é liberdade: é ele que nos solta dos dogmas que abraçamos por simpatia e nos tira da mesmice que impede nossa evolução interior, num mundo ainda cheio de mentes aprisionadas e confusas por ilusões pouco razoáveis.
Em certos dias, a introspecção deixa de ser recolhimento e se torna resistência. Não uma fuga, mas um gesto de dignidade: o esforço silencioso de permanecer inteiro. Porque viver, às vezes, é apenas isso — manter a própria consciência acordada quando tudo ao redor parece anestesiado.
E nesse ponto uma constatação ganha força: a lucidez também é uma forma de companhia. Ela nos prova que ainda há humanidade onde existe reflexão, e ainda há caminho onde existe verdade. Mesmo que ninguém aplauda. Mesmo que ninguém note.
Não escrevo em busca de aplausos, que se limitam a caricia de uma vaidade tola — acariciando o ego empobrecido no ilusório palco dos sentidos. Escrevo por outra razão: porque talvez alguém leia e não se sinta só. Talvez alguém reconheça, por trás das palavras, a mesma inquietação: a sensação de que a consciência, em vez de evoluir, tem regredido sob o peso do brilho, do luxo moral e do espetáculo.

NÃO ESTAMOS SÓS — APENAS DESENCONTRADOS

Talvez a frase mais verdadeira seja também a mais simples: não estamos realmente sós — apenas desencontrados.
Desencontrados no tempo, na pressa, no excesso de ruído. Desencontrados porque a vida virou um corredor e nós esquecemos de olhar nos olhos.
E ainda assim… isso não precisa ser sentença. Pode ser impulso.
Pode nos lembrar que ainda há pontes possíveis, convergências inteligentes, encontros que preservem a honestidade do pensamento e a lógica da impressão genuína — sem drama, sem teatro, sem covardia, sem traição, apenas com a autoridade serena de uma manifestação sensata.
A solidão não é prova de abandono: às vezes é apenas o intervalo que a vida cria antes do reencontro com aquilo que faz sentido.

A DIGNIDADE DO REAL

Há um tipo de beleza que ilude — e há uma beleza que sustenta e fascina.
A primeira brilha; a segunda permanece. A primeira seduz; a segunda transforma. A primeira precisa de plateia; a segunda não precisa nem de aplauso, nem de aprovação.
A dignidade do real está nessa beleza silenciosa: a que não se vende, a que não se exibe, a que não grita para existir alimentando vaidades insustentáveis.
E é justamente por isso que ela se tornou rara.
O glamour é um anestésico. Ele dá a sensação de que estamos vivendo intensamente, quando na verdade estamos apenas evitando o vazio. A aparência é uma máscara sofisticada: ela nos faz parecer inteiros, mas cobra o preço da profundidade e pode ferir a alma.
O real, ao contrário, exige coragem.
E toda coragem verdadeira tem algo de espiritual — não no sentido religioso, mas no sentido humano: a firmeza de sustentar e valorizar aquilo que não se compra.

QUANDO A CONSCIÊNCIA AINDA ILUMINA

A humanidade caminha, muitas vezes, como quem atravessa uma ponte frágil sobre um abismo.
De um lado, a razão; do outro, a loucura. E entre ambas, a linha tênue onde tropeçamos — às vezes por ignorância, às vezes por vaidade, às vezes por conveniência.
O mais assustador não é o abismo em si. É a inversão de valores que nos faz chamar de virtude aquilo que é fuga; de liberdade aquilo que é vício; de autenticidade aquilo que é brutalidade; de liberdade aquilo que aprisiona; de felicidade aquilo que é distração.
E então somos cobertos por um manto esfarrapado de nojo e de vergonha — uma vergonha que tenta se esconder, mas falha diante da luz interior. Porque a consciência, mesmo enfraquecida, ainda ilumina. E quando ela ilumina, dói. E quando dói, é porque ainda existe.
A dor moral é uma prova de que ainda há algo vivo, sensibilidade.
E enquanto houver algo vivo, há possibilidade.

PENSAR ANTES DO CAOS

Não temos como conter a marcha insana dos que conduzem a “civilização” ao caos. Ela avança como uma correnteza.
Mas talvez possamos compreendê-la, e assim sofrer menos com aquilo que impacta e não está sob nosso controle.
Muitas tragédias não são surpresas. São previsões ignoradas.
A ausência de profundidade não se paga de imediato — ela cobra juros no futuro.
O erro recorrente é pensar apenas depois de decidir precipitadamente pelo caos.
Quando a inteligência foi feita para inverter essa ordem: pensar antes, e evitar o dano, próprios e a outros, que a lucidez permite evitar.
Porque a vida não exige que sejamos perfeitos — exige apenas que sejamos honestos o suficiente para aprender com as lições que se repetem, antes que seja tarde.

CONCLUSÃO

No fim, talvez o sentido não esteja em vencer o mundo, nem em convencer multidões. Talvez esteja em atravessar a existência sem abandonar o essencial: a verdade, a sensatez, a responsabilidade, a delicadeza que não precisa de plateia para existir.
Não estamos sós.
Estamos apenas desencontrados.
E essa constatação, longe de nos paralisar, pode — ao contrário — fortalecer em nós o desejo e a razão de seguir adiante com dignidade: do alvorecer ao crepúsculo, até o desfecho inevitável da existência física, que não é um fim absoluto, mas o limiar de uma existência espiritual que prossegue na medida da elevação que conquistamos neste plano — revelada, com clareza, pelas ações, boas ou más, dignas ou indignas, que escolhemos praticar.
Porque, quando tudo passa, resta aquilo que nunca deveria ter sido negociável: o valor de manter a consciência acesa.
Na inquietação da solidão, sob o assobio dos ventos gélidos que açoitam as noites invernais, acontece o diálogo interior — e nele se revela uma certeza silenciosa: em breve a primavera chegará luminosa, para fazer florescer a própria alma, num renascimento existencial.
Talvez a vida só nos peça isso: reconhecer a coragem intacta que ainda nos habita e, com ela, continuar — livres — na direção do destino que nos aguarda.

sábado, 10 de janeiro de 2026

A leitura do real deve ser orientada pela honestidade intelectual

 


Entre a luz e as sombras, habitamos o agora a caminho do infinito

by Samuel Saraiva

A fotografia revela apenas uma estação vazia, envolta em luz e sombra, onde a arquitetura metálica se impõe como uma grande abóbada silenciosa. É a geometria do vazio que se oferece ao olhar: linhas que não apenas sustentam o espaço, mas parecem guardar a memória do tempo. Ali, tudo existe antes da forma e depois do tempo, como se o instante tivesse aprendido a respirar.

Ao centro, uma figura humana avança. Caminha sem nome, sem rosto, quase dissolvida na claridade. É alguém - e são todos. Um corpo em trânsito, símbolo de uma travessia sem nome, seguindo o caminho antes do caminho. Não atravessa apenas uma plataforma, mas um estado de existência. A solidão ali não pesa; ela se revela, discreta, como a solidão compartilhada de todos os que passam.

A luz que desce pela cobertura rasga o espaço e desenha sombras longas no chão. Há um contraste que não fere, apenas sugere. Como se o tempo, cansado de correr, tivesse decidido pausar. Quando o tempo respira, o lugar deixa de ser passagem e se transforma em intervalo -uma pausa entre mundos, o espaço invisível onde algo se desloca sem anunciar-se.

Os trilhos paralelos permanecem vazios. Não há trem, não há ruído -apenas a promessa. São linhas de espera, de deslocamento contido, de futuro suspenso. O lugar onde nada parte e, ainda assim, tudo está prestes a acontecer. Entre partidas e o infinito, compreendemos que partir nem sempre é mover-se; às vezes é apenas aceitar o silêncio.

Há, contudo, lapsos. Brechas no tecido do real. Momentos em que a solidão parece ceder e algo-não visível, não definido- caminha ao nosso lado. Presenças que se aproximam por desígnios que não controlamos ou por escolhas feitas sem plena consciência. Permanecem por um tempo incerto, cumprindo uma função que raramente compreendemos enquanto acontece.

Essas energias desconhecidas não chegam para permanecer. Aproximam-se e se afastam, tocando brevemente o percurso antes de retomarem sua própria órbita. A aproximação e o distanciamento fazem parte da dinâmica da jornada, num universo onde nada é estático e onde os vínculos, por mais intensos que pareçam, são frágeis e transitórios-ainda que relutemos em admitir. São como tênues centelhas de luz, que mal permitem iluminar a consciência de nossa insignificância diante do universo infinito. É nesse desencontro entre a fluidez do existir e o desejo humano de permanência que o apego nasce. E quando ignora a consciência da efemeridade, deixa de ser laço e passa a ferir a alma.

Seguimos, então. Entre a luz e o antes.

Seguimos. Ainda.

Da luz ao agora, caminhamos rumo ao eterno, entre tempestades e calmarias.

Quase imperceptíveis, como ecos que atravessam a leitura.

Nada se impõe; tudo sussurro.

- A leitura da realidade deve ser orientada pela honestidade intelectual e pela consciência dos limites da razão humana. Em sua perspectiva micro, ela é sempre parcial e própria do sujeito, não dos demais, e não garante, por si só, uma visão macro ou uma interpretação profunda do real. Tal postura exige vigilância crítica contra reducionismos dogmáticos, inclusive aqueles expressos sob a forma de realismo ou positivismo absolutos, bem como o enfrentamento dos impulsos instintivos não educados da natureza humana. Essa atitude não denota fraqueza epistemológica, mas expressa humildade reflexiva e maturidade ética diante da complexidade do real.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

2026: UM ANO DE ADIAMENTO

 


2026 não será um ano de crescimento real, mas de adiamento

Por Marcos Gouvêa de Souza (*)

2026 deverá ser um ano de normalidade econômica com algum crescimento e mais um ciclo de postergação com foco prioritário na próxima eleição. Será, na prática, mais um ano de adiamento de decisões, de ajustes e de responsabilidades.  As previsões mostram um crescimento inferior ao do ano anterior – apesar de todos os estímulos já anunciados e implantados. Alguns indicadores irão sustentar essa narrativa mas, por trás dela, o país aprofunda desequilíbrios, posterga ajustes e transfere custos para os próximos ciclos.

Em anos pré-eleitorais, a economia costuma contar histórias melhores do que aquelas que os fundamentos conseguem sustentar. Indicadores escolhidos melhoram, a atividade se mantém em movimento e o discurso da evolução ganha tração. Mas, por trás dessa visão mais favorável, acumulam-se tensões que não desaparecem e apenas são adiadas.

Este ano tende a ser marcado por um baixo crescimento econômico e, ainda assim, artificialmente sustentado. A combinação de estímulos fiscais, expansão do crédito direcionado, políticas de renda, programas de auxílio e investimentos públicos com forte viés eleitoral devem manter a atividade em funcionamento, ainda que com baixo crescimento nominal, ou mesmo desempenho real negativo, quando deflacionados nos segmentos de varejo e consumo, como aconteceu em 2025.

Os dados recentes de desempenho do final do ano envolvendo shoppings centers, foodservice e varejo das lojas físicas apontam que a maioria dos segmentos de comércio, quando deflacionados pela inflação média das categorias envolvidas, mostra desempenho real negativo com exceção do setor de e-commerce e de algumas poucas categorias, o que deve se repetir em 2026.

 

Mudança estrutural no consumo e no varejo

 

Trata-se de uma economia “bombada” por estímulos artificiais de toda ordem, capaz de preservar indicadores no curto prazo, mas que aprofunda as desigualdades, amplia a insegurança econômica e social e posterga ajustes estruturais inevitáveis. O resultado é um crescimento instável e artificial apesar de um momento global altamente favorável ao país por conta de todas as questões que envolvem seus diferenciais na produção de alimentos, energia e recursos minerais estratégicos.

 

Esse cenário implica numa reconfiguração estrutural do consumo e do varejo. De um lado, cresce de forma consistente a participação do varejo de valor, aquele do mais por menos, impulsionado por consumidores mais sensíveis a preço e prazo de pagamento, mais endividados e com menor margem de erro no orçamento doméstico. De outro, o segmento de luxo se mantém, e tende a ampliar seu ritmo de crescimento, sustentado por rendas menos dependentes do ciclo econômico e elevadas remunerações ligadas a aplicações financeiras e por uma demanda estruturalmente mais resiliente.

Nunca convivemos com um consumo tão pressionado na base e tão eufórico no topo.

Ao mesmo tempo, avança a participação dos serviços e soluções associados a produtos como saúde, manutenção, cuidados pessoais, assinaturas, financiamento, seguros e outras modalidades. O consumidor compra menos itens, mais baratos, mas exige mais funcionalidade, conveniência e parcelamento dos pagamentos ao longo do tempo, mesmo que com taxas de juros das mais altas no mundo.

Observa-se também um aumento da participação direta da indústria de bens de consumo no varejo, seja por canais próprios, marketplaces e modelos híbridos, mas sempre com maior envolvimento na relação direta com o consumidor final. Esse movimento intensifica a disputa por margem, dados e fidelidade, elevando de forma estrutural a pressão competitiva sobre o varejo tradicional.

Paralelamente continua a crescer a destinação de renda para apostas online (bets), aprofundando a desconexão entre aumento da massa salarial e consumo produtivo. Esse fenômeno contribui para o avanço do endividamento das famílias e para níveis elevados de inadimplência com impactos diretos sobre a qualidade, a previsibilidade e a sustentabilidade do consumo. As bets deixaram de ser um desvio marginal e passaram a competir diretamente com categorias essenciais do consumo.

 

Pressão competitiva exponenciada

 

O resultado desse conjunto de forças é um ambiente de competição mais intensa e rentabilidade pressionada na maior parte do varejo e dos serviços, com exceção do segmento de luxo e de algumas categorias que preservam maior poder de precificação, diferenciação e fidelização.  No final, 2026 se apresentará menos como um ano de consolidação e mais como um tempo de adiamento.  A aparente normalidade econômica mascara fragilidades que tendem a emergir no ciclo seguinte, quando os estímulos perderem força e a necessidade de correção se tornar inevitável.

 

Nesse contexto, é fundamental a integração das lideranças empresariais dos setores de varejo, consumo e serviços pessoais. Ela deixa de ser desejável para se tornar imperativa, para muito além de questões político-partidárias. Em um ambiente no qual os três Poderes da República mostram-se de forma majoritária mais comprometidos com o curto prazo, com agendas próprias e interesses imediatos e, cada vez mais afastados da construção de um Projeto de Nação de longo prazo, cabe ao setor produtivo assumir um papel mais ativo e responsável.

Se os setores privado e produtivo não ocuparem o espaço do longo prazo, ele será ocupado pelo improviso e pela visão estreita da próxima eleição. E o custo, como sempre, será transferido para a Nação. Pela capilaridade, capacidade de geração de emprego e renda, proximidade diária com o consumidor e peso econômico, esses setores deveriam se integrar, se posicionar e atuar de forma coordenada para construir alternativas ao que hoje parece inevitável.  Isso pode ser feito por meio de agendas comuns e integradas, inovação colaborativa, autorregulação, educação do consumidor ou propostas concretas para o debate público. O quadro futuro não pode estar dado. Ele pode ser moldado pela capacidade coletiva de agir com visão de longo prazo, senso de urgência e compromisso real com a Nação.

Mais do que a reflexão, é preciso ação.

(*) é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem.

 

 

 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

É Indispensável para a democracia ter limites para o poder e respeito à Constituição

 


Quando o poder perde os limites, a democracia adoece

Por Alessandro Soares (*)

A sociedade brasileira acompanha, com crescente perplexidade, os desdobramentos do caso envolvendo o Banco Master, episódio que, a cada nova revelação, expõe uma preocupante confusão entre interesses privados e instituições que deveriam atuar exclusivamente em defesa do interesse público.

O ponto de partida foi a divulgação de um contrato de assessoria jurídica firmado entre o banco e o escritório de advocacia da esposa de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Em um primeiro momento, alguns poderiam relativizar o fato, alegando que relações profissionais dessa natureza fazem parte da dinâmica do mercado.

O espanto, porém, surge com os valores envolvidos. Segundo informações divulgadas, o contrato previa pagamentos mensais de aproximadamente R$ 3,5 milhões, podendo alcançar cerca de R$ 120 milhões ao final, cifras consideradas muito acima dos padrões praticados no setor, conforme apontam especialistas.

A situação se agrava quando se torna público que um processo envolvendo o Banco Master passou a tramitar no STF sob segredo de justiça. Trata-se de um caso de evidente interesse público, uma vez que envolve suspeitas de fraude e possíveis impactos diretos sobre a sociedade. O sigilo, nesse contexto, levanta questionamentos legítimos sobre transparência e accountability.

Há ainda relatos de que a decisão pelo segredo de justiça teria ocorrido após um encontro informal entre um ministro e advogados do banco, em um voo fretado para acompanhar a final de um campeonato. Episódios como esse, no mínimo, comprometem a confiança da população na imparcialidade das instituições e reforçam a sensação de distanciamento entre o poder e os cidadãos comuns.

Mais recentemente, novas informações divulgadas pela imprensa indicam reuniões de outro ministro com o objetivo de interceder para evitar a decretação da falência do banco - justamente no período em que o escritório de sua esposa mantinha um contrato milionário com a instituição financeira.

Não falo aqui apenas como representante dos professores paulistas. Falo como cidadão que se indigna ao ver princípios constitucionais básicos - como moralidade, impessoalidade e transparência - sendo colocados em xeque por aqueles que deveriam ser seus maiores guardiões.

A pergunta que se impõe é simples e incômoda: se os envolvidos não ocupassem cargos de poder, a postura das instituições seria a mesma? Ou veríamos, como tantas vezes ocorre, medidas imediatas e severas, como bloqueio de bens, apreensão de passaportes e decisões sumárias?

Quando o poder não encontra limites, ele embriaga. E quem se embriaga com o poder, raramente aceita abdicar dele…

Enquanto isso, o país assiste a uma sucessão de escândalos que, muitas vezes, funcionam como cortinas de fumaça, desviando a atenção de outros problemas igualmente graves, como os que atingem aposentados e pensionistas lesados em fraudes contra o INSS.

Não se trata de atacar a democracia, mas de defendê-la. Defender a democracia significa exigir responsabilidade, transparência e respeito às instituições. Significa afirmar, sem ambiguidades, que ninguém está acima da lei.

Sem uma Justiça verdadeiramente independente, não há democracia plena. Sem limites ao poder, não há Constituição que resista.

(*) é pedagogo, advogado e Diretor-Geral Administrativo do Centro do Professorado Paulista (CPP).