segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

É Indispensável para a democracia ter limites para o poder e respeito à Constituição

 


Quando o poder perde os limites, a democracia adoece

Por Alessandro Soares (*)

A sociedade brasileira acompanha, com crescente perplexidade, os desdobramentos do caso envolvendo o Banco Master, episódio que, a cada nova revelação, expõe uma preocupante confusão entre interesses privados e instituições que deveriam atuar exclusivamente em defesa do interesse público.

O ponto de partida foi a divulgação de um contrato de assessoria jurídica firmado entre o banco e o escritório de advocacia da esposa de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Em um primeiro momento, alguns poderiam relativizar o fato, alegando que relações profissionais dessa natureza fazem parte da dinâmica do mercado.

O espanto, porém, surge com os valores envolvidos. Segundo informações divulgadas, o contrato previa pagamentos mensais de aproximadamente R$ 3,5 milhões, podendo alcançar cerca de R$ 120 milhões ao final, cifras consideradas muito acima dos padrões praticados no setor, conforme apontam especialistas.

A situação se agrava quando se torna público que um processo envolvendo o Banco Master passou a tramitar no STF sob segredo de justiça. Trata-se de um caso de evidente interesse público, uma vez que envolve suspeitas de fraude e possíveis impactos diretos sobre a sociedade. O sigilo, nesse contexto, levanta questionamentos legítimos sobre transparência e accountability.

Há ainda relatos de que a decisão pelo segredo de justiça teria ocorrido após um encontro informal entre um ministro e advogados do banco, em um voo fretado para acompanhar a final de um campeonato. Episódios como esse, no mínimo, comprometem a confiança da população na imparcialidade das instituições e reforçam a sensação de distanciamento entre o poder e os cidadãos comuns.

Mais recentemente, novas informações divulgadas pela imprensa indicam reuniões de outro ministro com o objetivo de interceder para evitar a decretação da falência do banco - justamente no período em que o escritório de sua esposa mantinha um contrato milionário com a instituição financeira.

Não falo aqui apenas como representante dos professores paulistas. Falo como cidadão que se indigna ao ver princípios constitucionais básicos - como moralidade, impessoalidade e transparência - sendo colocados em xeque por aqueles que deveriam ser seus maiores guardiões.

A pergunta que se impõe é simples e incômoda: se os envolvidos não ocupassem cargos de poder, a postura das instituições seria a mesma? Ou veríamos, como tantas vezes ocorre, medidas imediatas e severas, como bloqueio de bens, apreensão de passaportes e decisões sumárias?

Quando o poder não encontra limites, ele embriaga. E quem se embriaga com o poder, raramente aceita abdicar dele…

Enquanto isso, o país assiste a uma sucessão de escândalos que, muitas vezes, funcionam como cortinas de fumaça, desviando a atenção de outros problemas igualmente graves, como os que atingem aposentados e pensionistas lesados em fraudes contra o INSS.

Não se trata de atacar a democracia, mas de defendê-la. Defender a democracia significa exigir responsabilidade, transparência e respeito às instituições. Significa afirmar, sem ambiguidades, que ninguém está acima da lei.

Sem uma Justiça verdadeiramente independente, não há democracia plena. Sem limites ao poder, não há Constituição que resista.

(*) é pedagogo, advogado e Diretor-Geral Administrativo do Centro do Professorado Paulista (CPP).


segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

O Impacto da IA no Futuro Corporativo

 


O futuro corporativo impulsionado pela IA em 2026

por Rodrigo Costa, CTO & Head de Digital Business da Kron Digital


A Inteligência Artificial entra em um período de maturidade e passa a ocupar posição central nas estratégias corporativas, substituindo iniciativas experimentais por aplicações concretas que reorganizam operações, aprimoram a tomada de decisões e reconfiguram a dinâmica competitiva entre empresas. O foco deixa de estar restrito à automação de tarefas e avança para o uso inteligente de dados, criando ambientes de aprendizado contínuo e maior precisão nas decisões de negócio.

A consolidação desse novo ciclo aparece em análises de mercado que indicam uma adoção acelerada da tecnologia. Projeções da Gartner estimam que mais de 80% das organizações utilizarão IA de maneira estruturada até 2026, número muito superior aos cerca de 5% registrados em 2023. No mesmo período, aproximadamente 80% dos softwares comerciais incluirão recursos generativos. Estudos da McKinsey mostram que empresas que integram IA em múltiplas frentes de operação percebem aumentos de produtividade entre 20% e 30%, o que reforça a relevância estratégica.


Expansão da IA generativa


O avanço da IA generativa amplia o alcance da inovação tecnológica e facilita o desenvolvimento de soluções internas. Plataformas no-code e low-code criam oportunidades para que empresas de diferentes portes implementem soluções com maior agilidade e menor dependência de equipes especializadas. Levantamento da IDC aponta que 53% das organizações brasileiras já adotam essa abordagem como prioridade estratégica.

Essa ampliação pode ser observada também na evolução do uso corporativo. A pesquisa conduzida pela McKinsey revela que a aplicação consistente da IA generativa praticamente dobrou em menos de um ano, com dois terços das empresas utilizando a tecnologia de maneira regular em áreas operacionais e de suporte. Esse ritmo evidencia um movimento contínuo de integração tecnológica e não mais iniciativas isoladas.


Agentes autônomos em evolução


O crescimento dos agentes autônomos de IA inaugura uma nova dinâmica nas relações de consumo e transação digital. Estimativas da Gartner indicam que três bilhões de dispositivos conectados já atuam como compradores em ecossistemas B2B, com previsão de alcançar oito bilhões até 2030.

Essa dinâmica altera a forma como empresas se relacionam com clientes e fornecedores e reduz gradualmente a dependência de buscas tradicionais, que devem recuar aproximadamente 25% até 2026. As organizações que estruturarem sistemas capazes de negociar, comparar e executar transações de maneira autônoma poderão ocupar posições competitivas mais sólidas.


Transformação em setores essenciais


Os efeitos da IA tornam-se cada vez mais evidentes em segmentos estratégicos da economia e já influenciam a forma como produtos e serviços são concebidos. Na área da saúde, sistemas inteligentes passam a apoiar diagnósticos por imagem e decisões clínicas de maneira integrada ao fluxo de trabalho médico, contribuindo para maior precisão e agilidade. Essa evolução acompanha o crescimento de um mercado que pode ultrapassar US$ 187 bilhões até 2030, impulsionado pela combinação entre análise avançada de dados, automação e suporte assistivo aos profissionais.

A educação também avança para um modelo orientado por hiperpersonalização. Plataformas adaptativas permitem construir jornadas de aprendizagem ajustadas às necessidades e ao ritmo de cada estudante, com ganhos de eficiência que podem chegar a 50% segundo estudos da McKinsey. O papel dos educadores passa a ser mais estratégico, concentrado em acompanhamento, orientação e desenvolvimento de habilidades humanas, enquanto a tecnologia assume parte das tarefas repetitivas e analíticas.

O agronegócio segue trajetória semelhante com o uso crescente de sensores conectados, imagens de satélite e algoritmos preditivos aplicados ao monitoramento de safras, análise de solo e gestão de recursos. A combinação de dados e automação oferece suporte a decisões mais precisas, reduz desperdícios e fortalece práticas sustentáveis, consolidando o setor como laboratório ativo para inovação tecnológica e produtividade em escala.


Estruturas de governança como suporte de confiança


A ampliação do uso corporativo da IA coloca a governança no centro das decisões estratégicas. Transparência, explicabilidade e proteção de dados tornam-se elementos prioritários, especialmente diante do aumento do volume de informações sensíveis e do potencial impacto de decisões automatizadas. Estruturas de governança robustas ajudam a prevenir modelos tendenciosos, garantir controle sobre os resultados gerados e preservar a integridade das operações digitais.

O avanço da regulamentação brasileira aponta para a necessidade de práticas capazes de garantir responsabilidade e supervisão humana contínua. A construção de confiança com clientes, investidores e colaboradores depende de mecanismos claros de auditoria e monitoramento, assegurando que a autonomia tecnológica esteja alinhada aos valores corporativos e aos parâmetros éticos de mercado. Nesse cenário, a governança deixa de ser componente adicional e passa a orientar a adoção segura e sustentável da IA no ambiente empresarial.


Sustentabilidade como critério tecnológico


O crescimento do uso de tecnologias intensivas em dados e processamento amplia a preocupação com o impacto ambiental. A modernização dos data centers, aliada a novos métodos de processamento mais eficiente, permite equilibrar desempenho e responsabilidade ambiental, especialmente diante da crescente discussão sobre consumo energético e emissões geradas por modelos avançados de IA. Nesse contexto, soluções projetadas para eficiência energética ganham espaço nos critérios de seleção tecnológica.

O uso de dados sintéticos, apontado pela Gartner como alternativa relevante para reduzir a necessidade de grandes bases de dados reais, reforça esse movimento ao viabilizar experimentação e desenvolvimento de modelos com menor demanda de infraestrutura. Sustentabilidade e inovação deixam de ocupar esferas separadas e passam a definir decisões estratégicas, acompanhando o avanço das práticas de ESG nas avaliações de investimentos tecnológicos.


Direcionamento estratégico para 2026


A evolução da inteligência artificial no ambiente corporativo sinaliza uma fase em que o diferencial competitivo não estará restrito ao acesso à tecnologia, mas à capacidade de incorporá-la de forma estratégica e consistente ao longo dos processos de negócio. O avanço para modelos mais autônomos exige que as empresas desenvolvam estruturas internas capazes de acompanhar o ritmo das inovações, com governança sólida, integração sistêmica e adaptação contínua. O futuro da tecnologia nas organizações dependerá de ecossistemas preparados para aprender e se transformar de maneira permanente.

Essa trajetória envolve a formação de competências que permitam converter potencial tecnológico em valor real. Iniciativas de educação tecnológica, programas estruturados de qualificação e ambientes corporativos que favoreçam colaboração entre profissionais e sistemas inteligentes constituem bases essenciais para sustentação desse movimento. O horizonte aponta para um cenário em que a integração progressiva entre pessoas e IA se torna determinante para a construção de resultados consistentes e para a consolidação de uma cultura orientada à inovação de longo prazo.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Talvez sirva para você, ao menos, refletir

 


O poder de começar pequeno

Por Marcelo do Rego (*)

Há dias que marcam a vida. Para mim, esse dia foi 24 de dezembro de 2018. Enquanto o mundo vibrava com o brilho do Natal, eu encarava o espelho interno que evitara por anos. A pergunta que rondava minha mente era direta, quase crua: que pai gostaria ser para meus gêmeos, Joaquim e Samuel, estando mergulhado na responsabilização do externo, em ressentimentos e nos fantasmas dos traumas do passado?

Sabia que não podia continuar sendo o mesmo homem que colecionava promessas vazias, aquelas que começam com “segunda-feira eu mudo” e terminam no mesmo abismo de sempre. Precisava fazer algo, qualquer coisa. E a verdade é que, quando tudo parece demais, o simples se torna o único caminho possível.

Foi então que as perguntas, as ferramentas silenciosas da consciência, começaram a cutucar meus medos. Pensei comigo, o que eu posso fazer, com o que eu tenho aqui, agora? A resposta não veio em forma de um plano grandioso. Olhando para a mesa de jantar, tomei uma decisão que parecia simples, mas na realidade, lá na frente, mudaria tudo: eu deixaria de tomar o refrigerante que mais gostava por 30 dias.

Parece pouco? Para alguns, talvez. Para mim, era como mover uma montanha. Não pelo refrigerante em si, mas pelo que ele representava: costume automático, afeto infantil, fuga rápida, anestesia. Nos dias seguintes, comecei a perceber que me sentia menos inchado e mais disposto. Surpreendentemente, mexendo em um hábito, outros começaram a se rearrumar.

Foi aí que entendi o padrão. E padrões, quando reconhecidos, deixam de ser prisão e viram mapa. Comecei pequeno, mudando um hábito. Depois, abandonei o açúcar como um todo, passei a tomar banhos gelados pra despertar o corpo, a ler mais pela manhã, a meditar, a escrever em um diário... Um fio puxa o outro, até que percebi que estava tecendo uma vida nova.

Enquanto eu mudava, o mundo ao redor reagia, com algumas pessoas apoiando, outras debochando, outras tentando me puxar de volta para o “normal” que sempre me fez mal. A verdade é que crescer incomoda quem está parado. Também descobri algo profundo: somos feitos dos ambientes que escolhemos. Ande com quem busca saúde, e logo você estará cuidando do seu bem-estar. Caminhe com quem se destrói, e a queda vira rotina.

E assim, passo a passo, hábito a hábito, comecei a reencontrar o pai que meus filhos merecem, o homem que eu queria ser, a vida que eu ainda podia construir. Hoje, olho para trás e vejo que não foi a ausência de um refrigerante que mudou meu destino. Foi a coragem de começar pequeno. Foi a lucidez de assumir que só poderia mudar com o que eu tenho, aqui, agora. Foi a escolha de abandonar a versão cinza de mim mesmo para dar chance a algo mais vivo, mais inteiro, mais presente.

No fim, percebi que toda grande transformação, aquela que resgata, que fortalece, que devolve o brilho, nasce de um gesto quase imperceptível. E talvez outras pessoas estejam agora exatamente no ponto onde eu estive naquele Natal. Para elas, ou para você que me lê agora, faço a pergunta que mudou a minha vida: qual decisão simples você pode tomar agora e que lá na frente pode mudar tudo?

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(*)  é pai de gêmeos, maratonista, empreendedor e palestrante, autor de “Do Tarja Preta à São Silvestre

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Um artigo sobre o papel da aula




Quando a aula vira uma "conversa"

Sergio Felipe Moraes  (*)

Muitos dos comentários sobre educação no meio digital, feitos por diversos especialistas, abordam direta ou indiretamente a “aula”. Ela está no centro do debate educacional, mesmo que não seja citada ou problematizada. 

Em virtude das recentes transformações do mundo, talvez não faria sentido “dar aula” ou defender esse conceito. Tecnicamente, videoaulas já podem reproduzir o modelo de “aula palestra”, podendo ser assistidas infinitas vezes pelos alunos. Nesse sentido, programas que utilizam a inteligência artificial generativa na educação tentam reproduzir o modelo da “aula expositivo-dialogada”, baseado em perguntas problematizadoras e nas “perguntas de compreensão” mobilizadas pela docência em aulas presenciais. O modelo da “aprendizagem ativa”, em muitos casos, transforma a aula em um jogo de perguntas e respostas – um quiz. 

O que parece estar obsoleto não é a aula, mas o conceito de aula e os modelos que tentam reproduzi-la na atualidade, seja na versão convencional ou na oriunda do mundo digital. Primeiramente, a linguagem não é um espelho que reflete automaticamente o sentido das coisas existentes neste mundo. Algo pode ser dito e não necessariamente compreendido, ou pode ser entendido de outro modo. 

Outro problema é que a pergunta e o questionamento do estudante funcionam como intromissão nas formas de conduzir as aulas, restringindo o espaço para expansão do pensamento e das formas de ser. E o aspecto fundamental é o desafio de saber lidar com interesses e desinteresses dos alunos pela educação escolar, especialmente quando se leciona para a juventude. 

O conceito de “aula como conversa” surge em resposta a esses desafios, sendo compreendido como “espaço para debates” que “produz entendimentos por meio da comunicação”. Ela é aberta a perguntas e a conjecturas do outro, a afetar e ser afetado. O entendimento funciona como resposta ao espaço de abertura ao contraditório, à busca por “algo a mais” que dependa do outro para existir.  

Metodologicamente, a ideia é planejar como sensibilizar e despertar a curiosidade do outro para aprender algo que inicialmente não desejava, mas que pela reelaboração do conhecimento feita, passa a interessá-lo e afetá-lo. Incentivar os educandos a perguntarem o que sabem e o que não sabem para ler, escrever e desenvolver o pensamento crítico de forma integrada. E defender a necessidade de avaliar a aprendizagem conforme as professoras alfabetizadoras, que utilizam a “prática guiada” como parte do processo avaliativo. 

(* ) é doutorando e mestre em Ensino de História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, além de especialista em Educação Tecnológica (Cefet-RJ). É autor do livro "Aula como conversa”.  

 

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

É possível fazer acontecer? Zeppo diz que sim.

 


Empreender: o #FazerAcontecer além de um CNPJ

Por Marcio Zeppelini (*)

No mundo atual, em que a velocidade das transformações dita o ritmo, “empreender” deixou de ser sinônimo de abrir uma empresa. A palavra ganhou densidade. Empreender não é privilégio de poucos nem se resume a um CNPJ ou a um balanço no fim do mês. É, sobretudo, uma atitude: a disposição de construir, inovar e transformar.

Jean Cocteau resumiu essa postura ao afirmar: “Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez.” A frase encapsula o espírito do #FazerAcontecer — identificar um problema, uma necessidade ou um vazio e ter a iniciativa de buscar uma solução. Empreender é colocar energia, tempo e propósito na criação de algo que gere impacto positivo.

Sim, você pode empreender ao fundar uma startup capaz de remodelar um setor. Mas também empreende a mãe que organiza a festa do filho, o voluntário que se dedica a uma causa social, o grupo que revitaliza uma praça ou o profissional que, dentro de uma grande empresa, propõe uma nova metodologia de trabalho. Empreendimento é tudo aquilo que se constrói passo a passo, com intenção e dedicação. É realização na forma mais concreta.

Empreendedorismo e sociedade: a inquietude que move o mundo

Na essência, empreender é entregar valor. É olhar para a sociedade e se perguntar: “Como posso melhorar isso? Como posso provocar uma mudança real?” Muitas vezes surge a dúvida: “Se tenho propósito social, posso ter lucro?” Pode — e deve. Propósito e sustentabilidade financeira não se anulam; quando caminham juntos, fortalecem o impacto.

Construir um negócio que gera receita e, ao mesmo tempo, benefícios sociais é plenamente possível. O ganho financeiro torna-se consequência de um trabalho bem-feito, guiado por propósito. Ele não deveria ser o único motivo da ação, mas um dos resultados naturais de uma entrega consistente.

O Setor 2.5: onde propósito e modelo de negócio convergem

Avança no Brasil o debate sobre negócios de impacto, as organizações do chamado “setor dois e meio”. São iniciativas que nascem com o objetivo de resolver questões sociais ou ambientais, como moradia, educação, saúde ou inclusão digital.

A diferença está no modelo: esses negócios são financeiramente sustentáveis. Geram receita, pagam seus custos e reinvestem o lucro na ampliação do impacto. O investidor pode recuperar seu capital, mas o foco principal é o avanço da causa. O sucesso é mensurado não só pelo faturamento, mas pela transformação gerada na vida das pessoas e nos territórios.

É a materialização de um sonho coletivo — um caminho em que #Inspiração e #Atitude realmente conseguem #FazerAcontecer.

Por onde começar?

Se a vontade de construir algo existe, mas o caminho ainda parece nebuloso, tudo bem. Empreender é uma jornada de persistência. O Brasil segue como um dos países mais empreendedores do mundo, o que evidencia que essa inquietude faz parte da nossa cultura. Alguns pontos de partida:

Problemas e oportunidades: onde o incômodo vira ação

Observe seu entorno. Quais problemas te incomodam? O que poderia ser melhor? Muitas soluções nasceram justamente da insatisfação — de aplicativos de entrega a serviços digitais que simplificaram rotinas. A “incomodação” é semente para inovação.

Segmento de atuação: defina onde quer estar

Entre tantas causas e setores possíveis, qual realmente conversa com você? Educação, sustentabilidade, finanças, saúde, moradia? Foco é fundamental.

Público-alvo: quem você quer impactar?

Compreender profundamente quem vivencia o problema é condição básica. Sonhos, dores, hábitos, barreiras — tudo isso importa. Sem conexão com o público, a melhor ideia não se sustenta.

Concorrência: aprender com quem já atua

Identifique quem já está no mesmo campo. Não para copiar, mas para entender. Analisar boas práticas, lacunas e oportunidades é parte do processo de construção de valor.

Necessidades: recursos tangíveis e intangíveis

Defina o que será necessário — produtos, serviços, equipamentos, investimentos. Mas não subestime os recursos intangíveis: habilidades, rede de contatos, criatividade, tempo, persistência. Eles são, muitas vezes, tão relevantes quanto capital.

Validação: testar, aprender e ajustar

Ideias brilham na cabeça, mas precisam enfrentar a realidade. Testes, conversas, protótipos e pesquisas trazem respostas. Ajustes fazem parte da jornada. Feito é melhor que perfeito.

Capacitação e informação: conhecimento como propulsor

Busque formação e referências qualificadas. Aprendizado constante é combustível para a evolução. Sebrae e Instituto Filantropia, por exemplo, são bons pontos de partida.

Networking: o valor das conexões

Relacionamentos movem negócios. Criar vínculos, trocar experiências e formar parcerias estratégicas acelera trajetórias. Ser genuíno e oferecer antes de pedir abre caminhos que o talento sozinho não abre.

Plano de negócio: direção e clareza

Com as informações organizadas, coloque o plano no papel. Defina metas, objetivos e indicadores. A metodologia SMART (Específico, Mensurável, Atingível, Relevante e Temporal) ajuda a dar firmeza ao caminho e mapear riscos é essencial para executar com confiança.

Formalização: estrutura para crescer

Quando o projeto evolui, formalizar o negócio, mesmo como Microempreendedor Individual (MEI), amplia credibilidade, permite emissão de nota e abre acesso a fornecedores e oportunidades.

A magia está em você

Empreender é um ciclo contínuo de sonhar, planejar, executar e aprender. É aceitar erros, insistir, improvisar e avançar. Não espere condições ideais: comece com o que tem. Não se limite ao visível: explore o que ainda não existe. Não mire o mínimo: busque impacto.

A magia do #FazerAcontecer não está em técnicas mirabolantes, mas na capacidade humana de transformar inspiração em realização. O convite é simples: levante a cabeça, deixe para trás o que não serve mais, abra espaço para novas ideias e siga. O movimento é essencial.

(*) é conhecido como ZEPPA, é empresário, empreendedor social e palestrante. Autor de “A Magia de #FazerAcontecer”. CEO da Rede Filantropia, diretor-executivo da Zeppelini Publishers e CMO da G&F Projetos de Impacto. Mais em: www.zeppa.com.br.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

A FALTA DE UMA POLÍTICA INDUSTRIAL REPRESENTA UM CUSTO MUITO ALTO

 


O CUSTO DA FALTA DE POLÍTICA INDUSTRIAL

Por Paulo D. Villares (*)

A cada novo levantamento sobre o desempenho da indústria brasileira, repete-se o mesmo diagnóstico: estagnação, queda no emprego e falta de direção. Os dados mais recentes da Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontam uma produção praticamente parada e a retração no número de trabalhadores.

Esses índices são apenas mais um sintoma de um problema estrutural que se arrasta há décadas: a ausência de uma política industrial consistente, estável e de longo prazo.

O Brasil vive há anos preso a um ciclo vicioso de improviso. A cada governo, novos programas são lançados com grande entusiasmo e pouca continuidade. Falta planejamento integrado entre Estado, empresas e universidades; sobram medidas pontuais, incentivos desarticulados e uma crença ingênua de que o mercado resolverá sozinho os gargalos de competitividade.

Enquanto isso, outros países constroem estratégias de Estado, apostam em inovação e formam gerações de engenheiros, técnicos e pesquisadores capazes de sustentar políticas industriais robustas.

Além disso, parte relevante da indústria nacional, com as devidas exceções, não investiu o suficiente para se tornar realmente competitiva. Muitas empresas ainda não entendem que competitividade está diretamente ligada à capacidade de exportar. Exportar é o termômetro.

Para isso, é indispensável apostar em inovação e, por um período determinado e bem planejado, contar com incentivos governamentais que fortaleçam setores estratégicos.

Após atingida a competitividade, esses incentivos devem ser reduzidos ou eliminados, exatamente como fizeram países que hoje são referência industrial.

Uma política industrial eficiente precisa combinar diretrizes setoriais com fatores horizontais, como redução do chamado Custo Brasil e maior estabilidade cambial. No entanto, o ponto-chave é que as empresas compreendam seu papel nessa agenda: é necessário trabalhar em cooperação com o Estado e a academia, com metas claras de produtividade, internacionalização e desenvolvimento tecnológico.  

Proteções podem existir, desde que temporárias e vinculadas ao ganho real de eficiência, jamais como muletas permanentes.

Não há atalhos. Um país competitivo se constrói com visão de longo prazo, estabilidade regulatória e compromisso coletivo com a produtividade. Precisamos de uma política industrial que vá além de subsídios e protecionismos, que incentive a inovação e premie quem investe em eficiência.

O Brasil tem talento, criatividade e recursos, mas o que falta é coordenação estratégica e coragem para pensar grande.

Perseguir utopias é, em certo sentido, o que move o progresso. Mas é preciso transformar a utopia de uma nação industrial forte em projeto concreto. Enquanto tratarmos a indústria como tema secundário, continuaremos estagnados, acumulando estoques em vez de conquistas.

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(*)   é empresário e engenheiro, referência na indústria nacional e autor de "Perseguindo Utopias”.

domingo, 19 de outubro de 2025

Magia do Natal não deve ser perdida no excesso de consumo

 


QUANDO A MAGIA DO NATAL SE PERDE NO EXCESSO DE CONSUMO

Por Vivian Bianchi (*)

O Natal carrega em sua essência a celebração de afeto, de memórias e de encontros que marcam a vida das pessoas. No entanto, em meio ao apelo comercial das vitrines iluminadas e campanhas publicitárias que vendem a promessa do “enfeite perfeito”, essa atmosfera simbólica muitas vezes se converte em um ciclo de consumo sem propósito. A data, que deveria remeter à emoção e ao encantamento, acaba sendo associada à pressão por adquirir cada vez mais objetos decorativos.

O comportamento de compra impulsiva é um reflexo dessa lógica em que muitos consumidores, atraídos por promoções ou pelo imediatismo das campanhas, acabam adquirindo peças sem avaliar se elas realmente dialogam com o que já possuem ou se contribuem para uma composição coerente. Segundo a plataforma Neotrust Confi, o setor de e-commerce movimentou R$ 26 bilhões durante o período de Natal em 2024. O ticket médio também registrou um aumento, atingindo R$ 526 por pessoa, crescimento de 17% em comparação ao Natal de 2023.

O resultado, em grande parte dos casos, são árvores e ambientes que parecem colchas de retalhos: cheios de ornamentos, mas desprovidos de identidade estética e emocional. A repetição desse padrão revela uma confusão de acreditar que a quantidade de enfeites é o que define a beleza da decoração natalina, mas na prática, ocorre o oposto. A abundância de peças desconexas compromete a harmonia do espaço e dilui o impacto visual. Uma árvore bem planejada, com cores equilibradas e elementos que se complementam, tende a transmitir muito mais sofisticação e encanto do que uma montagem carregada de adornos.

Outro efeito colateral desse consumo desordenado é o desperdício, em que, por exemplo, objetos comprados por impulso, sem planejamento ou visão de conjunto, frequentemente acabam esquecidos em caixas nos anos seguintes. A cada temporada, repete-se o ciclo de novas aquisições, enquanto boa parte do acervo permanece inutilizada. Esse hábito reforça não apenas um problema estético, mas também financeiro e ambiental, ao estimular compras que não agregam valor real.

Tratar a decoração como projeto, e não como improviso, muda completamente a relação com a data. Definir previamente uma paleta de cores, escolher um estilo coerente e valorizar peças já existentes são medidas que dão unidade ao ambiente e reforçam sua identidade. Mais do que estética, essas escolhas devolvem à celebração um significado que conecta a tradição com a experiência sensorial de acolhimento.

Esse olhar planejado também amplia o potencial de encantamento, já que quando os elementos conversam entre si, o espaço decorado ganha personalidade, se torna memorável e envolve emocionalmente quem o vivencia. É nesse equilíbrio entre emoção e estética que a magia natalina se mantém viva, em vez de se perder em compras sucessivas que não traduzem pertencimento.

Vale ressaltar ainda que a experiência natalina não se resume a enfeites, mas ao contexto em que eles estão inseridos. Uma decoração coerente e significativa cria a atmosfera para encontros familiares, trocas de presentes e momentos de afeto, que permanecem na memória muito além da temporada. Assim, a intenção que guia a escolha de cada detalhe é o que realmente define a força simbólica do Natal.

No fim, a celebração não deve ser lembrada pelas sacolas acumuladas ao longo de dezembro, mas pela capacidade de transformar os espaços em locais de cuidado, aconchego e beleza compartilhada. Ao substituir a pressa do consumo pelo planejamento consciente, a data recupera seu sentido mais genuíno: reunir pessoas em torno de um ambiente que traduz emoção e preserva a verdadeira magia natalina.

 

(*) é diretora criativa e fundadora da Tree Story, empresa de projetos de decoração natalina, formada em Design de Interiores pela EBAC, com especializações em produção e cenografia pelo IED São Paulo e IED Barcelona.